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Vídeo de celular revela emboscada e execução de corretora em Goiás

Um vídeo gravado pela própria vítima leva a Polícia Civil de Goiás a concluir que a corretora Daiane Alves Souza, 43, é morta em uma emboscada pelo síndico do prédio onde mora, em Caldas Novas. O crime ocorre em 17 de dezembro de 2025 e termina com dois tiros na cabeça, segundo a investigação. O síndico Cleber Rosa de Oliveira, 49, está preso e é apontado como autor de um homicídio premeditado.

Vítima registra os próprios últimos minutos

Daiane sai de casa em uma noite de quarta-feira acreditando que vai resolver um problema elétrico simples. Apenas o apartamento dela, em um condomínio residencial de Caldas Novas, está sem energia. No elevador até o subsolo, onde ficam os disjuntores, ela grava vídeos, comenta a situação e envia as imagens para uma amiga. São registros que, semanas depois, se tornam a principal prova da acusação contra o síndico.

As imagens somem com Daiane. A corretora desaparece após entrar no subsolo e deixa de responder às mensagens. O corpo só é encontrado 42 dias depois, em 28 de janeiro de 2026, em uma área de mata às margens da GO-213, a cerca de 15 quilômetros da área urbana de Caldas Novas. Nesse intervalo, a família pressiona por respostas, o condomínio se divide em versões e a polícia tenta remontar, quase no escuro, o trajeto da vítima.

A reviravolta vem debaixo da terra. Quarenta e um dias após o assassinato, investigadores resgatam o celular de Daiane dentro de uma caixa de esgoto. O aparelho está danificado, mas peritos conseguem extrair o conteúdo. Entre áudios, fotos e conversas, aparece o vídeo gravado no subsolo, minutos antes de o sinal de Daiane desaparecer. O arquivo mostra a corretora caminhando entre disjuntores, enquanto relata a queda de energia no apartamento. O áudio registra um barulho seco, um grito curto e, em seguida, silêncio.

O delegado André Luiz Barbosa, responsável pelo caso, afirma em coletiva realizada em 19 de fevereiro que o arquivo desmonta a versão de acidente apresentada pela defesa. “O vídeo demonstra de forma clara como o crime foi praticado, mediante emboscada premeditada”, diz. Segundo ele, as imagens e o som indicam que Daiane é surpreendida no exato ponto onde buscava entender o corte de luz em casa.

Conflito por imóveis leva à emboscada no subsolo

O fio da história começa meses antes. Cleber, síndico do prédio, administra por anos seis imóveis da família de Daiane no condomínio. A relação muda quando a corretora assume a gestão dos apartamentos e corta a intermediação dele. O movimento mexe com o caixa e a influência do síndico dentro do prédio, segundo relato de moradores à polícia. A partir daí, o ambiente se torna mais tenso nas áreas comuns.

A investigação conclui que o rompimento comercial é o estopim para o crime. Para os investigadores, Cleber desliga deliberadamente o disjuntor do apartamento de Daiane e espera que ela desça ao subsolo para descobrir o motivo do apagão. No local, ele se posiciona com luvas nas mãos e o carro estacionado ao lado do almoxarifado. “O Cleber aguardava Daiane no subsolo, já estava com a luva nas mãos, o carro posicionado ao lado do almoxarifado, ele então intercepta ela encapuzado”, afirma o delegado.

As imagens internas do condomínio registram Daiane entrando no elevador às 19h daquele 17 de dezembro. Nenhuma câmera mostra a agressão, mas o vídeo do celular preenche parte da lacuna. O que acontece depois, segundo a polícia, é uma sequência planejada. Daiane é imobilizada, retirada do subsolo e colocada na picape do síndico. Testemunhas ouvem movimentação incomum na garagem, mas não escutam disparos de arma de fogo.

Durante a reconstituição do caso, no dia 30 de janeiro, policiais fazem um teste. Disparam uma arma no subsolo e constatam que o som ecoa até a portaria. Nenhum morador relata ter ouvido tiros na noite do crime. O laudo pericial aponta pouco sangue no local, mesmo com uso de luminol, produto que revela vestígios mínimos. Para a equipe, o cenário é incompatível com a hipótese de que Daiane morre ali, como sugeria a versão inicial de Cleber.

Pressionado pelas evidências, o síndico admite em depoimento ter sido o autor do disparo, mas tenta enquadrar o caso como acidente. Alega que discute com a vizinha, é atacado por ela e tem a arma disparada de forma involuntária, atingindo a cabeça da corretora. O laudo balístico, porém, registra dois tiros na cabeça da vítima, o que, para a polícia, afasta a tese de disparo acidental e reforça a narrativa de execução.

Prisão, impacto no condomínio e próximos passos na Justiça

O corpo de Daiane é encontrado em 28 de janeiro, em matagal às margens da GO-213. Horas depois, a polícia prende Cleber e o filho dele, Maicon Douglas de Oliveira, sob suspeita de participação na ocultação do crime. A investigação aponta que o síndico conta ao filho que matou a corretora e que Maicon passa a ajudá-lo a apagar rastros. Imagens mostram a picape de Cleber deixando o prédio com a capota fechada e retornando cerca de uma hora depois, já com a capota aberta.

A defesa de Maicon nega qualquer envolvimento. O escritório que representa Cleber informa, em nota, que ainda não tem acesso à íntegra do inquérito nem ao relatório final, e que só se manifesta após analisar todos os documentos. Em audiência de custódia, a Justiça decide manter os dois presos preventivamente. O condomínio, que tem dezenas de unidades residenciais, passa por trocas internas de gestão e discute medidas adicionais de controle de acesso e monitoramento.

A repercussão do caso vai além dos muros do prédio em Caldas Novas. Especialistas em direito condominial ouvidos pela reportagem afirmam que conflitos financeiros entre síndicos e proprietários se tornam mais frequentes nos últimos anos, com o aumento de imóveis destinados a aluguel de temporada. O caso reacende o debate sobre transparência na administração de recursos e sobre os limites de poder de síndicos, que controlam chaves, câmeras e estruturas essenciais, como disjuntores e portarias.

Na esfera criminal, o próximo movimento está nas mãos do Ministério Público de Goiás. O delegado André Luiz Barbosa afirma que encaminha o inquérito com pedido de denúncia de Cleber por homicídio doloso, com agravantes, e por ocultação de cadáver. A acusação usa como base o vídeo de Daiane, os laudos periciais, a reconstituição e os relatos de moradores.

O caso também evidencia o peso de provas digitais nas investigações. O celular, abandonado em uma caixa de esgoto, se transforma em peça central para reconstituir o crime. Para investigadores, a cena de Daiane descendo sozinha ao subsolo e o grito interrompido em segundos podem influenciar não apenas o oferecimento da denúncia, mas também a eventual decisão de um júri popular. Enquanto a defesa prepara sua estratégia e aguarda acesso completo ao inquérito, o condomínio tenta voltar à rotina com uma pergunta que ainda ecoa nos corredores: como um conflito de administração de imóveis termina em uma execução meticulosa no subsolo do prédio?

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