Vaticano reúne cúpula católica em sexta meditação quaresmal
A sexta meditação dos Exercícios Espirituais da Quaresma reúne nesta quarta-feira (25) a cúpula da Igreja Católica no Vaticano. Conduzido pelo bispo norueguês Erik Varden, o encontro busca fortalecer a fé e a coesão interna em meio a desafios crescentes para a prática religiosa.
Vaticano transforma silêncio em sinal político e espiritual
O encontro acontece em uma sala reservada dentro do Estado da Cidade do Vaticano, em Roma, e ocupa boa parte da manhã deste 25 de fevereiro de 2026. O bispo Erik Varden, monge cisterciense de 49 anos e bispo de Trondheim, na Noruega, orienta, passo a passo, a meditação proposta para o tempo da Quaresma, que neste ano se estende de 18 de fevereiro a 4 de abril.
À frente dele, lado a lado, sentam-se cardeais residentes em Roma, chefes de congregações e dicastérios, responsáveis diretos por decisões que impactam mais de 1,3 bilhão de católicos no mundo. O papa Leão XIV acompanha o retiro de forma reservada, reforçando o caráter de recolhimento e de escuta que o Vaticano tenta imprimir ao período. Na prática, a agenda reduzida e o foco na oração funcionam como uma pausa calculada em meio a crises sucessivas que atravessam a Igreja e o debate público global.
A Quaresma, tradicionalmente marcada por jejum, oração e caridade ao longo de 40 dias, ganha neste ano um contorno mais explícito de correção de rota. Varden insiste, segundo participantes, em uma fé menos defensiva e mais enraizada na experiência concreta dos fiéis. “A autoridade espiritual não nasce de decretos, mas de uma vida que fala por si”, afirma em um dos trechos de sua reflexão, distribuída em cadernos impressos e versão digital aos presentes.
Fé sob pressão e disputa de autoridade moral
As meditações desta semana tratam de temas espinhosos para o alto clero, como perda de credibilidade institucional, queda no número de praticantes e cansaço diante de escândalos sucessivos. Dados reunidos por congregações do Vaticano mostram, em linhas gerais, a mesma curva: redução de participação em missas dominicais na Europa Ocidental, estabilização tímida na América Latina e crescimento em alguns países africanos e asiáticos. Em certas dioceses europeias, o comparecimento caiu mais de 30% em duas décadas.
Nesse cenário, a escolha de um bispo do norte da Europa para conduzir os Exercícios Espirituais não é acidental. Varden atua em uma região onde os católicos representam menos de 5% da população e convivem com um ambiente marcadamente secularizado. Sua experiência é vista, dentro dos muros leoninos, como laboratório para pensar a presença da Igreja em sociedades nas quais a fé já não estrutura o cotidiano. “É no deserto que a autoridade se purifica e se redefine”, diz ele, em outro trecho da meditação.
O esforço do Vaticano é traduzir essa reflexão em orientações concretas. Parte dos chefes de congregações trabalha com prazos definidos, até o fim de 2026, para rever linhas de ação em áreas como formação de padres, acompanhamento de vítimas de abusos e comunicação com jovens. Em reuniões anteriores, cardeais alertam que respostas genéricas já não convencem nem dentro da Igreja. A Quaresma se torna, assim, um laboratório de linguagem e postura, menos preocupado em anunciar novidades doutrinárias e mais focado em como exercer, hoje, a autoridade espiritual.
Entre assessores, a percepção é de que o retiro quaresmal oferece um raro espaço de franqueza entre líderes que, em condições normais, se encontram sobretudo em contextos formais. A dinâmica proposta por Varden alterna trechos de meditação, períodos de silêncio e momentos curtos de partilha em pequenos grupos. A metodologia, inspirada na tradição monástica, expõe diferentes sensibilidades: cardeais responsáveis por finanças, diplomacia, disciplina interna e doutrina são instados a ouvir, mais do que falar.
Do recolhimento às dioceses: o que muda para os fiéis
As consequências práticas das meditações não aparecem de imediato, mas começam a se desenhar. Assim que os Exercícios Espirituais terminam, textos de Varden e sínteses das reflexões são traduzidos e enviados a conferências episcopais em todos os continentes. Em anos anteriores, esse material serviu de base para campanhas da fraternidade, semanas de retiro paroquial e diretrizes para a preparação de adultos que desejam retomar a prática religiosa. Em 2025, por exemplo, ao menos 40 países adaptaram temas do retiro romano para suas próprias iniciativas quaresmais.
Neste ano, o eixo “papel e autoridade” promete repercutir com mais força. Bispos de diferentes países já sinalizam mudanças na forma de orientar padres e agentes de pastoral, com exigência maior de transparência nas finanças e de escuta das comunidades. Em alguns lugares, isso deve gerar resistência de setores acostumados a uma gestão mais fechada, que enxergam na exposição pública um risco de politização. Em outros, abre espaço para católicos que cobram respostas mais rápidas diante de abusos e omissões históricas.
O Vaticano sabe que a credibilidade se mede em gestos verificáveis, não apenas em homilias bem formuladas. Por isso, monitores internos acompanham, nos próximos 12 a 24 meses, se as orientações quaresmais resultam em mudanças concretas de conduta. A expectativa é que, até o início da Quaresma de 2027, ao menos parte das decisões amadurecidas agora esteja incorporada a documentos oficiais, instruções pastorais e rotinas de trabalho em dioceses estratégicas.
O impacto simbólico também pesa. A imagem de cardeais e chefes de congregações em silêncio, sob a orientação de um bispo relativamente jovem, sinaliza uma tentativa de reequilibrar pesos dentro da hierarquia. A autoridade deixa de ser tratada apenas como prerrogativa de cargos e passa a ser apresentada como responsabilidade compartilhada. Para comunidades que se sentem distantes de Roma, esse movimento pode soar tardio, mas aponta para uma direção clara: menos autopreservação, mais serviço.
Próximos passos e a disputa pelo futuro da Igreja
Ao fim da sexta meditação, a agenda indica novos encontros até o encerramento dos Exercícios Espirituais, previsto para os primeiros dias de março. Nos bastidores, já se discute como traduzir o conteúdo em decisões de governo pontifício e em gestos públicos de reconciliação, especialmente em países marcados por conflitos e polarização política. A diplomacia vaticana acompanha de perto essa agenda, consciente de que a voz moral da Igreja perde espaço quando não se mostra coerente internamente.
A partir de abril, quando termina a Quaresma, começam as avaliações mais objetivas. Conferências episcopais enviam relatórios a Roma com iniciativas locais, resistências encontradas e resultados iniciais. Essa coleta de dados alimenta um ciclo de revisão que deve se estender por pelo menos dois anos. Ao mesmo tempo, grupos católicos mais conservadores e mais progressistas disputam a interpretação do que, exatamente, significa reformar a autoridade sem diluir a doutrina.
Entre silêncio, oração e estratégia, o Vaticano tenta responder a uma pergunta simples e incômoda: quem escuta a sua voz em 2026, e por quê? As meditações conduzidas por Erik Varden não oferecem respostas prontas, mas expõem a urgência de uma Igreja capaz de falar com autoridade a um mundo fragmentado. A Quaresma, que dura pouco mais de quarenta dias, termina em data certa. O teste sobre o papel e a credibilidade dessa autoridade, no entanto, se estende bem além do calendário litúrgico.
