Vaias a Eduardo Leite expõem clima de polarização em ato com Lula
O governador Eduardo Leite (PSD) é vaiado ao tentar discursar ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 20 de janeiro de 2026, no estaleiro da Ecovix, em Rio Grande, no Sul do Estado. Diante da hostilidade, ele reage, cobra respeito institucional e transforma um ato oficial em termômetro da polarização política no Rio Grande do Sul.
Palco de inauguração vira arena política
O evento no estaleiro da Ecovix começa como uma agenda típica de governo federal, dedicada a anúncios e visitas técnicas, mas rapidamente muda de tom quando o mestre de cerimônias chama o governador ao microfone. Assim que Leite se aproxima, parte significativa do público ergue a voz em coro de vaias, interrompendo qualquer tentativa de abertura. O clima de festa institucional dá lugar a uma plateia dividida, sob o olhar atento de Lula e de auxiliares dos dois governos.
Leite tenta seguir o protocolo e começa a falar. A reação é imediata. As vaias crescem, misturadas a gritos isolados. O governador olha para a plateia e, em tom de ironia, devolve uma provocação política já conhecida no entorno do presidente. “Esse é o amor que venceu o medo?”, pergunta, mirando justamente o slogan repetido por aliados petistas desde a eleição presidencial de 2022. A frase, em vez de conter o incômodo, alimenta o ruído. O público mantém a pressão e não baixa o volume.
Em meio ao barulho, o governador insiste em se manter no púlpito. “Estou cumprindo o meu dever institucional”, afirma, reforçando o argumento de que, ali, fala como chefe do Executivo estadual, e não como adversário político. A tentativa de enquadrar o momento em termos de responsabilidade pública, porém, não surte efeito imediato. As vaias continuam, transformando um trecho do discurso em monólogo quase inaudível fora da área reservada às autoridades.
A cena ganha contornos ainda mais políticos quando Leite traz os números da última eleição presidencial para o centro da conversa. “Na última eleição, o presidente foi eleito com 50,8% dos votos. Se vocês querem união, não simplesmente hostilizem quem pensa diferente”, reclama. O apelo mira tanto a militância que lota o espaço quanto a plateia nacional que, ele sabe, acompanhará o episódio pelas redes sociais e pelos telejornais.
Logo antes da fala do governador, o presidente da Transpetro, Sérgio Bacci, encerra seu discurso com a frase que se tornaria estopim da reação de Leite. Ao citar Lula, Bacci afirma que “o amor venceu o medo”. O bordão, usado na campanha petista, recebe aplausos e reforça o contraste entre a empolgação com o presidente e a rejeição ao governador. Quando Leite sobe ao palco na sequência, encontra um ambiente já aquecido, que transforma a formalidade do ato em palco de disputa simbólica.
Pressionado pelo coro de vaias, Leite tenta baixar a temperatura e deslocar o foco para o que chama de institucionalidade. “Eu respeito o cargo do presidente da República, então peço respeito”, diz, em tom mais grave, olhando para a multidão. A frase destina-se também a Lula, que acompanha a cena sem se manifestar publicamente naquele momento. O governador tenta, na sequência, retomar a pauta original do evento e diz apostar em “um esforço conjunto” entre o Estado e o governo federal para tirar do papel o projeto associado ao estaleiro.
Polarização local e disputa de narrativas
O episódio não ocorre no vácuo. Nos últimos anos, o Rio Grande do Sul se consolida como um dos estados em que a disputa entre bolsonaristas, lulistas e uma terceira via mais moderada se mostra mais acirrada. A própria trajetória de Leite, que circula entre pautas de centro-direita e discursos de conciliação, o coloca em posição delicada diante de um eleitorado cada vez mais segmentado. Na arena local, sua aproximação pontual com o governo federal em projetos de infraestrutura e reconstrução pós-enchentes gera reações cruzadas, tanto de aliados quanto de adversários.
A menção do governador ao índice de 50,8% dos votos obtidos por Lula em 2022 aponta para esse país fendido ao meio. O número resume uma eleição decidida no limite e uma base de apoio presidencial composta, em boa parte, por eleitores críticos a governos estaduais alinhados a agendas de ajuste fiscal e privatizações. Ao cobrar respeito para além das preferências partidárias, Leite tenta se posicionar como defensor das “regras do jogo” e distancia sua imagem da militância mais radical, que se alimenta de embates públicos e de cenas de constrangimento de autoridades.
