WhatsApp testa função de spoiler para ocultar trechos de mensagens
O WhatsApp começa a testar uma função de spoiler que esconde trechos específicos de mensagens de texto, revelados só com um toque. O recurso aparece na versão 2.26.7.10 do aplicativo para Android, divulgada nesta quinta-feira (19). A ferramenta amplia o controle do usuário sobre o que mostrar — e quando mostrar — dentro das conversas.
Uma nova camada de sigilo dentro do chat
A novidade é identificada pelo site WABetaInfo, conhecido por antecipar recursos do mensageiro, na atualização liberada pela Google Play Store. O recurso se comporta como mais um estilo de formatação, ao lado de negrito, itálico, tachado e monoespaçado, mas atua em outra frente: a de esconder o conteúdo sem apagá-lo.
Na prática, o usuário seleciona um trecho do texto na barra de digitação e abre o mesmo menu em que já escolhe negrito ou itálico. Surge ali a opção “spoiler”. Ao ativá-la, o sistema adiciona automaticamente duas barras verticais antes e depois da parte marcada, criando um bloco que será enviado encoberto na conversa. O texto permanece no balão da mensagem, mas fica ilegível até que alguém toque sobre ele.
A solução conversa com um hábito consolidado em redes sociais, em que perfis usam avisos de spoiler para evitar revelar finais de séries, filmes ou jogos. O WhatsApp tenta trazer essa lógica para um ambiente mais íntimo, em que grupos de amigos, famílias e comunidades discutem estreias no streaming, partidas de futebol e decisões de reality shows em tempo real, muitas vezes para dezenas ou centenas de participantes.
Em grupos grandes, a ferramenta reduz o risco de estragar a experiência de quem não viu o episódio da semana ou não acompanhou o jogo da noite anterior. Em conversas mais sensíveis, permite esconder números de documentos, dados pessoais ou informações de trabalho que não precisam ficar expostas a todo momento na tela, mas ainda assim precisam permanecer registradas no histórico.
Diferenças em relação à visualização única e impacto no uso diário
O WhatsApp já oferece, desde 2021, o modo de “visualização única” para fotos, vídeos e áudios. Nesse formato, o conteúdo desaparece da conversa após ser aberto uma vez. A solução protege a privacidade, mas cria um problema conhecido de quem usa o recurso com frequência: depois da primeira visualização, não há como consultar de novo aquela informação, nem mesmo para checar um detalhe simples.
O spoiler de texto caminha no sentido oposto. O conteúdo continua salvo no histórico, acessível a qualquer momento, mas exige um gesto deliberado para ser lido. Essa diferença altera a forma como usuários lidam com informações delicadas. Em vez de apagar um trecho comprometedor ou recorrer a mensagens que somem, a pessoa passa a ter uma zona intermediária, em que o dado existe, mas não aparece de imediato na tela do celular.
A ferramenta também pode se tornar um recurso de engajamento. Em grupos de fãs, criadores de conteúdo e perfis de nicho, a possibilidade de esconder trechos da mensagem abre espaço para enquetes, brincadeiras e campanhas promocionais com pistas ocultas. O gestor de comunidade pode avisar sobre um spoiler pesado de um filme lançado em 2026 e, na mesma mensagem, esconder o desfecho para quem quiser descobrir na hora.
Por enquanto, o novo sistema se limita a mensagens de texto. Não há suporte para fotos, vídeos ou áudios com a mesma lógica de encobrimento parcial. Técnicos envolvidos no acompanhamento do desenvolvimento avaliam que estender o comportamento para outros formatos exigiria mudanças mais profundas na interface e na criptografia de ponta a ponta, que hoje protege mais de 2 bilhões de contas ativas no aplicativo.
Ainda sem data oficial de lançamento, o recurso passa por ajustes internos e tende a chegar primeiro a um grupo restrito de usuários da versão beta. O padrão seguido pelo WhatsApp em outras atualizações indica uma liberação gradual, que pode levar semanas ou meses até atingir toda a base de aparelhos Android e iOS. A empresa não comenta prazos, mas a presença do recurso na versão 2.26.7.10 sugere que a fase de testes já está em andamento.
O que pode mudar nas conversas — e o que vem depois
No dia a dia, a função de spoiler deve afetar tanto conversas casuais quanto rotinas de trabalho que migraram para o mensageiro. Empresas que usam o aplicativo para atendimento ou coordenação interna podem esconder códigos de acesso, valores e condições comerciais, deixando à vista apenas o necessário. Famílias podem mascarar surpresas, presentes e combinados que envolvem apenas parte do grupo, sem recorrer a outros canais.
Especialistas em privacidade apontam um efeito colateral esperado: mensagens com trechos ocultos tendem a estimular mais toques por curiosidade, o que aumenta o tempo de permanência no app. Ao mesmo tempo, a possibilidade de registrar informações sensíveis sem exibi-las diretamente na tela pode aliviar a pressão por apagar conversas inteiras por medo de exposição, especialmente em celulares compartilhados ou com pouca proteção por senha.
Se a experiência com texto se mostrar estável, o próximo passo natural é avaliar a expansão da lógica de spoiler para imagens, vídeos e documentos. Uma foto de resultado de prova, um print de extrato bancário ou um contrato em PDF poderiam, no futuro, aparecer borrados até que alguém decida abrir o conteúdo. Essa evolução esbarra em discussões internas sobre usabilidade, segurança e até cumprimento de regras de moderação de conteúdo em diferentes países.
A atualização também pressiona concorrentes diretos, como Telegram e Messenger, a revisitarem suas próprias ferramentas de controle de visualização. Em um cenário em que notificações ocupam a tela do celular por horas, a disputa passa a incluir não só quem fala mais alto, mas quem controla melhor o que aparece à primeira vista. A pergunta, agora, é quanto tempo o usuário vai demorar para transformar o spoiler em parte da linguagem cotidiana das suas conversas.
