Zelensky acusa Putin de iniciar Terceira Guerra e rejeita cessar-fogo
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, acusa Vladimir Putin de já ter iniciado uma Terceira Guerra Mundial e descarta concessões territoriais em troca de cessar-fogo. A declaração é feita em 24 de fevereiro de 2026, quando a invasão russa completa quatro anos.
Zelensky endurece o discurso em meio à guerra prolongada
Quatro anos após as primeiras explosões atingirem Kiev, Kharkiv e outras cidades ucranianas, Zelensky usa uma entrevista exclusiva à BBC para elevar o tom contra o Kremlin. Ele afirma que o conflito já ultrapassa as fronteiras da Ucrânia e redefine o mapa de segurança do planeta. “Acredito que Putin já a começou”, diz, ao se referir a uma Terceira Guerra Mundial em curso.
O presidente ucraniano sustenta que o objetivo russo não se limita à conquista de cidades e regiões específicas. “A questão é quanto território ele conseguirá tomar e como detê-lo. A Rússia quer impor ao mundo um modo de vida diferente e mudar as vidas que as pessoas escolheram para si”, afirma. A fala mira não só Moscou, mas também governos ocidentais que começam a discutir saídas negociadas.
A entrevista ocorre num momento de desgaste militar e social profundo. O país encara destruição em larga escala, economia pressionada e cansaço da população, enquanto busca manter o apoio de aliados na Europa e nos Estados Unidos. Do outro lado, a Rússia insiste em manter ganhos territoriais e desafia sanções aplicadas desde 2022.
Zelensky sabe que cada palavra ecoa em capitais estratégicas como Washington, Berlim e Paris. Ao falar em Terceira Guerra Mundial, ele tenta enquadrar a invasão russa como uma ameaça global, não apenas um conflito regional no leste europeu. O cálculo político é claro: manter a percepção de que recuar agora significa abrir espaço para novas ofensivas russas em outros países.
Territórios estratégicos no centro da disputa
A recusa a um cessar-fogo com concessões territoriais é o ponto central da mensagem de Zelensky. Segundo ele, qualquer acordo que exija retirada ucraniana de áreas estratégicas hoje sob disputa é inaceitável. A proposta em discussão inclui cerca de 20% da região oriental de Donetsk e zonas cruciais nas regiões de Kherson e Zaporizhzhia, onde se concentram rotas logísticas, infraestrutura de energia e acesso ao mar.
“Não encaro isso simplesmente como terra. Vejo como abandono, enfraquecendo nossas posições, abandonando centenas de milhares de nossos cidadãos que vivem ali”, afirma. O presidente diz temer uma fratura interna se Kiev aceitasse ceder territórios que a Rússia não conseguiu tomar pela força. “Tenho certeza de que essa ‘retirada’ dividiria nossa sociedade”, completa.
O cálculo vai além da geografia. Manter Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia sob bandeira ucraniana significa preservar corredores comerciais, usinas de energia e acesso a áreas agrícolas que sustentam parte relevante da economia nacional. Também significa enviar um recado direto a Moscou de que a guerra não resultará em reconhecimento de anexações.
Zelensky reforça que seu objetivo segue o mesmo de 2022: recuperar os territórios ucranianos hoje ocupados por forças russas. Na entrevista, ele insiste que qualquer cessão adicional apenas adia o próximo confronto. Segundo o presidente, atender a exigências de Putin “satisfaria os desejos dele apenas por um tempo” e não impediria novas ofensivas. “Ele não deve parar na Ucrânia”, afirma.
Enquanto líderes europeus discutem saídas diplomáticas e parte da opinião pública internacional pede uma trégua, a posição de Kiev torna um acordo imediato improvável. A mensagem é que o preço proposto por Moscou é alto demais, tanto em termos militares quanto simbólicos.
Conflito já deixa milhares de mortos e ameaça ordem global
O discurso de Zelensky ganha peso diante do balanço humano e militar do conflito. A Organização das Nações Unidas estima cerca de 15 mil civis mortos desde 2022 e mais de 40 mil feridos. Só entre mulheres e meninas, mais de 5 mil morrem em ataques, bombardeios e combates em áreas urbanas, enquanto 14 mil ficam feridas. O órgão alerta que os números reais podem ser ainda maiores.
O último ano se torna o mais letal da guerra, com aumento de ataques contra regiões residenciais, uso de armamentos de longo alcance e destruição sistemática de infraestrutura básica. Hospitais, escolas e redes elétricas entram na linha de tiro, ampliando o drama de milhões de deslocados internos e refugiados espalhados pela Europa.
No campo militar, estimativas do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais indicam baixas em escala raramente vista nas últimas décadas. Do lado russo, quase 1,2 milhão de soldados são mortos, feridos ou ficam fora de combate, incluindo cerca de 325 mil mortes. As forças ucranianas acumulam aproximadamente 600 mil baixas, com 140 mil mortos. Os números, ainda que contestados em Moscou, ilustram a dimensão da guerra de atrito em curso.
As consequências ultrapassam as fronteiras dos dois países. A guerra desorganiza cadeias globais de energia e alimentos, provoca alta de preços em várias regiões e força governos a rever gastos militares. Sanções financeiras, embargos a empresas russas e pacotes bilionários de ajuda a Kiev se tornam parte da rotina das principais economias ocidentais.
Ao classificar o conflito como Terceira Guerra Mundial, Zelensky dá nome a um cenário em que dezenas de países se envolvem direta ou indiretamente. Alguns fornecem armamentos e treinamento, outros adotam sanções, todos calculam os riscos de uma escalada que envolva armas mais destrutivas. A retórica, por mais dura que pareça, reflete uma realidade em que o front já não é apenas a linha de contato no leste da Ucrânia.
Pressão contínua, encontro de paz incerto
Zelensky insiste que a única forma de forçar Moscou a recuar é manter e ampliar a pressão econômica e militar. Isso inclui novas rodadas de sanções, restrições a bancos e empresas russas e fornecimento constante de armas e munições para as forças ucranianas. Sem esse apoio, admite, a capacidade de resistir a um Exército numericamente superior se reduz de forma dramática.
O presidente menciona a possibilidade de um novo encontro de paz ainda neste mês, mas evita cravar data ou formato. Negociadores já admitem que qualquer reunião terá avanço limitado se a exigência russa continuar sendo a retirada ucraniana de áreas estratégicas. O impasse mantém o front ativo e prolonga um desgaste que atinge civis, soldados e economias inteiras.
Governos europeus e os Estados Unidos enfrentam, ao mesmo tempo, cobranças por mais envolvimento e pressões internas por prioridade a problemas domésticos. Cada pacote de ajuda militar gera debate político intenso, enquanto analistas discutem até que ponto o Ocidente está disposto a sustentar uma guerra longa. A fala de Zelensky funciona como um alerta: para Kiev, recuar agora significa abrir caminho para novas tentativas de expansão russa.
O quarto ano da guerra começa com menos ilusões sobre uma solução rápida e mais perguntas sobre os limites de cada lado. A próxima rodada de negociações, se confirmada, indicará se há espaço para um acordo que não passe pela entrega de território. Até lá, o campo de batalha segue definindo o tom das conversas diplomáticas e a ideia de uma Terceira Guerra Mundial deixa de soar apenas como exagero retórico para muitos observadores.
