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Vini Jr. reencontra Benfica no Bernabéu sob a sombra do racismo

Vini Jr. volta a enfrentar o Benfica nesta quarta-feira (25), às 17h, no Santiago Bernabéu, pela Champions League. O duelo marca o reencontro do atacante brasileiro do Real Madrid com o clube contra o qual sofreu ofensas raciais em Lisboa, no jogo de ida.

Do gol em Lisboa à noite de ajuste de contas em Madri

O calendário coloca o talento e a ferida no mesmo gramado. Em 90 minutos, Vini Jr. precisa decidir um jogo decisivo de mata-mata e, ao mesmo tempo, conviver com a memória recente das ofensas raciais sofridas na capital portuguesa. Em Lisboa, ele marca o gol da vitória merengue e responde às vaias com comemoração firme. A reação das arquibancadas e de parte dos jogadores do Benfica transforma o resultado esportivo em caso de polícia esportiva.

No Estádio da Luz, torcedores imitam sons de macaco e xingam o brasileiro após o gol. No calor da confusão, o meia Gianluca Prestianni participa das provocações e entra no relatório de queixa por comportamento discriminatório. A imagem do camisa 7 cercado por rivais, apontando para a própria pele, corre o mundo e reabre a discussão sobre o limite da tolerância no futebol europeu.

O reencontro desta quarta-feira acontece em cenário esportivo bem diferente para o próprio Vini. Depois de um início de temporada abaixo do esperado, o brasileiro se afirma como protagonista do time de Arbeloa. Desde a saída de Xabi Alonso, ele vira titular inquestionável, não perde lugar entre os 11 iniciais e não é substituído nenhuma vez pelo novo treinador.

Os números sustentam o novo status. Em 36 jogos na temporada 2026, Vini soma 12 gols e 9 assistências. Nas últimas três partidas, balança as redes quatro vezes, incluindo o golaço em Lisboa contra o próprio Benfica. A parceria com Kylian Mbappé forma o eixo ofensivo mais temido do continente, ainda que o momento dos dois seja oposto.

Protagonismo em campo e no combate ao racismo

A ascensão de Vini Jr. muda o desenho do Real Madrid na disputa da temporada. O time briga ponto a ponto com o Barcelona pela liderança de La Liga e avança nos mata-matas da Champions ancorado no desempenho do brasileiro. O jornal espanhol Marca registra a virada de chave com uma frase que vira síntese da fase atual: “Algo mudou em Vinicius. E isso se nota”. O texto destaca que ele volta a sorrir, decide partidas e devolve ao elenco a sensação de que tudo passa por seus pés.

O contraste aparece do outro lado da dupla. Mbappé, que começa o ano como salvador em meio à crise, passa a ocupar as manchetes pelas críticas. Parte da imprensa, que meses antes mirava Vini como um dos símbolos da decepção merengue, agora vê no francês o elo mais frágil da frente de ataque. Em fevereiro, o diário As chega a estampar que “Vinicius não é mais Vinicius”, refletindo um período de instabilidade. Poucas semanas depois, a frase perde atualidade: o brasileiro retoma o protagonismo e arrasta o time junto.

O novo papel não vem sem atritos. O estilo agressivo de Vini, com arrancadas e dribles em alta velocidade, recoloca em debate a forma como ele provoca faltas e pênaltis. O jornal catalão Mundo Desportivo escreve que “Vinicius estabelece um precedente perigoso, se joga no chão sempre que sente um leve contato”, depois de dois gols de pênalti contra a Real Sociedad. A crítica alimenta a narrativa de que o atacante exagera nas quedas, enquanto o Real rebate nos bastidores que se trata de perseguição e que o brasileiro é um dos jogadores mais caçados do campeonato.

A discussão técnica se mistura ao debate racial. Cada falta mais dura, cada vaia isolada, cada gesto nas arquibancadas passa a ser interpretado à luz dos episódios acumulados desde a Espanha até Portugal. Vini assume discurso mais firme, cobra punições e transforma entrevistas em palco de denúncia. Em campo, a resposta vem em forma de gols e assistências, que sustentam a autoridade da fala. O duelo com o Benfica, por isso, vale mais do que uma vaga em fase avançada da Champions: funciona como teste para o próprio ambiente do Bernabéu e para a disposição das entidades de frear o racismo nas competições europeias.

O que está em jogo para Vini, Real Madrid e para o debate público

Os números da temporada colocam Vini Jr. em posição de destaque incontornável dentro do Real Madrid. Com 12 gols e 9 assistências em 36 jogos, ele participa diretamente de 21 lances decisivos, quase um a cada duas partidas. A curva é de alta desde janeiro, quando passa a formar dupla fixa com Mbappé sob comando de Arbeloa. A constância devolve ao clube a sensação de ter um líder técnico claro, algo que o time não encontra na mesma medida desde o auge de Karim Benzema.

O impacto vai além da prancheta. A cada jogo de Champions com episódios de racismo, a pressão sobre Uefa, federações e clubes cresce. O que acontece nesta quarta-feira em Madri entra nesse cálculo. Um ambiente hostil ao racismo, com resposta rápida a qualquer gesto discriminatório, fortalece a imagem do Real Madrid como aliado do combate ao preconceito. Uma noite marcada por novos ataques, por outro lado, expõe o clube, aumenta o risco de punições e alimenta a sensação de impunidade que o próprio Vini denuncia.

O episódio de Lisboa já repercute entre torcedores e dirigentes. Grupos organizados preparam faixas de apoio ao brasileiro, enquanto entidades antirracismo cobram protocolos mais claros para identificar e punir agressores em estádios. O reencontro com o Benfica serve de termômetro para essas medidas. A forma como árbitro, delegados da Uefa e segurança do Bernabéu reagem a qualquer incidente vira parte da narrativa tanto quanto o placar.

O jogo pesa também na temporada do Real Madrid. Uma classificação sólida reforça o projeto de Arbeloa, consolida Vini como rosto do time e reduz o espaço para o discurso de que o clube vive de lampejos individuais. Uma eliminação, em cenário de novo episódio de racismo, alimenta críticas ao ambiente em volta do brasileiro e reabre o debate sobre a capacidade do clube de protegê-lo.

Uma noite para gols, respostas e sinais claros

O Bernabéu se prepara para uma quarta-feira em que cada lance carrega mais de um significado. Para Vini Jr., a partida oferece a chance de transformar em futebol o incômodo de Lisboa. Um gol ou uma grande atuação contra o Benfica reforçam o protagonismo que ele conquista em 2026 e ajudam a fixar a imagem de jogador que responde em campo às tentativas de desestabilização.

Os próximos passos dependem, em parte, do que o mundo vê nesta noite. Se o jogo transcorre sem incidentes, ganha força o discurso de que a pressão pública e as primeiras punições começam a produzir efeito. Se novas ofensas aparecem, o caso entra na lista de exemplos que empurram torcedores, clubes e entidades para medidas mais duras, de multas pesadas a estádios fechados. Vini Jr., aos 25 anos, entra em campo como atacante decisivo e símbolo de uma luta que o futebol já não consegue empurrar para a lateral do gramado.

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