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Vereador do PSD é preso por suspeita de negociar apoio com chefe do CV

O vereador carioca Salvino Oliveira (PSD), ex-secretário da Juventude de Eduardo Paes, é preso em 11 de março de 2026 sob suspeita de negociar apoio eleitoral com Edgar Alves de Andrade, o Doca, apontado como chefe do Comando Vermelho em área dominada pela facção. A detenção ocorre em operação da Polícia Civil que mira a estrutura do tráfico de drogas e outras atividades ilegais na zona sob controle do grupo criminoso.

Prisão expõe nova fronteira entre política e crime

A operação começa nas primeiras horas de segunda-feira e mobiliza dezenas de agentes em diferentes pontos do Rio de Janeiro. Salvino é localizado em uma região sob forte influência do Comando Vermelho, onde Doca exerce poder sobre o comércio de drogas, a circulação de moradores e até horários de funcionamento de estabelecimentos. Os policiais cumprem mandados de prisão e de busca e apreensão contra alvos ligados à facção e a possíveis interlocutores políticos.

Investigadores apuram se o vereador, eleito para a Câmara Municipal com base em redutos populares, busca garantir apoio em áreas controladas pela facção em troca de favores e proteção eleitoral. As conversas sob análise indicam a tentativa de uso da estrutura do crime para influenciar a votação em 2026. A suspeita é que cabos eleitorais tenham atuado dentro de territórios comandados por Doca, restringindo a atuação de adversários e orientando o voto de moradores.

Fontes ligadas à investigação afirmam que o conteúdo obtido em escutas e apreensões mostra tratativas sobre circulação de campanha, segurança de comícios e uso de carros de som. “O que está em apuração é a negociação de capital político com base em medo e controle armado do território”, diz um investigador ouvido sob condição de anonimato. O Ministério Público acompanha o caso e deve analisar se há indícios de corrupção eleitoral, associação criminosa e financiamento ilícito de campanha.

Salvino constrói sua carreira política em bairros da zona oeste e da zona norte e ganha projeção ao assumir a Secretaria da Juventude na gestão Eduardo Paes, em mandato anterior do prefeito. Nos últimos anos, tenta se firmar como liderança local do PSD, com presença em eventos comunitários e articulação com lideranças de associações de moradores. A ligação, ainda que sob investigação, com um dos principais chefes do Comando Vermelho atinge em cheio a imagem de renovação que tenta projetar.

Influência do Comando Vermelho nas urnas volta ao centro do debate

A suspeita de negociação entre um vereador em exercício e um líder do Comando Vermelho reacende um problema conhecido no Rio de Janeiro: o peso de grupos armados nas eleições. Há pelo menos duas décadas, relatórios de órgãos de segurança apontam o avanço da influência de facções do tráfico e de milícias sobre comunidades com centenas de milhares de habitantes. Em muitas dessas áreas, candidatos só entram com autorização prévia dos controladores do território.

Os investigadores avaliam que o caso Salvino pode ser um exemplo recente desse padrão, agora com o Comando Vermelho no foco. Em 2020, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio registra ao menos dezenas de denúncias de coerção de eleitores em áreas dominadas por grupos armados. Em 2022, a Justiça Eleitoral intensifica ações em comunidades com histórico de controle criminoso, mas integrantes da segurança pública admitem, reservadamente, que a presença do Estado ainda é irregular e frágil.

A prisão de um representante eleito traz repercussões políticas imediatas. Partidos adversários pressionam por explicações e pela abertura de processos internos de responsabilização, enquanto aliados tentam conter danos às próprias campanhas. No Planalto carioca, auxiliares de Eduardo Paes acompanham o caso com preocupação, já que o vínculo pretérito de Salvino com a gestão municipal reacende questionamentos sobre critérios de escolha para cargos estratégicos na prefeitura.

Especialistas em segurança pública e direito eleitoral defendem que as suspeitas sejam tratadas como oportunidade para ampliar o rigor na fiscalização de campanhas em áreas sob domínio armado. “Quando um líder do tráfico passa a negociar diretamente com um vereador, o recado para a sociedade é que o voto perde liberdade e valor”, afirma um pesquisador que estuda a relação entre violência e política nas periferias do Rio. Organizações civis cobram transparência nas investigações e defendem que detalhes do caso sejam tornados públicos assim que não houver risco às diligências.

Investigações devem avançar sobre outros mandatos

Delegados envolvidos na operação indicam que as apurações não se limitam a Salvino e a Doca. O material recolhido em celulares, computadores e documentos pode revelar outros interlocutores políticos da facção, em diferentes níveis da administração municipal e estadual. A expectativa é que, nas próximas semanas, novas quebras de sigilo bancário e telefônico sejam pedidas à Justiça para mapear possíveis fluxos de dinheiro entre o tráfico e campanhas.

No Tribunal Regional Eleitoral, integrantes da cúpula discutem medidas adicionais para a próxima disputa municipal, marcada para outubro de 2026. Entre as possibilidades estão o reforço do policiamento em seções sensíveis, o monitoramento prévio de redutos sob ameaça de grupos armados e o endurecimento de punições a candidatos flagrados em acordos com facções. Internamente, juízes reconhecem que o desafio é garantir, ao mesmo tempo, segurança e liberdade de escolha para moradores de regiões conflagradas.

A Câmara dos Vereadores é pressionada a reagir com rapidez. Colegas de Salvino discutem a abertura de processo por quebra de decoro e o afastamento imediato do mandato enquanto durarem as investigações. Caso as suspeitas se confirmem e resulte em condenação criminal, o vereador pode perder o cargo, ficar inelegível por pelo menos 8 anos e responder a ações de improbidade se ficar comprovado uso da estrutura do gabinete para fins ilícitos.

O episódio recoloca o Rio diante de uma pergunta conhecida e ainda sem resposta satisfatória: até que ponto o sistema político consegue se blindar da presença de grupos armados que controlam ruas, serviços e, cada vez mais, votos? A pressão por reformas na fiscalização eleitoral e por uma presença mais constante do Estado em territórios vulneráveis cresce, mas o alcance concreto dessas mudanças ainda depende do desfecho do caso Salvino e da disposição de autoridades em romper, de forma definitiva, a fronteira entre política e crime organizado.

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