Vídeo inédito revela ação de quadrilha no roubo de joias do Louvre
Um vídeo de segurança registra, pela primeira vez, a ação direta de um dos ladrões que invadem o Museu do Louvre para roubar joias da monarquia francesa. O assalto ocorre na manhã de 19 de outubro de 2025, em plena visitação pública, e expõe falhas de segurança no museu mais visitado do mundo.
Imagens exclusivas desmontam versões falsas
As gravações, divulgadas neste domingo (18/1) pelo programa “Sept à Huit”, da emissora francesa TF1, mostram em detalhe parte da investida criminosa na Galeria de Apolo. As câmeras registram um homem vestindo colete refletivo, com aparência de operário, golpeando várias vezes o vidro blindado de uma vitrine que protege joias históricas ligadas à monarquia francesa.
O ladrão usa primeiro uma ferramenta manual, depois as próprias mãos, até que o vidro cede. O alarme dispara, visitantes circulam a poucos metros e, mesmo assim, a ação prossegue por longos segundos antes de qualquer intervenção. A emissora descreve a cena como um “documento excepcional” e ressalta que se trata do único registro legítimo de dentro do museu mostrando um assaltante em pleno ato.
As imagens ganham importância adicional em meio à enxurrada de vídeos falsos que circulam nas redes desde o roubo. Várias montagens, geradas por inteligência artificial, simulam a ação dos criminosos em alta definição, com ângulos que nunca existiram. “Esses vídeos virais não correspondem à realidade do crime”, alertam agências de checagem como a AFP, que vêm desmentindo versões distorcidas há meses.
A liberação parcial do material de segurança, até então mantido sob sigilo, oferece ao público uma visão concreta do que acontece naquela manhã de outono em Paris. Também pressiona as autoridades francesas, que lidam com críticas crescentes à estratégia de comunicação e à forma como o Louvre protege seu acervo mais sensível.
Roubo relâmpago em plena Galeria de Apolo
O ataque começa por volta das 9h30, cerca de meia hora após a abertura ao público. Um grupo de quatro criminosos chega ao entorno do Louvre em um caminhão equipado com escada elevatória e se apresenta visualmente como equipe de manutenção. Usando o equipamento, acessa uma janela do segundo piso voltada para o Rio Sena, rota que reduz o contato direto com a entrada principal e com os controles mais evidentes de segurança.
Dentro do museu, o alvo é direto: a Galeria de Apolo, sala que reúne parte das joias e insígnias da monarquia francesa, entre elas colares, tiaras e ornamentos ligados à antiga família imperial. Em menos de sete a oito minutos, segundo a investigação, os ladrões quebram vitrines blindadas, recolhem pelo menos oito peças de valor histórico considerado incalculável e deixam rastros de vidro estilhaçado sobre pedestais vazios.
O Ministério Público de Paris estima o prejuízo em cerca de 88 milhões de euros, valor calculado com base em critérios de mercado, seguros e relevância histórica. Especialistas em patrimônio cultural lembram, porém, que joias de coroa não são substituíveis. “Quando uma peça dessas some, perde-se não só um objeto, mas uma camada inteira da memória coletiva”, afirma um curador ouvido pela imprensa francesa.
A fuga também segue um roteiro ensaiado. Após abandonar o interior do museu, os criminosos saem por uma rota ainda não detalhada publicamente, alcançam a rua e trocam o caminhão por motocicletas. Em poucos minutos, desaparecem nas vias próximas ao Sena, antes que reforços policiais cheguem em peso à região. Até agora, parte das joias roubadas não é recuperada, e as autoridades evitam divulgar a lista completa de peças por razões investigativas.
Alerta internacional sobre segurança de museus
O roubo no Louvre repercute muito além da França. O museu recebe, em anos recentes, mais de 7 milhões de visitantes anuais e abriga obras como a Mona Lisa e a Vênus de Milo. O episódio reacende o debate global sobre a capacidade de grandes instituições culturais de proteger não apenas quadros célebres, mas também coleções de joias, relíquias religiosas e objetos de pequeno porte, mais fáceis de transportar e esconder.
Autoridades francesas reforçam que o sistema de segurança do Louvre passa por revisão completa desde outubro. Medidas adicionais incluem checagem mais rígida de prestadores de serviço, reavaliação de rotas de acesso técnico e aumento da vigilância em áreas consideradas sensíveis. Outros museus europeus, atentos ao caso, revisam protocolos internos e simulam cenários de furto semelhante.
Para o mercado ilegal de arte e antiguidades, o crime se torna um novo ponto de referência. Joias de coroa circulam com extrema dificuldade em canais convencionais, mas encontram demanda em coleções privadas clandestinas, muitas vezes fora da Europa. “Peças dessa natureza não aparecem em leilões públicos, elas desaparecem em cofres particulares”, resume um investigador especializado em tráfico de obras de arte ouvido pela TV francesa.
O caso também expõe o impacto da desinformação digital sobre crimes de grande repercussão. A proliferação de vídeos manipulados por inteligência artificial confunde o público, atrapalha o trabalho de jornalistas e, em alguns momentos, interfere na investigação. A divulgação do vídeo legítimo pelo programa da TF1 funciona, em parte, como resposta a essa avalanche de conteúdos enganosos.
Investigações em curso e caçada às joias desaparecidas
A Promotoria de Paris conduz a investigação em cooperação com a polícia francesa e com redes internacionais de combate ao tráfico de arte. Há troca de informações com forças de segurança de outros países europeus e com organismos especializados em rastrear peças raras, que monitoram fronteiras, leilões discretos e movimentações suspeitas em zonas conhecidas do mercado paralelo.
As autoridades evitam detalhar publicamente o andamento das buscas, mas admitem que a recuperação de itens desse porte costuma levar anos, quando não décadas. Em casos anteriores de roubos de museus, parte do acervo só reaparece após negociações complexas, apreensões fortuitas ou tentativas frustradas de venda. A avaliação entre investigadores é que a quadrilha age com planejamento profissional e conhece bem as brechas de grandes instituições culturais.
No Louvre, a sensação é de constrangimento e urgência. O museu mantém a Galeria de Apolo sob vigilância reforçada e tenta equilibrar a necessidade de transparência com a obrigação de preservar a investigação. A direção sabe que, mais do que recuperar o que foi levado, precisa reconquistar a confiança de um público que enxerga na instituição um guardião da história europeia.
Enquanto o vídeo do ladrão de colete refletivo circula no horário nobre da TV francesa e viraliza nas redes em versões editadas, uma pergunta domina bastidores de museus e ministérios da Cultura: quantas outras joias, quadros e relíquias seguem vulneráveis, atrás de vitrines que parecem seguras até o próximo golpe?