A reação da plateia, contudo, deixa claro que a linha entre crítica política e deslegitimação institucional continua tênue. Vaias a governadores, prefeitos ou ministros em atos presidenciais não são novidade no Brasil, mas o contexto de 2026 carrega ingredientes adicionais. Após um ciclo de eleições municipais em 2024, marcado por campanhas agressivas, e a perspectiva de novas disputas em 2026, qualquer gesto, frase ou gesto de desagrado ganha peso eleitoral e é rapidamente capturado por redes sociais e cabos eleitorais.
Analistas políticos ouvidos ao longo do dia apontam que a cena no estaleiro da Ecovix tem potencial para reforçar entre aliados de Leite o discurso de vítima de uma militância intolerante, ao mesmo tempo em que cristaliza, entre lulistas, a ideia de que o governador não representa o desejo majoritário do público presente. Em ambos os lados, o episódio vira combustível para campanhas que já testam narrativas em grupos de WhatsApp, perfis no X e vídeos curtos em plataformas como Instagram e TikTok.
No próprio entorno do governo federal, auxiliares tentam minimizar o constrangimento público, destacando que a presença conjunta de Lula e Leite em um mesmo palanque, em 2026, ainda é um sinal concreto de cooperação institucional. A leitura é de que, apesar da hostilidade da plateia e da visibilidade do episódio, os interesses estratégicos de Brasília no estado — de logística a energia, passando por investimentos em polos navais e portuários — dependem de uma convivência minimamente funcional com o Palácio Piratini.
Relação entre Palácio Piratini e Planalto à prova
Os efeitos práticos do ato em Rio Grande se projetam além do constrangimento público. A relação entre o governo estadual e o Planalto entra em um novo estágio de teste, especialmente em projetos que exigem coordenação, recursos e decisões compartilhadas. O estaleiro da Ecovix, palco do episódio, simboliza essa interdependência. A retomada de atividades no complexo, com impacto direto sobre empregos e arrecadação local, depende de alinhamento político em contratos, licenças e prioridades orçamentárias.
No curto prazo, aliados de Leite avaliam como reagir. Uma estratégia possível é usar as imagens das vaias para reforçar o discurso de que o governador enfrenta um ambiente de militância organizada, que não aceita a presença de autoridades de campos distintos em um mesmo evento. Esse argumento pode ser levado a programas de rádio, entrevistas e inserções em redes, sobretudo em cidades do interior onde a rejeição ao PT se mostra mais intensa. Ao mesmo tempo, o grupo de Lula tende a explorar a cena como sinal de desgaste regional do governador, especialmente após disputas anteriores em que Leite não logra projeção nacional esperada.
Em termos institucionais, o episódio reacende o debate sobre o limite entre manifestação democrática e desrespeito a autoridades em ambiente oficial. Prefeitos, secretários e lideranças empresariais presentes comentam, nos bastidores, o incômodo com a dificuldade de manter a liturgia mínima em atos que envolvem contratos milionários, cronogramas de obras e negociações complexas. Investimentos em cadeias de petróleo, gás e logística passam, em grande parte, por ambientes públicos em que a temperatura política segue elevada.
A médio prazo, a forma como Lula e Leite administram o episódio pode influenciar a configuração de alianças para 2026. Um gesto público de distensão, com visita conjunta, anúncio de repasses ou reforço a programas estaduais, tende a sinalizar para o mercado e para prefeitos que a cooperação permanece acima das rusgas de palanque. Uma escalada de troca de farpas, por outro lado, pode travar agendas sensíveis e alimentar a percepção de paralisia política em um estado que ainda tenta se recuperar de crises econômicas e climáticas recentes.
A cena desta terça-feira, no entanto, deixa uma questão em aberto para além de cálculos eleitorais. Em um país em que o presidente vence com diferença de 1,6 ponto percentual e governadores administram sociedades fraturadas, atos oficiais ainda conseguem servir como espaço de convergência mínima? Ou se consolidam como mais um palco de teste de força entre bolhas que, mesmo frente a frente, já não se ouvem?
