Visita dos EUA a Caracas marca reviravolta nas relações com Venezuela
O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, anuncia nesta quarta-feira (11), em Caracas, uma reviravolta nas relações com a Venezuela. Em rara visita oficial de alto nível em quase três décadas, ele descreve avanços no comércio, em condições de negócios e em negociações sobre energia, mineração e infraestrutura.
Mudança de rota após décadas de afastamento
No salão lotado do prédio governamental em Caracas, Wright fala em tom firme e escolhe palavras que sinalizam um deslocamento profundo da política norte-americana para o país vizinho. “Acredito que veremos uma reviravolta absolutamente dramática na trajetória desta nação, no estado das relações entre a Venezuela e os Estados Unidos, e nas condições de negócios”, afirma. Ele diz que o efeito não se limita a Caracas e Washington, mas se espalha por “todo o hemisfério ocidental”.
A declaração marca um contraste com quase 30 anos sem visitas de um representante norte-americano desse nível à capital venezuelana. A presença do secretário de Energia, e não de um diplomata tradicional, reflete o centro da nova agenda: petróleo, minerais críticos e reconstrução da rede elétrica. O pano de fundo é a reforma da lei de hidrocarbonetos aprovada recentemente em Caracas, que abre mais espaço para empresas estrangeiras na exploração e produção de petróleo.
Wright trata o texto legal como peça-chave da virada em curso. Ele chama a nova lei de “símbolo do desejo de impulsionar a reforma e mover o país em uma direção positiva”. Na avaliação do secretário, o marco regulatório reduz incertezas para investidores, permite contratos de longo prazo e facilita a entrada de capitais privados em um setor que responde por boa parte das exportações e das receitas fiscais venezuelanas.
A mudança ocorre num cenário político ainda tenso. Os Estados Unidos não reconhecem formalmente o governo conduzido por Delcy Rodríguez, que assume o comando após a captura de Nicolás Maduro por forças norte-americanas, menos de 40 dias antes da coletiva. Questionada horas antes sobre a possibilidade de eleições em breve, Rodríguez evita qualquer promessa e encerra a pergunta sem resposta clara. Wright relata que o nome de Maduro aparece apenas uma vez na reunião de duas horas entre as delegações.
Energia, mineração e rede elétrica no centro da agenda
As conversas em Caracas giram em torno de uma pergunta prática: como reposicionar a Venezuela dentro do mapa energético e mineral do continente sob supervisão próxima dos Estados Unidos. A nova lei de hidrocarbonetos dará o tom das negociações, ao permitir maior participação de empresas estrangeiras em campos de exploração, refinarias e logística de exportação. Para a Casa Branca, isso significa acesso mais estável a um fornecedor relevante de petróleo, em um momento de pressão sobre preços globais e disputa com países como Rússia e Irã.
Wright confirma que parte do petróleo venezuelano já passa por canais ligados ao governo norte-americano e tem a China como destino. “Negócios legítimos chineses sob condições legítimas de negócios – isso é aceitável”, diz, num recado calculado a Pequim e a outros compradores. O reconhecimento público desse fluxo indica que Washington não pretende bloquear a presença chinesa, mas deseja arbitrar as condições em que esse comércio ocorre.
Além do óleo cru, a pauta avança sobre a mineração de minerais críticos, como lítio, níquel e terras raras, essenciais para baterias, carros elétricos e tecnologias de defesa. Wright não divulga números, mas auxiliares mencionam, reservadamente, projetos-piloto com prazos de três a cinco anos e metas de investimentos na casa de bilhões de dólares. A reconstrução da frágil rede elétrica venezuelana aparece como condição técnica para que qualquer plano desse porte saia do papel.
A crise elétrica do país, marcada por apagões recorrentes desde ao menos 2019, entra no centro das negociações. Técnicos norte-americanos mapeiam falhas em geração, transmissão e manutenção de usinas. A hipótese em discussão é um modelo misto, com empresas dos Estados Unidos e parceiras locais atuando em concessões de 15 a 25 anos, sob supervisão conjunta de agências venezuelanas e observadores internacionais. O objetivo declarado é garantir fornecimento estável para novos projetos industriais e recuperar parte da produção perdida em regiões petrolíferas estratégicas.
Quem ganha com a reaproximação e o que fica em aberto
A retomada de canais formais entre Caracas e Washington tem impacto direto sobre o comércio bilateral, que despenca ao longo da última década sob o peso de sanções, desconfiança política e colapso produtivo. A promessa de contratos de exploração, acordos de serviços de engenharia e parcerias em mineração atrai grandes petroleiras norte-americanas e empresas de infraestrutura. Trump, que volta a endossar publicamente um “investimento massivo” de companhias dos EUA na Venezuela, pressiona por anúncios concretos até o fim do semestre.
Os ganhos imediatos se concentram em grandes corporações de energia, construtoras e tradings de commodities. A reforma da lei de hidrocarbonetos tende a reduzir barreiras de entrada e a elevar a participação estrangeira em projetos antes dominados pela estatal PDVSA. Para a economia venezuelana, qualquer alta nas exportações de petróleo, mesmo na casa de 10% a 20% em dois anos, pode aliviar a escassez de divisas e dar fôlego ao câmbio e às importações.
O pacote, porém, não vem sem riscos. A nova correlação de forças pode reduzir a margem de manobra do governo de Delcy Rodríguez e aprofundar a dependência de Washington em setores estratégicos. A ausência de um calendário claro para eleições, aliada ao fato de os Estados Unidos ainda não reconhecerem formalmente a administração atual, cria uma zona cinzenta de legitimidade. Investidores veem oportunidade, mas também temem mudanças bruscas de rumo em caso de transição política acelerada.
No tabuleiro global, a iniciativa dos EUA reconfigura disputas com a China e outros grandes compradores de energia. Parte dos contratos assinados nos últimos anos poderá ser renegociada sob influência norte-americana, com impacto sobre preços e prazos de fornecimento. Governos da região acompanham o movimento com atenção, avaliando se a reaproximação abre espaço para novos corredores energéticos e acordos triangulados, ou se concentra ainda mais poder nas mãos de Washington.
Próximos passos e incertezas
Os próximos meses serão decisivos para transformar declarações em documentos assinados. Equipes técnicas dos dois países trabalham em minutas de contratos que devem ser apresentadas ainda no primeiro semestre de 2026. O cronograma interno da Casa Branca prevê, segundo interlocutores, ao menos três pacotes iniciais: concessões de campos de petróleo, projetos de modernização da rede elétrica e memorandos de entendimento em mineração de minerais críticos.
Caracas tenta usar o novo ciclo de negociações para reposicionar sua imagem externa e romper o isolamento que marcou a era Maduro. A postura evasiva de Delcy Rodríguez sobre eleições indica, porém, que a busca por legitimidade internacional não anda no mesmo ritmo das tratativas econômicas. Wright afirma que a “reforma e a direção positiva” são condição para a continuidade do engajamento, mas evita amarrar publicamente o avanço dos negócios a compromissos democráticos concretos.
A reviravolta anunciada em Caracas inaugura uma fase mais pragmática da política externa norte-americana para a Venezuela, centrada em energia e estabilidade regional. O leque de oportunidades econômicas é amplo, mas a durabilidade desses acordos dependerá de como o país lidará com a transição de poder aberta pela captura de Maduro. Entre a promessa de investimentos bilionários e a incerteza institucional, a nova relação entre Washington e Caracas começa com mais perguntas do que respostas definitivas.
