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Vasco vende Rayan ao Bournemouth por 35 milhões de euros

O Vasco confirma nesta terça-feira (27) a venda do atacante Rayan, 19, para o Bournemouth, da Inglaterra. A negociação, de 35 milhões de euros, encerra a passagem da joia por São Januário e abre um novo capítulo na carreira do jogador formado na base cruzmaltina.

Joia da base sai mais cedo do que o clube desejava

O anúncio oficial sai pela manhã, em tom afetivo. O clube chama o jogador de “cria” e afirma que o Vasco “foi, é e sempre será sua casa”. A mensagem resume a relação de 13 anos entre o atacante e São Januário, iniciada quando ele chega ainda criança, aos 6 anos, vindo da Barreira do Vasco.

O acordo com o Bournemouth prevê pagamento à vista de 35 milhões de euros, cerca de R$ 220,7 milhões na cotação atual. Desse valor, 70% entra nos cofres vascaínos. Os outros 30% ficam com a família e o estafe do atleta, que participam diretamente da negociação e pressionam pela saída imediata para o futebol inglês.

A diretoria resiste nas primeiras conversas. A avaliação interna é de que Rayan pode se valorizar ainda mais com uma temporada completa no time profissional, em um ano de calendário cheio e maior exposição. Em silêncio, o departamento de futebol tenta alongar as tratativas e busca aumentar o valor total do negócio nas últimas semanas.

A pressão do entorno do jogador pesa. O staff acerta bases salariais com o Bournemouth, dá “ok” para o projeto esportivo e passa a cobrar a liberação. Para sair já em janeiro, Rayan aceita abrir mão de 10% dos seus direitos econômicos, o que eleva a fatia do Vasco de 60% para 70% na operação final. A concessão acelera o desfecho.

O afastamento do atacante do dia a dia do elenco expõe o estágio avançado da negociação. Rayan não entra em campo na última semana, nem sequer é relacionado para o clássico contra o Flamengo, no dia 21. Dentro do vestiário, o clima é de despedida antecipada. A definição pública só vem agora.

Negócio histórico alivia caixa, mas deixa lacuna técnica

O valor de 35 milhões de euros coloca a venda de Rayan entre as maiores transações da história do Vasco. Em um clube que convive com anos de aperto financeiro, a entrada imediata de aproximadamente R$ 154 milhões líquidos representa uma folga rara. A quantia pode servir para abater dívidas, reforçar o elenco e sustentar o planejamento esportivo da temporada.

O ganho financeiro não apaga a sensação de perda precoce dentro de campo. Fernando Diniz, técnico do Vasco, lamenta em público a saída do atacante. “Vai ser muito difícil achar outro Rayan. Não vamos ter 35 milhões de euros para pagar outro Rayan, e acho que ele valeria até mais”, afirma, depois do clássico com o Flamengo.

O treinador reforça que, na sua visão, o melhor caminho seria segurar o jogador por mais um ano no Brasil. “Esportivamente, por mais que possa ir bem lá, a decisão mais acertada era permanecer aqui por mais uma temporada e sair mais pronto”, diz. Ele lembra que o atacante tem, nas suas palavras, “espaço de crescimento gigante” e poderia ter “um ano maravilhoso” com a camisa do Vasco.

A saída também expõe a realidade do mercado. Clubes europeus, mesmo de porte médio, seguem atraindo talentos brasileiros com pacotes salariais em moeda forte, estrutura e visibilidade em uma das principais ligas do mundo. Para os atletas, a ida precoce vira atalho para a seleção, para grandes centros e para contratos mais robustos. Para os clubes formadores, a conta chega em forma de reposição quase impossível no curto prazo.

Em São Januário, o vazio técnico é imediato. O elenco perde um atacante veloz, de boa finalização e identificação com a torcida, que já o via como referência de uma nova geração. A própria comissão técnica admite que não há substituto do mesmo nível à disposição. “Rayan é um jogador, para mim, muito diferente e reposição quase impossível no mesmo nível”, diz Diniz.

Pressão do mercado e futuro em jogo

A transferência de Rayan reforça uma tendência que se repete ano após ano no futebol brasileiro: a exportação cada vez mais cedo de jogadores formados em casa. Em vez de construir longas trajetórias nos clubes locais, muitos jovens deixam o país antes de completar duas temporadas completas no profissional. O resultado é um campeonato com renovação constante, mas com dificuldade para manter suas principais estrelas.

Para o Vasco, o desafio agora é transformar a venda histórica em alavanca esportiva. A SAF precisa mostrar capacidade de reinvestir parte do montante em contratações estratégicas e em estrutura, sem repetir cenários de anos anteriores em que grandes negócios não se traduzem em times competitivos. O impacto da saída sobre a campanha da temporada será um dos termômetros imediatos dessa gestão.

Para Rayan, o salto ao Bournemouth abre uma vitrine poderosa. A Premier League, mesmo em clubes fora do eixo dos gigantes, oferece calendário intenso, exposição internacional e teste semanal em alto nível. O risco é conhecido: muitos jovens brasileiros enfrentam adaptação difícil a um jogo mais físico, a um país de clima e cultura distintos e a uma cobrança diária por desempenho.

A forma como o atacante lida com essa transição vai definir os próximos capítulos da carreira. Um início consistente na Inglaterra pode transformá-lo rapidamente em ativo de outro patamar no mercado europeu. Um período de instabilidade pode recolocá-lo na rota de empréstimos e recomeços, caminho conhecido por outros talentos que saem cedo do Brasil.

Entre o alívio financeiro do Vasco e a aposta de um jovem de 19 anos na liga mais rica do mundo, fica a pergunta que ronda o futebol brasileiro há anos: até quando os principais protagonistas do país seguirão deixando o campo antes de escrever, por aqui, suas melhores temporadas?

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