Valdemar liga vitória do PL à prisão de Bolsonaro e cobra unidade
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirma nesta terça-feira (7) que Jair Bolsonaro pode ficar mais dez anos preso se o partido perder a próxima eleição. A declaração ocorre em evento do Bradesco em São Paulo e reforça a pressão por unidade interna na sigla. Para ele, o PL “não tem como perder essa eleição, só se for por falta de capacidade nossa”.
Valdemar transforma prisão de Bolsonaro em eixo da disputa
Valdemar fala a uma plateia de empresários e investidores em São Paulo e coloca a situação jurídica de Bolsonaro no centro da estratégia eleitoral do PL em 2024. Ao associar a liberdade do ex-presidente ao desempenho do partido nas urnas, ele tenta mobilizar a base bolsonarista e reposicionar a sigla como principal polo da oposição.
“Se nós não ganharmos essa eleição, o Bolsonaro vai ficar mais dez anos preso”, diz o dirigente, em tom de alerta. A frase condensa o cálculo político do PL: transformar a vulnerabilidade do ex-presidente, hoje réu em diferentes frentes, em fator de engajamento. O argumento reforça a narrativa de perseguição e busca manter Bolsonaro como referência, mesmo após a derrota presidencial de 2022 e o avanço de investigações sobre sua conduta no governo e depois dele.
Valdemar admite diante do público que a campanha de 2022 naufraga por erros internos. Conta que insistiu com Bolsonaro para trocar o vice, general Braga Netto, pela então ministra Tereza Cristina, mas não é atendido. “Nós já perdemos a última eleição, porque nós tivemos uma teimosia muito grande do Bolsonaro quando ele quis manter o vice-presidente, que é o Braga Neto”, afirma. Segundo ele, a resistência do então presidente à mudança custa votos decisivos entre as mulheres após a pandemia.
“Ele [Bolsonaro] ia muito mal com as mulheres, por causa da pandemia. E aí eu insisti com ele para ele pôr a Tereza Cristina, e ele não quis mudar, ele quis manter o Braga Neto, e nós perdemos a eleição por causa disso”, relata. Ao recontar o episódio dois anos depois do segundo turno de outubro de 2022, Valdemar tenta mostrar que aprendeu com o revés e que, desta vez, não pretende tolerar improvisos ou disputas pessoais que ameacem o projeto do PL.
Brigas internas e disputa por protagonismo ameaçam estratégia
O dirigente admite que a principal ameaça hoje não vem apenas do Palácio do Planalto, mas de dentro do próprio partido. Em meio a uma base inflamada e pulverizada em redes sociais, Valdemar cita nominalmente o choque entre o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira, dois dos principais quadros da direita nas mídias digitais. “Nós temos que ter um entendimento, o nosso pessoal briga muito por causa de ciúmes um do outro”, afirma.
O presidente do PL tenta conter o incêndio. Conta que marca um jantar com Nikolas e sua equipe para reduzir tensões e entender melhor o entorno do deputado mineiro, fenômeno eleitoral de 2022 com mais de 1,4 milhão de votos. “Vou jantar com o Nikolas e com a equipe dele, porque eu quero conhecer melhor a equipe do Nikolas”, diz. Em seguida, revela que programa uma viagem internacional para falar diretamente com Eduardo Bolsonaro, que hoje vive em Miami. “Eu, dia 19, estou indo para Miami para encontrar com o Eduardo, conversar com cada um, para que a gente não tenha desentendimento”, acrescenta.
As falas expõem a disputa por espaço na direita e o risco de fragmentação num campo que tenta se reorganizar após o fim do mandato de Bolsonaro, em 31 de dezembro de 2022. De um lado, filhos do ex-presidente preservam capital político próprio, com forte presença em redes e influência sobre militantes. De outro, novas lideranças, como Nikolas, testam seus limites e cobram mais espaço nas articulações regionais e nacionais. No meio, Valdemar tenta manter o controle sobre a máquina partidária e sobre as alianças que podem garantir palanques robustos em outubro.
O alerta sobre não “perder um voto” mostra a avaliação de que as eleições municipais e estaduais deste ano tendem a ser equilibradas, com margem de vitória estreita em grandes centros urbanos. “Nós temos que passar tudo a limpo, não podemos perder um voto, porque a eleição vai ser equilibrada. O Lula vai gastar o que ele não tem agora para ver se tira essa diferença”, afirma, numa referência aos gastos do governo federal em programas sociais e investimentos em ano pré-eleitoral.
Disputa nacional e futuro de Bolsonaro em jogo
O cálculo de Valdemar vai além da disputa local de 2024. O PL tenta usar as urnas deste ano como trampolim para 2026, quando o campo bolsonarista deve buscar um nome competitivo contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou seu sucessor. Com Bolsonaro inelegível até 2030 por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, qualquer aumento no tempo de prisão do ex-presidente reconfigura a liderança à direita e pode abrir espaço para novas figuras internas ou aliadas.
A menção a “mais dez anos” de prisão projeta um horizonte longo de insegurança para o entorno de Bolsonaro e para eleitores que ainda o veem como referência. Na prática, a fala de Valdemar antecipa um discurso que deve aparecer em palanques, debates e propagandas: a ideia de que a escolha de prefeitos, vereadores, governadores e parlamentares influencia diretamente o destino judicial do ex-presidente e o peso da oposição no Congresso Nacional.
Para o PL, ganhar musculatura agora significa garantir bancadas fortes em 2025, mais recursos do fundo partidário e do fundo eleitoral e tempo de TV relevante em 2026. O partido já sai de 2022 como a maior bancada da Câmara, com 99 deputados, e tenta preservar essa posição em meio à migração de nomes influentes para outras siglas. Internamente, a ordem de Valdemar é clara: menos desgaste público, mais coordenação e foco em candidaturas viáveis nas capitais e em colégios eleitorais estratégicos.
A capacidade de o comando do PL mediar conflitos como o de Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira será testada nas próximas semanas, com jantares, viagens e reuniões reservadas. O desfecho dessas conversas pode definir se o partido chega às urnas com uma narrativa unificada ou se seguirá dividido entre diferentes polos de influência. No centro dessa disputa está o futuro político de Bolsonaro e o lugar que ele ainda ocupa, mesmo preso, na imaginação do eleitorado de direita.
Valdemar aposta que a ameaça de uma prisão prolongada funcionará como cimento para manter a tropa coesa e mobilizada. Resta saber se o apelo à lealdade ao ex-presidente será suficiente para superar egos em conflito, cicatrizes de 2022 e a pressão de uma eleição que se desenha apertada voto a voto.
