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Vance descarta guerra longa dos EUA no Oriente Médio e aposta em Irã

O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, descarta a possibilidade de um envolvimento prolongado do país em uma guerra no Oriente Médio. Em entrevista publicada em 2025 pelo The Washington Post, ele afirma que a Casa Branca privilegia a diplomacia com o Irã e rejeita um novo ciclo de conflitos sem prazo para terminar.

Casa Branca tenta conter temor de nova guerra sem fim

Vance fala em tom categórico ao comentar a escalada de tensão com Teerã. “A ideia de que vamos estar em uma guerra no Oriente Médio por anos, sem fim à vista — não há chance de isso acontecer”, diz ao jornal. A frase tenta frear o temor de mercados, aliados e opinião pública de que Washington caminhe para outro atoleiro militar, duas décadas após a invasão do Iraque, em 2003.

O vice-presidente se apoia na postura recente da administração Trump, que mantém aberta a possibilidade de um ataque, mas se inclina para a negociação. Na quinta-feira, autoridades americanas e iranianas mantêm conversas em Genebra, na Suíça, em uma nova rodada de diálogo mediado por representantes europeus. Fontes ouvidas pela CNN falam em “alguns sinais de progresso”, mas admitem que ainda não há um avanço decisivo.

Vance insiste que a prioridade é evitar um confronto direto e prolongado. “Eu acho que todos preferimos a opção diplomática”, afirma. O vice-presidente, no entanto, condiciona qualquer desfecho ao comportamento de Teerã. “Mas isso realmente depende do que os iranianos fazem e do que dizem”, completa, ao ser questionado sobre os próximos passos.

O pano de fundo da entrevista é a combinação de pressão militar e canal diplomático que marca a política americana para o Irã desde o início de 2025. De um lado, o governo reforça sanções, monitora o programa nuclear iraniano e deixa em aberto a hipótese de um ataque cirúrgico a instalações sensíveis. De outro, investe em mesas de negociação em Genebra e em capitais europeias, na tentativa de costurar garantias de que Teerã não buscará a bomba atômica.

Diplomacia com o Irã e o fantasma dos erros passados

O presidente iraniano declara, em discursos recentes, que o país não busca acesso a armas nucleares. A fala ecoa compromissos assumidos em 2015, no acordo nuclear suspenso depois por Washington, e volta ao centro da mesa em 2025, quando Biden e depois Trump tentam redefinir os termos da relação com Teerã. Em paralelo, Trump anuncia que participará apenas indiretamente das negociações, delegando a tarefa a sua equipe de política externa, mas mantendo controle sobre qualquer decisão de uso da força.

Vance reforça a linha de impedir, a qualquer custo, que o Irã obtenha uma arma nuclear. “A administração está comprometida em evitar que o Irã tenha esse tipo de capacidade”, repete, em sintonia com décadas de política americana para a região. Ele lembra a própria trajetória: serviu nos fuzileiros navais e atuou como correspondente de combate no Iraque, experiência que molda sua visão sobre o custo humano e político de uma guerra prolongada.

Quando provocado sobre a possibilidade de integrar um governo que cogita mudança de regime em Teerã, Vance reage com ironia contida. “A vida tem todos os tipos de reviravoltas malucas”, admite, antes de sair em defesa aberta de Trump. O vice-presidente descreve o chefe como um presidente “America-first” — expressão que reforça a promessa de colocar a segurança e a economia dos EUA à frente de qualquer aventura externa.

Vance aponta para um equilíbrio delicado entre evitar novos erros e não paralisar a política externa. “Eu realmente acho que precisamos evitar repetir os erros do passado”, afirma. “Também acho que devemos evitar aprender demais com as lições do passado. Só porque um presidente estragou um conflito militar, não significa que nunca mais podemos nos envolver em um conflito militar.” Na avaliação dele, o desafio é calibrar a resposta de forma cirúrgica, com custos previsíveis, e não entrar outra vez em uma guerra aberta sem data para terminar.

Mercados, aliados e o cálculo de uma guerra curta

A sinalização de que não haverá um conflito longo no Oriente Médio fala diretamente a investidores, aliados e rivais estratégicos. Desde o início de janeiro de 2025, qualquer ruído envolvendo o Golfo Pérsico afeta a cotação do petróleo, que já oscila acima de US$ 80 o barril em alguns pregões. Uma declaração de que não há “chance” de uma guerra de anos tende a esfriar apostas em choques prolongados de oferta e em alta duradoura de preços de energia.

Aliados europeus, que dependem de cerca de 40% de suas importações de energia de regiões sensíveis, acompanham cada sinal vindo de Washington. Países como Alemanha, França e Reino Unido pressionam por uma saída negociada, temendo tanto um Irã nuclear quanto um conflito que desorganize rotas marítimas e encareça o gás para consumidores e indústrias. Para eles, uma intervenção curta, limitada e em última instância, é aceitável; uma nova guerra como a do Iraque é vista como desastre político e econômico.

No Oriente Médio, governos do Golfo e Israel leem a entrevista de Vance como recado duplo. Washington não promete um guarda-chuva militar irrestrito, mas também não descarta o uso da força. Ao mesmo tempo, o vice-presidente tenta blindar as conversas em Genebra de pressões externas, em especial de apelos públicos do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, por uma linha mais dura contra o Irã. O recado é que a negociação não será conduzida a partir de microfones, mas em salas fechadas.

A oposição americana, dividida entre falcões intervencionistas e isolacionistas, explora a ambiguidade. Críticos veem na recusa de admitir uma guerra longa um sinal de ingenuidade diante de um regime que classificam como imprevisível. Defensores da postura de Vance argumentam que a combinação de ameaça militar credível com diálogo é a única forma realista de conter o programa nuclear iraniano sem repetir os erros dos anos 2000.

Negociações em Genebra e uma pergunta em aberto

As conversas em Genebra seguem como o principal termômetro da estratégia americana. Diplomatas falam em prazos de semanas, não de meses, para um entendimento inicial que envolva inspeções adicionais, limites claros de enriquecimento de urânio e algum alívio gradual de sanções econômicas. Um calendário desse tipo interessa à Casa Branca, que busca mostrar resultados concretos ainda em 2025, antes que a agenda eleitoral nos EUA feche a janela para grandes concessões.

Vance aposta que a firmeza do discurso, combinada com a promessa explícita de evitar uma guerra longa, ajudará a criar espaço político para um acordo. O sucesso, porém, depende da disposição do Irã em colocar por escrito o que hoje afirma em discursos: que não busca armas nucleares. Até lá, a declaração do vice-presidente funciona como compromisso público, não como garantia. A pergunta que fica, para aliados e adversários, é se Washington manterá essa linha caso Genebra não entregue o que a Casa Branca espera.

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