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Vaticano realiza terceira meditação da Quaresma sobre a “ajuda de Deus”

A Cúria Romana se reúne nesta Quaresma de 2026, no Vaticano, para a terceira meditação dos Exercícios Espirituais, conduzida pelo bispo Erik Varden. A reflexão, voltada a Papa Leão XIV, cardeais e chefes de Dicastérios, tem como eixo a “ajuda de Deus” na vida espiritual dos líderes da Igreja.

Reflexão em silêncio no coração do Vaticano

O encontro ocorre numa sala reservada do Vaticano, longe das câmeras e do ritmo administrativo que marca os corredores da Cúria Romana. Ali, durante pouco mais de uma hora, o bispo norueguês Erik Varden, monge trapista e teólogo, conduz a terceira etapa dos Exercícios Espirituais da Quaresma, tradição que atravessa décadas de pontificados.

Varden dirige sua meditação diretamente a Leão XIV e aos cardeais que residem em Roma, além dos chefes dos Dicastérios, órgãos que funcionam como ministérios da Santa Sé. O tema, “a ajuda de Deus”, não se restringe a uma fórmula devocional: aponta para a forma como a cúpula da Igreja entende sua própria fragilidade diante de decisões que afetam mais de 1,3 bilhão de católicos no mundo.

Ao longo da Quaresma, que em 2026 se estende de 18 de fevereiro até 4 de abril, esses encontros diários criam um raro hiato na rotina de audiências, viagens e documentos oficiais. A hierarquia se afasta por alguns dias da agenda pública para ouvir, em tom de retiro, uma única voz. Nesta terceira meditação, Varden insiste na ideia de dependência radical da graça, numa linguagem que busca unir mística e responsabilidade institucional.

Segundo o resumo oficial divulgado pelo Vaticano, o bispo propõe que os líderes “reconheçam, sem medo, os pontos em que a própria força não basta e a ajuda de Deus se torna imprescindível”. A frase ecoa o espírito dos antigos Exercícios de Santo Inácio de Loyola, que inspiram esse modelo de retiro: a escuta interior como preparação para escolhas concretas.

Tradição, poder e impacto interno na Igreja

A prática dos Exercícios Espirituais da Quaresma, instalada de forma estável a partir do século XX, torna-se em 2026 ainda mais estratégica para a Cúria. Em meio a debates sobre reforma administrativa, finanças da Santa Sé e respostas a crises de credibilidade, o foco na “ajuda de Deus” funciona como lembrete de que, para o Vaticano, governo e espiritualidade caminham juntos.

Leão XIV, eleito há poucos anos, herda uma tradição em que o Papa interrompe as atividades ordinárias para se recolher com seus principais colaboradores. O retiro não produz decisões imediatas, decretos ou números para balanço, mas influencia o tom de documentos, homilias e discursos que aparecem, semanas depois, nas missas na Praça de São Pedro e nas mensagens papais a bispos de vários continentes.

O público é restrito: pouco mais de algumas dezenas de cardeais, além de arcebispos e superiores de Dicastérios, todos com cargos que lidam diariamente com temas como doutrina, evangelização, liturgia e justiça. Ao falar de “ajuda de Deus” a esse grupo, Varden toca um ponto delicado: a necessidade de admitir limites humanos em estruturas que, vistas de fora, costumam parecer monolíticas.

Em sua reflexão, ele sugere que a alta hierarquia se deixe “desarmar” por aquilo que chama de iniciativa divina. “Quando a Igreja se esquece de pedir ajuda, ela corre o risco de agir como qualquer outra instituição, guiada apenas por cálculos”, afirma, segundo a síntese divulgada. A frase atinge diretamente a dinâmica interna da Cúria, marcada por negociações políticas e disputas de enfoque que, em anos recentes, vêm à tona com mais frequência.

Na prática, momentos como esse reforçam a coesão simbólica de um governo central que administra dioceses espalhadas por mais de 190 países. Ainda que o conteúdo da meditação não se torne público na íntegra, o simples fato de Leão XIV se sentar no mesmo banco que seus colaboradores, em silêncio, envia um recado interno de unidade espiritual em um tempo litúrgico de penitência e conversão.

Repercussões, expectativas e próximos passos

O impacto imediato da terceira meditação da Quaresma permanece, em grande parte, restrito às paredes do Vaticano. Não há boletins extensos nem coletivas de imprensa. O sinal de mudança aparece mais adiante, quando o Papa retoma seus encontros semanais, as audiências gerais de quarta-feira e as homilias dominicais, que costumam repercutir em paróquias de todos os continentes.

Analistas de assuntos vaticanos acompanham esse tipo de exercício com atenção, mesmo sem acesso ao conteúdo integral. Em anos anteriores, temas tratados em retiros quaresmais inspiram encíclicas, cartas apostólicas e linhas de ação para conferências episcopais. Em 2026, a insistência na “ajuda de Deus” pode aparecer em orientações sobre como bispos lidam com polarização política, conflitos armados em curso e a própria crise de fé em regiões marcadas pela secularização acelerada.

Nos próximos dias, Leão XIV conclui o ciclo de meditações quaresmais com encontros diários até o fim do retiro, previsto para esta semana litúrgica. Ao final, não há comunicado solene, mas espera-se que o Papa faça referência à experiência em suas próximas mensagens, sobretudo na homilia da Vigília Pascal, uma das celebrações mais assistidas do ano pelos católicos, transmitida em dezenas de idiomas.

Enquanto isso, bispos e fiéis em outros países observam o movimento de Roma e, em muitos casos, reproduzem em escala local retiros semelhantes, às vezes em casas simples de oração, longe da pompa das basílicas. A distância geográfica não impede que a pauta espiritual definida no Vaticano influencie, com alguma defasagem, a linguagem e as prioridades pastorais em dioceses de diferentes continentes.

A terceira meditação da Quaresma, centrada na “ajuda de Deus”, insere-se nesse fio discreto, porém constante, de formação da liderança católica. A pergunta que fica, para dentro e fora dos muros leoninos, é se essa consciência de dependência divina conseguirá se traduzir, nos próximos meses, em decisões mais transparentes, solidárias e compreensíveis para quem acompanha a Igreja a partir do banco das paróquias.

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