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Vaticano recusa assento em Conselho da Paz criado por Trump

O Vaticano recusa o convite para integrar o Conselho da Paz, órgão internacional promovido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O anúncio é feito nesta terça-feira (17), em Roma, pelo cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, que reafirma a confiança da Igreja na ONU como instância central para crises globais.

Santa Sé reforça papel da ONU em meio à disputa por protagonismo

A decisão surge em um momento de disputa silenciosa por autoridade nas mesas de negociação internacionais. Enquanto Trump tenta consolidar o Conselho da Paz como vitrine de sua diplomacia, o Vaticano deixa claro que não pretende endossar um organismo visto por críticos como concorrente direto das Nações Unidas.

Em declaração pública divulgada oficialmente pelo Vaticano, Parolin evita confronto direto com Washington, mas envia um recado inequívoco. “Para nós, existem algumas questões críticas que precisam ser resolvidas”, afirma o cardeal, ao explicar por que a Santa Sé fica fora da nova estrutura. Sem entrar em detalhes, ele delimita o campo de atuação aceitável. “No âmbito internacional, acima de tudo, é a ONU que administra essas situações de crise”, diz.

O anúncio ocorre no Vaticano, em Roma, no mesmo ambiente em que, horas antes, Parolin participa de uma cerimônia que marca o 97º aniversário do Pacto de Latrão, acordo que consolidou a soberania da Santa Sé. Ao cumprimentar diplomatas, entre eles o embaixador da Itália junto à Santa Sé, Francesco Di Nitto, o cardeal já é pressionado por perguntas sobre a posição em relação ao conselho presidido por Trump.

Nos bastidores da diplomacia vaticana, a avaliação é que a Santa Sé se fortalece quando atua como mediadora que fala com todos, sem se vincular de forma estrutural a iniciativas lideradas por um único país, ainda mais quando esse país é parte recorrente de conflitos que o novo órgão diz querer arbitrar. A opção pela ONU, com todas as suas falhas, é descrita por diplomatas como uma defesa da arquitetura multilateral construída após a Segunda Guerra.

Conselho da Paz avança, mas modelo “pago” alimenta desconfianças

O Conselho da Paz nasce com um objetivo delimitado: supervisionar a trégua em Gaza e coordenar a reconstrução do território devastado pela guerra entre o Hamas e Israel. Trump apresenta a proposta em janeiro, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, como uma resposta “pragmática” à lentidão da diplomacia tradicional.

Em poucas semanas, o plano se expande. O estatuto do órgão passa a falar em mediação de “todos os tipos de conflitos internacionais”, da África ao Leste Europeu, e abre espaço para missões de monitoramento eleitoral e até sanções coordenadas por seus integrantes. O avanço de escopo acende sinal amarelo em chancelarias e organizações multilaterais, que veem a construção de uma espécie de sistema paralelo ao da ONU.

Ao menos 19 países já assinam a carta de fundação do Conselho da Paz desde janeiro. O grupo inclui aliados tradicionais dos Estados Unidos e governos que buscam proximidade política com Washington. Para ter assento permanente, cada membro se compromete a contribuir com US$ 1 bilhão, cerca de R$ 5,22 bilhões, valor que se soma a aportes menores de participantes rotativos e de doadores privados.

O desenho financeiro vira munição para críticos, que o descrevem como uma versão “paga” do Conselho de Segurança da ONU. A cobrança de ingresso elevado para assentos permanentes alimenta suspeitas de que a influência dentro do órgão fique diretamente atrelada à capacidade de investimento, não ao peso diplomático ou à legitimidade internacional. Especialistas em governança global alertam para o risco de decisões sensíveis, como o envio de missões de paz, ficarem condicionadas à agenda de grandes financiadores.

Nesse cenário, a recusa do Vaticano assume peso simbólico desproporcional à ausência de voto formal. A Santa Sé não dispõe de exército nem de capacidade econômica comparável à de grandes potências, mas acumula décadas de atuação em mediações discretas, como em negociações entre Cuba e Estados Unidos ou em processos de paz na América Latina. Ao optar por reforçar a centralidade da ONU, o Vaticano envia um sinal a países que ainda hesitam diante da iniciativa de Trump.

Equilíbrio de poder em disputa e próximos movimentos diplomáticos

A decisão da Santa Sé tende a impactar diretamente o cálculo de governos que se apresentam como defensores do multilateralismo clássico. Chancelarias europeias, em especial as mais alinhadas à União Europeia, usam há anos o discurso de fortalecimento da ONU como eixo de sua política externa. A recusa vaticana oferece argumento adicional para resistir a pressões americanas por adesão ao novo conselho.

Organizações humanitárias e entidades da sociedade civil também se movimentam. A obrigação de aporte mínimo de US$ 1 bilhão para membros permanentes já provoca questionamentos sobre transparência, prestação de contas e critérios de escolha de missões. Há o temor de que o Conselho da Paz selecione crises com maior visibilidade política ou retorno de imagem para seus patrocinadores, deixando conflitos prolongados e menos midiáticos fora do radar.

Dentro do Vaticano, a leitura é que o gesto preserva a liberdade de ação do papa em mediações futuras, seja no Oriente Médio, seja em guerras que hoje se arrastam em outras regiões. Ao não se sentar à mesa de um órgão concebido em Washington e presidido por Trump, a Santa Sé evita ser percebida como parte de um bloco, algo que poderia dificultar conversas com atores que veem o novo conselho com desconfiança.

O movimento, no entanto, não encerra o debate. Governos que já aderiram ao Conselho da Paz procuram minimizar o impacto da recusa vaticana e prometem ajustar as regras de governança para dar mais transparência às decisões. Na ONU, diplomatas acompanham o avanço do novo órgão com preocupação, mas ainda sem uma resposta institucional clara.

Os próximos meses devem mostrar se a iniciativa liderada por Trump se consolida como polo alternativo de poder ou se enfrenta uma barreira de legitimidade difícil de superar. A escolha do Vaticano, feita em fevereiro de 2026, coloca mais peso na balança da ONU e obriga capitais, organismos internacionais e a própria Casa Branca a responder a uma pergunta central: quem terá, afinal, a última palavra nas futuras mesas de paz do mundo?

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