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Venezuela solta opositor Juan Pablo Guanipa e testa nova fase política

O líder opositor venezuelano Juan Pablo Guanipa deixa a prisão neste domingo (8), em Caracas, após quase dez meses detido por acusação de complô terrorista. A libertação ocorre em meio a uma ofensiva do novo governo para rever casos de presos políticos e responder a pressões internas e externas.

Soltura simbólica em meio a onda de libertações

Guanipa, aliado próximo da Nobel da Paz María Corina Machado, volta às ruas quase nove meses depois de ser detido, em maio de 2025, acusado de liderar um complô terrorista. Ele tinha passado cerca de dez meses na clandestinidade antes da prisão, período em que se tornara um dos rostos mais visados da oposição ao então governo de Nicolás Maduro.

A libertação faz parte de uma série de solturas iniciada em 8 de janeiro de 2026, anunciada pela presidente interina Delcy Rodríguez. O grupo de direitos humanos Foro Penal afirma ter verificado 383 libertações de presos políticos desde então. O governo fala em quase 900 pessoas beneficiadas, mas não divulga lista oficial nem detalha datas, o que alimenta dúvidas sobre o alcance real da medida.

Ao deixar o cárcere, Guanipa resume o período recente em uma frase que já circula entre aliados. “Dez meses escondido e quase nove meses detido aqui”, diz, no domingo, ao comentar o tempo que passa entre a clandestinidade e a prisão. Ele afirma que volta à cena com foco nas disputas internas sobre o futuro do país. “Há muito o que conversar sobre o presente e o futuro da Venezuela, sempre com a verdade em primeiro plano.”

A família e o movimento político de Guanipa rejeitam desde o início as acusações de terrorismo e falam em perseguição aberta contra a ala mais combativa da oposição. Para eles, o processo não se sustenta em provas e se insere em uma estratégia de intimidação que atinge há anos lideranças regionais, ativistas e estudantes.

Nos primeiros dias de fevereiro, parentes conseguem vê-lo pessoalmente pela primeira vez em meses e relatam que ele está com boa saúde física. O relato contrasta com denúncias recorrentes de maus-tratos em centros de detenção, em especial no Helicoide, em Caracas, apontado por entidades de direitos humanos como símbolo de abusos praticados por serviços de inteligência.

Pressão interna, lei de anistia e disputa de narrativa

María Corina Machado celebra a soltura de Guanipa nas redes sociais e transforma o caso em bandeira para exigir mais avanços. “Meu querido Juan Pablo, contando os minutos para te abraçar! Você é um herói e a história vai reconhecer isso sempre. Liberdade para todos os presos políticos!”, escreve ela no X, em espanhol. O recado mira a base oposicionista, mas também chancelerias estrangeiras que cobram gestos concretos do novo governo.

Grupos de oposição e entidades de direitos humanos repetem há anos que a Venezuela usa o sistema penal como ferramenta de controle político. Caracas nega a existência de presos políticos e insiste em que todos os detidos cometem crimes comuns ou de terrorismo. A divergência se traduz em números conflitantes e em intensa disputa de narrativa, agora reacendida pela onda de libertações.

Delcy Rodríguez, que assume a presidência interina após a captura e deposição de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos no mês passado, tenta usar o momento para redesenhar a imagem do país. Ela anuncia uma proposta de lei de anistia para centenas de presos e promete transformar o Helicoide, notório centro de detenção em Caracas, em espaço esportivo e de serviços sociais. A mudança pretende marcar uma ruptura simbólica com o período anterior.

O texto da anistia passa em primeira votação na Assembleia Nacional nesta semana e ainda precisa de uma segunda aprovação para virar lei. O projeto prevê clemência imediata a pessoas presas por participar de protestos políticos ou criticar figuras públicas, devolução de bens confiscados e revogação de alertas da Interpol e de outras medidas internacionais emitidas pelo antigo governo.

A iniciativa atende a reivindicações antigas de familiares de presos e de organizações locais, mas também responde diretamente a exigências feitas por Washington em negociações sobre acordos petrolíferos. Desde que chega ao poder, Rodríguez sinaliza disposição em cumprir compromissos assumidos na área de energia, na tentativa de aliviar sanções e recuperar receitas em um país que enfrenta crise econômica e humanitária prolongada.

Impacto político e incertezas sobre a transição

A saída de figuras como Guanipa da prisão altera o tabuleiro interno da oposição venezuelana. Lideranças que estavam silenciadas por detenção, exílio ou clandestinidade voltam a ter voz em um momento de redefinição institucional. Para parte da base opositora, a libertação de presos fortalece Machado, que acumula capital político desde que recebe o Prêmio Nobel da Paz e se torna referência internacional da resistência ao chavismo.

Ainda assim, a desconfiança é forte. Setores da sociedade civil temem que as libertações funcionem como gesto pontual para aliviar pressões diplomáticas, sem mudança estrutural nas práticas de repressão. A ausência de uma lista oficial de beneficiados e de um calendário transparente para futuras solturas reforça essa cautela.

Organizações como o Foro Penal prometem manter a contagem independente de casos e divulgar atualizações periódicas. A intenção é medir se a lei de anistia, caso aprovada em segunda votação, de fato alcança a maioria dos presos por motivos políticos ou se deixa de fora perfis considerados mais sensíveis pelo aparato de segurança.

O governo, por sua vez, tenta capitalizar o clima de distensão. Ao incluir a transformação do Helicoide em centro comunitário no pacote de anúncios, Rodríguez envia recado para dentro e para fora: o símbolo do medo deve dar lugar a um equipamento urbano voltado a esporte e serviços sociais. A execução desse plano, porém, dependerá de dinheiro, tempo e escolhas concretas de política de segurança.

O que está em jogo nos próximos meses

Os próximos passos da transição venezuelana passam pela consolidação da lei de anistia e pela definição de um cronograma claro de libertações. A forma como o governo trata casos emblemáticos, como o de Guanipa, servirá de termômetro para medir o alcance da abertura política. Cada gesto será observado por opositores, por governos estrangeiros e por empresas interessadas em voltar a investir no setor de petróleo.

Para a oposição, o desafio é transformar a nova leva de libertações em energia política organizada, sem perder de vista o histórico recente de promessas descumpridas. A permanência de dúvidas sobre quantos seguem presos por motivação política mantém viva a pergunta central da crise venezuelana: a soltura de Juan Pablo Guanipa é o prenúncio de uma mudança duradoura ou apenas o capítulo mais recente de uma transição ainda em disputa?

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