Vídeo vazado expõe ultimato dos EUA e racha no chavismo na Venezuela
Um vídeo vazado de uma reunião interna do governo venezuelano expõe como a cúpula chavista reage, sob ameaça de morte, ao sequestro de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos em janeiro de 2026. A gravação mostra a líder interina Delcy Rodríguez admitindo negociações diretas com Washington e decisões tomadas “sob chantagem” para preservar o poder político em Caracas.
Cúpula sob ultimato e disputa por sobrevivência
A gravação, divulgada nesta semana pelo coletivo jornalístico La Hora de Venezuela, é feita cerca de sete dias depois da operação americana de 3 de janeiro. No vídeo, o então ministro da Comunicação, Freddy Ñáñez, conduz uma reunião com influenciadores alinhados ao chavismo, em uma plataforma de videoconferência que mistura participantes presenciais e remotos.
Em determinado momento, Ñáñez coloca o celular no viva-voz e chama Delcy Rodríguez, que assume interinamente o comando após a captura de Maduro. Ela não perde tempo em estabelecer o tom. “A única coisa que eu peço é unidade”, diz, em uma frase que resume o clima de cerco político e militar.
Rodríguez relata que, no instante em que Maduro é sequestrado, ela, o ministro do Interior, Justiça e Paz, Diosdado Cabello, e o presidente da Assembleia, Jorge Rodríguez, recebem um ultimato. “Desde o primeiro minuto em que sequestraram o presidente, começaram as ameaças. Deram a Diosdado, a Jorge e a mim 15 minutos para responder, ou nos matariam”, afirma.
Segundo a dirigente, os militares americanos chegam a comunicar que Maduro e a esposa, Cilia Flores, estão mortos. “Dissemos que estávamos prontos para compartilhar o mesmo destino”, relata, em tom de dramatização do sacrifício coletivo. A informação é revertida depois, quando Washington sinaliza que mantém o casal vivo como peça central de negociação.
Ao longo da ligação, Rodríguez admite que cede às exigências impostas pelos Estados Unidos. “As ameaças e chantagens são constantes, e precisamos agir com paciência e prudência estratégica”, declara. Em seguida, enumera o que chama de prioridades do governo interino: “Preservar a paz, resgatar nossos reféns e preservar o poder político”.
Bastidores das negociações e medo de traição
Freddy Ñáñez tenta blindar Rodríguez desde o início da reunião. Antes de passar a palavra, pede o fim de “fofocas, rumores, intrigas e tentativas de desmoralização” contra a líder interina. Ele afirma que ela é “a única garantia” de que o chavismo pode “trazer de volta o presidente e a primeira-dama” e reorganizar suas forças, em uma aliança que expõe a fragilidade interna do regime.
Ñáñez orienta os influenciadores a manter disciplina nas redes sociais, onde o governo sustenta um discurso agressivo contra Washington desde o ataque. Em paralelo, admite que a cúpula chavista negocia com os militares americanos e tenta vender concessões econômicas como parte de um plano original de Maduro, não como derrota. “Tudo o que está acontecendo hoje é simplesmente o plano que Maduro colocou sobre a mesa. Não é concessão nem presente”, diz. “Vender petróleo aos EUA sempre foi nosso plano.”
As falas sugerem que interlocutores do alto escalão já mantêm conversas com representantes dos Estados Unidos antes da operação de 3 de janeiro. O vídeo reforça a percepção, dentro da própria base chavista, de que existe uma camada de negociação silenciosa com o inimigo externo, em contraste com os ataques diários contra o governo Trump nas redes oficiais.
O temor de ser rotulado como traidor aparece de forma explícita. Ñáñez alerta que setores mais radicais do chavismo vão acusar o governo interino de ter “entregado o país”. “Vão aparecer dizendo que estamos entregando o país, a revolução”, comenta. A fala revela uma disputa interna entre quem defende resistir a qualquer custo e quem aceita concessões sob a lógica de sobrevivência.
O vazamento não traz indicação de quem captura a reunião ou como o material escapa do círculo de confiança do Palácio de Miraflores. A única certeza, hoje, é o dano político. O vídeo circula em redes venezuelanas e estrangeiras, com trechos reproduzidos, por exemplo, em perfis como o Hoje no Mundo Militar, que lembram que o ataque de 3 de janeiro apanha os militares de surpresa e “cruza uma linha roxa” na percepção da cúpula chavista.
Impacto interno, petróleo sob pressão e narrativa em disputa
Desde o ataque, o governo venezuelano vive um jogo de duplo discurso. Em público, Delcy Rodríguez evita repetir a acusação de ameaça direta de morte. Nesta semana, afirma que mantém diálogo com Washington. “Estamos em um processo de trabalho com os Estados Unidos, sem medo, para enfrentar nossas diferenças por meio da diplomacia”, declara, sinalizando disposição para cooperar com o governo Trump.
Na prática, Caracas cumpre as principais exigências americanas, entre elas a ampliação do controle dos Estados Unidos sobre a produção e a exportação de petróleo, principal fonte de receita do país. O petróleo responde por mais de 90% das exportações venezuelanas há pelo menos duas décadas, e qualquer mudança nesse fluxo redefine o equilíbrio de poder entre militares, burocracia estatal e grupos empresariais aliados ao regime.
A oposição usa o vazamento como prova de fraqueza. Líderes antichavistas argumentam que, em vez de enfrentar a intervenção, o governo interino negocia a portas fechadas a entrega de ativos estratégicos. O vídeo oferece munição política para questionar não só a legitimidade de Delcy Rodríguez, mas a coerência de um discurso que, desde Hugo Chávez, se apoia na ideia de enfrentamento frontal ao imperialismo americano.
Dias depois de a gravação vir a público, o Palácio anuncia uma reforma ministerial. Freddy Ñáñez deixa a pasta da Comunicação e é deslocado para o Ministério do Meio Ambiente, movimento lido como tentativa de reduzir danos e afastar um nome diretamente associado à reunião gravada. O novo ministro da Comunicação cria frentes digitais específicas para “defender a verdade sobre a Venezuela” e tenta recuperar o controle narrativo.
No curto prazo, o vazamento acirra a disputa entre alas do chavismo e aprofunda a desconfiança entre militares e civis. A imagem de unidade, repetida por Delcy na ligação, perde força diante de um cenário em que parte da base se pergunta quem fala a verdade: o discurso oficial de resistência ou as concessões silenciosas descritas no vídeo.
O que vem depois do vazamento
O episódio abre uma nova fase da crise venezuelana. O governo interino tenta manter, ao mesmo tempo, diálogo com Washington, coesão dentro das Forças Armadas e legitimidade junto à base popular que ainda se identifica com o chavismo. Cada uma dessas frentes exige concessões diferentes, e o vídeo deixa claro que não há mais margem para erros de cálculo.
Internacionalmente, a revelação alimenta o debate sobre o limite das intervenções estrangeiras na América Latina e sobre o futuro de Maduro como peça de barganha geopolítica. Enquanto a Venezuela entra em fevereiro ainda sem o paradeiro público do ditador sequestrado, a pergunta central permanece sem resposta: até que ponto o chavismo está disposto a ceder para manter o poder, e quanto tempo sua base aceitará pagar esse preço em silêncio?
