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Venezuela troca 12 comandantes regionais às vésperas de debate do petróleo

A presidente da Venezuela promove nesta quinta-feira (22) uma troca simultânea de 12 comandantes militares regionais, a poucos dias de uma sessão decisiva do Parlamento sobre petróleo. As nomeações redesenham o mapa de poder nas Forças Armadas e ampliam o controle do Palácio de Miraflores sobre os quartéis em um dos momentos mais sensíveis da política energética do país.

Rearranjo militar em momento calculado

O pacote de mudanças é anunciado em Caracas com discurso de lealdade institucional e defesa da soberania. Nos bastidores, porém, auxiliares admitem que o objetivo central é “blindar” a cúpula do governo antes da reunião parlamentar que vai discutir novas regras para a exploração e exportação de petróleo, prevista para os próximos dias. O setor responde por mais de 90% das receitas de exportação venezuelanas e é o eixo de qualquer plano de estabilização econômica.

Os novos comandantes assumem distritos estratégicos, que concentram refinarias, oleodutos, faixas da Faixa do Orinoco e terminais de embarque, além das principais cidades do país. A movimentação ocorre em bloco, em uma mesma data, e atinge oficiais de alta patente com longa trajetória em postos regionais. Ao centralizar os anúncios, o governo envia um sinal interno de que não tolerará dúvidas sobre a cadeia de comando enquanto o Parlamento discute possíveis concessões a investidores estrangeiros e ajustes na política de subsídios internos.

Forças Armadas no centro da disputa pelo petróleo

Ao mexer em 12 comandos de uma vez, a presidente reorganiza a linha de frente militar que historicamente funciona como fiador do poder político em Caracas. A aposta é reduzir riscos de fissuras ou gestos de insubordinação em um cenário de inflação elevada, salários corroídos e negociações delicadas sobre sanções internacionais. Segundo um assessor ouvido sob condição de anonimato, a ideia é ter, nas palavras dele, “generais previsíveis em postos críticos” até pelo menos o fim do calendário legislativo de 2026.

Analistas de defesa veem o movimento como parte de uma estratégia de longo prazo. “Quem controla os comandos regionais controla a logística, os portos, os corredores de fronteira e o acesso às áreas petrolíferas”, afirma um pesquisador de relações civis-militares de uma universidade de Caracas. Para ele, a substituição simultânea reduz o espaço de articulação de oficiais que possam divergir da orientação do Executivo sobre acordos com empresas estrangeiras ou sobre a gestão de divisas em moeda forte.

Impacto político interno e reação externa

As trocas atingem diretamente o equilíbrio político em pelo menos três frentes. No Parlamento, partidos de oposição denunciam a formação de um “cinturão militar” em torno das principais decisões econômicas. Lideranças criticam o que chamam de militarização de debates que deveriam ser conduzidos por órgãos civis. Governistas respondem que as mudanças são rotineiras e necessárias para modernizar a estrutura de defesa em um ano marcado por disputas geopolíticas em torno do petróleo.

No cenário externo, diplomatas de países que compram petróleo venezuelano acompanham de perto o redesenho da cúpula militar. Investidores avaliam o impacto sobre a previsibilidade de contratos, prazos de entrega e segurança em corredores de exportação. Uma fonte do setor afirma que cada alteração em comandos regionais pode atrasar em semanas a implementação de novos acordos, enquanto os oficiais recém-nomeados consolidam equipes e ajustam procedimentos em portos e terminais. O risco, segundo ela, é que qualquer sinal de tensão interna pressione o prêmio de risco do país e encareça linhas de crédito.

Disputa por lealdade e controle territorial

A presença das Forças Armadas na gestão econômica venezuelana cresce de forma constante desde a década passada, com militares em ministérios, estatais e conselhos de empresas mistas. Em várias regiões, comandantes têm influência direta sobre cadeias de abastecimento de combustíveis, fiscalização de fronteiras e combate ao contrabando. Ao ajustar o comando regional em bloco, o governo tenta garantir que essas estruturas permaneçam alinhadas a decisões centrais que envolvem preços, importações e novos parceiros comerciais.

O movimento também responde a pressões internas dentro dos quartéis. Oficiais de média patente reclamam em privado da defasagem salarial, enquanto generais são chamados a assumir funções administrativas associadas a recursos em dólares. A troca de 12 nomes, em um só gesto, funciona como recado para a carreira: a permanência em postos estratégicos depende da demonstração contínua de fidelidade política, especialmente quando o petróleo volta ao centro da agenda.

Próximos passos e incertezas

Os novos comandantes começam a se apresentar às tropas nos próximos dias, com cerimônias em capitais regionais e visitas a instalações petrolíferas. A expectativa no entorno da presidente é chegar à sessão parlamentar sobre o petróleo com o comando militar já estabilizado e sem sinais públicos de ruído. Integrantes da base governista falam em aprovação de mudanças legais ainda no primeiro semestre, com prazos de 6 a 12 meses para que novos contratos e ajustes de produção se traduzam em aumento efetivo de receita.

A incógnita está na capacidade do governo de manter coesa uma estrutura que concentra, ao mesmo tempo, armas, território e acesso a divisas em um país sob forte pressão econômica. A reorganização dos 12 comandos regionais indica que o Palácio de Miraflores aposta em mais controle militar para sustentar decisões políticas sobre o futuro do petróleo venezuelano. Resta saber se esse arranjo estabiliza o tabuleiro ou apenas adia um novo ciclo de tensões internas.

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