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Zelenski propõe trégua à Rússia para cessar ataques a energia

O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, propõe nesta segunda-feira (6) uma trégua à Rússia para suspender ataques mútuos contra a infraestrutura de energia. A oferta, enviada ao Kremlin por meio dos Estados Unidos, tenta conter a escalada de ofensivas que atinge milhões de civis desde o fim de 2025.

Zelenski tenta frear escalada e recolocar guerra no radar

A iniciativa surge em um momento de desgaste profundo da rede elétrica ucraniana e de aumento dos ataques com drones a refinarias e instalações de petróleo russas. Desde o fim do ano passado, Moscou e Kiev intensificam ofensivas contra usinas, subestações e linhas de transmissão, transformando a energia em alvo central de um conflito que entra no quinto ano.

Em discurso exibido em rede nacional, Zelenski condiciona a trégua à reciprocidade. “Se a Rússia estiver disposta a deixar de atacar nosso setor energético, nós estaremos dispostos a responder da mesma maneira”, afirma. Segundo ele, a proposta chega ao Kremlin por canais diplomáticos nos Estados Unidos, que atuam como mediadores informais na tentativa de abrir espaço para conversas mais amplas sobre o fim da guerra.

O governo russo ainda não comenta publicamente a oferta. Na semana anterior, o presidente ucraniano já fala em um cessar-fogo limitado para o período da Páscoa ortodoxa, que neste ano cai em 12 de abril. O Kremlin reage então com declarações genéricas sobre a necessidade de um acordo de paz mais amplo, sem endossar uma pausa pontual nas hostilidades.

A nova proposta traz um recorte mais específico e mira a parte mais sensível da guerra hoje: a capacidade de manter luzes acesas, hospitais em funcionamento e indústrias operando dos dois lados da fronteira. Ataques constantes derrubam linhas de alta tensão, paralisam termelétricas e deixam cidades inteiras no escuro por horas ou dias, em um cenário que se repete desde o primeiro inverno do conflito, em 2022.

Civis no alvo e guerra de drones em nova fase

O anúncio ocorre horas depois de um novo bombardeio russo contra Odessa, porto estratégico no sul da Ucrânia. O ataque atinge um prédio residencial, abre uma cratera entre andares e provoca incêndio que se espalha pelo quarteirão. Três pessoas morrem, entre elas uma criança de dois anos, e ao menos 16 ficam feridas, segundo o governo ucraniano.

A ofensiva também corta o fornecimento de energia em parte da cidade. A DTEK, maior empresa privada do setor na Ucrânia, informa que mais de 16 mil pessoas ficam sem eletricidade após o ataque. Técnicos correm para restabelecer a rede, enquanto equipes de resgate buscam sobreviventes entre os escombros. O episódio reforça a urgência, para Kiev, de algum tipo de blindagem à infraestrutura civil.

Durante a noite anterior, a Rússia lança mais de 140 drones contra o território ucraniano, ainda de acordo com Zelenski. Os alvos incluem instalações energéticas nas regiões de Tchernihiv, Sumi, Kharkiv e Dnipro, áreas que concentram indústrias e centros urbanos de médio porte. Cada impacto não atinge apenas transformadores e turbinas: compromete aquecimento em casas, funcionamento de escolas e estoques refrigerados de medicamentos.

Na outra ponta da linha de frente, a Rússia também sente o peso da guerra tecnológica. Um ataque de drones ucranianos atinge a cidade portuária de Novorossiisk, no litoral do mar Negro, e fere oito pessoas, entre elas duas crianças, segundo o governador regional, Veniamin Kondratiev. Imagens divulgadas por autoridades locais mostram um edifício residencial com janelas estilhaçadas e varandas arrancadas nos andares superiores.

Desde a invasão em larga escala, em fevereiro de 2022, drones deixam de ser apenas ferramentas de reconhecimento e passam a ocupar o centro da estratégia dos dois exércitos. Baratos em comparação a mísseis e fáceis de adaptar para carregar explosivos, esses aparelhos ampliam o alcance de ataques e permitem que alvos a centenas de quilômetros da linha de frente sejam atingidos. A Ucrânia usa esse recurso para pressionar refinarias, depósitos de combustível e oleodutos russos, peças-chave de uma economia que depende do petróleo para sustentar gastos militares.

Impacto da trégua e o que vem a seguir

A trégua proposta por Zelenski não encerra o conflito, mas poderia, se aceita, reduzir danos imediatos a milhões de pessoas. Uma suspensão específica de ataques à infraestrutura energética diminuiria apagões, evitaria a perda de estoques hospitalares e daria algum respiro a empresas que operam no limite sob risco constante de interrupção. Para a Rússia, significaria também proteger refinarias e instalações críticas que vêm sofrendo ataques mais ousados e frequentes.

O gesto ocorre enquanto a atenção internacional se desloca para o agravamento da crise no Irã e no Oriente Médio, o que reduz o espaço político para novas rodadas de apoio à Ucrânia em capitais ocidentais. Ao propor um acordo setorial, focado em energia, Kiev tenta mostrar disposição para compromissos práticos e, ao mesmo tempo, expor a responsabilidade de Moscou caso a violência contra infraestrutura civil continue.

Diplomatas em Washington e em capitais europeias avaliam que entendimentos limitados, como o que envolve energia, podem servir de laboratório para mecanismos de verificação e monitoramento de eventuais cessar-fogos mais amplos. Um acordo em torno da rede elétrica exigiria, por exemplo, transparência maior sobre alvos militares e civis e algum grau de cooperação técnica entre operadores de sistema nos dois países, ainda que mediada por organizações internacionais.

O histórico recente não favorece otimismo. Tréguas anteriores, inclusive em datas religiosas, fracassam em poucas horas diante de violações mútuas e da dificuldade de controlar unidades dispersas no campo de batalha. A própria ambiguidade entre o que constitui alvo militar legítimo e o que é infraestrutura civil complica qualquer tentativa de delimitar zonas de exclusão.

Zelenski insiste, porém, que algum tipo de linha vermelha precisa ser respeitado após mais de quatro anos de guerra aberta e uma década de conflito no leste ucraniano. A resposta de Moscou à proposta de trégua energética, ainda pendente, indica não apenas o rumo imediato da ofensiva contra usinas e redes elétricas, mas também se ainda existe espaço para negociar recuos parciais em uma guerra que, até aqui, só conhece escaladas.

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