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Vídeo com IA mostra abraço simbólico de Lula e Lee Jae-myung crianças

Um vídeo criado com inteligência artificial marca o primeiro dia da visita oficial de Luiz Inácio Lula da Silva à Coreia do Sul, em 23 de fevereiro de 2026. Na tela, versões infantis de Lula e do presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, se abraçam em uma cena simbólica que mistura alta tecnologia e memória operária.

Diplomacia digital e memória operária

O vídeo, divulgado nas redes sociais de Lee, é apresentado como um presente ao presidente brasileiro e como síntese de uma trajetória comum. Os dois líderes começam a vida como crianças pobres, trabalham desde cedo e atravessam décadas de conflito político até chegar ao comando de países que somam hoje mais de 250 milhões de habitantes e PIB conjunto acima de US$ 2,5 trilhões.

Lee escreve que Lula é seu “irmão” e descreve o enredo em termos quase literários. “Dois ex-operários mirins se tornaram presidentes e se encontraram. Carregavam feridas, mas não cicatrizes. Do trabalho tiraram a sabedoria da vida. Enfrentaram adversidades, mas foram salvos pelo povo. Por isso, somos irmãos. Ao irmão, presidente Lula (@LulaOficial), oferecemos este vídeo”, publica em português, acompanhado da versão original em coreano.

A mensagem circula horas depois de Lula desembarcar em Seul, na manhã de domingo, 22 de fevereiro, para uma visita de Estado de três dias. Em vídeo próprio, o presidente brasileiro afirma que viaja para “fortalecer laços do Brasil com o mundo e garantir mais oportunidades para o nosso país”. O gesto de Lee funciona como recepção política e também como peça de comunicação cuidadosamente desenhada para as redes.

Na postagem de boas-vindas, o presidente coreano retoma a biografia de Lula, preso em 2018 e absolvido anos depois. “Como ex-operário infantil, o senhor provou com todo o seu corpo que a democracia é a ferramenta mais útil para o desenvolvimento social e econômico”, escreve Lee. Ele afirma que Lula percorre “o caminho do calvário com a destruição da democracia, mas ressurge com força junto ao grande povo brasileiro e agora está fazendo o Brasil renascer”.

O vídeo com inteligência artificial entra nesse enredo como uma espécie de parábola visual. Ao aproximar as infâncias de Lula, nascido em 1945 no interior pernambucano, e de Lee, de 1964, filho de uma família pobre em Seongnam, o governo coreano constrói uma narrativa de afinidade política e social. A tecnologia não aparece como demonstração fria de capacidade, mas como linguagem emocional de uma diplomacia que se quer mais próxima do eleitor comum.

IA como ferramenta de poder e aproximação

A escolha pela inteligência artificial não é acidental. Coreia do Sul e Brasil firmam, na mesma viagem, parcerias em áreas estratégicas como tecnologia, agricultura e transição energética. O uso de IA em uma peça simbólica sinaliza o lugar que Seul pretende ocupar na diplomacia digital, em um momento em que governos disputam influência também em telas de celular e algoritmos.

O gesto tem efeito concreto na imagem dos dois presidentes. Ao se apresentarem como antigos operários mirins que chegam ao topo da política, Lula e Lee falam a públicos que enfrentam desigualdade, desemprego e desconfiança em relação às elites tradicionais. A mensagem de ascensão social reforça o discurso de que a política ainda pode servir como ferramenta de mudança material.

Especialistas em comunicação diplomática veem nesse tipo de ação um laboratório para o uso oficial de IA em campanhas institucionais. Se hoje o vídeo celebra um encontro simbólico de infância, amanhã a mesma tecnologia pode ilustrar projetos de cooperação agrícola, acordos de inovação ou programas educacionais conjuntos. A fronteira entre propaganda de governo e narrativa de Estado, porém, tende a ficar mais difusa.

No curto prazo, a peça impulsiona a agenda da própria viagem. Brasil e Coreia do Sul já anunciam acordos em tecnologia de ponta, agricultura e comércio, com metas de elevação do intercâmbio bilateral até 2030. Em 2025, a corrente de comércio entre os dois países supera US$ 12 bilhões; os governos falam agora em ampliar esse volume com foco em semicondutores, carros elétricos e inovação em alimentos.

O uso de IA em um gesto pessoal dos presidentes também tem impacto simbólico em setores empresariais. Empresas de tecnologia, produtoras de conteúdo digital e startups de inteligência artificial enxergam ali um sinal político de abertura para projetos conjuntos, tanto em pesquisa quanto em aplicações comerciais. A diplomacia se cruza com oportunidades de negócios que podem movimentar bilhões de dólares ao longo da próxima década.

Próximos passos da diplomacia em alta resolução

A visita de Lula a Seul se desdobra em agendas formais, assinatura de memorandos e reuniões com empresários, mas o vídeo com IA se mantém como síntese visual do encontro. Em poucas dezenas de segundos, a peça condensa uma narrativa de 60 anos de história, da fábrica ao Palácio, e aponta para uma nova forma de comunicação entre governos.

A tendência é que outros líderes testem ferramentas semelhantes em viagens futuras, campanhas de políticas públicas e celebrações de acordos comerciais. A mesma tecnologia que hoje comove e humaniza também levanta dúvidas sobre transparência, manipulação de imagens e fronteiras éticas no uso de retratos de infância e memórias pessoais. A diplomacia digital ganha cor, som e algoritmos; a disputa, daqui para frente, será definir até onde esse tipo de imagem pode ir sem borrar a linha entre emoção legítima e encenação calculada.

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