USP demite professor acusado de assédio por 16 alunas em Ribeirão
A Universidade de São Paulo demite o professor José Mauricio Rosolen, do Departamento de Química de Ribeirão Preto, após denúncias de assédio sexual e moral feitas por 16 alunas. A decisão é publicada no Diário Oficial em 23 de março de 2026 e abre prazo de 30 dias para recurso do docente.
Decisão encerra um ano de pressões e protestos
A demissão de Rosolen marca o desfecho de um processo que expõe fraturas antigas na USP e na vida universitária brasileira. O caso começa a ganhar corpo em março de 2025, quando a universidade afasta o professor e abre um processo administrativo disciplinar após a formalização das denúncias. Antes disso, desde setembro de 2024, a instituição já conduzia uma averiguação preliminar sobre a conduta do docente.
As acusações narram um padrão de comportamento que mistura proximidade forçada, intimidação e abuso de poder acadêmico. Alunas relatam que o professor se aproximava de forma insistente, oferecia convites para viagens e passeios e buscava criar um vínculo pessoal que extrapolava a relação entre orientador e estudante. Segundo as vítimas, essas aproximações evoluíam para tentativas de beijo forçado, toques em partes íntimas e comentários de cunho sexual durante atividades de ensino e pesquisa.
O medo de ficar sozinha com o professor vira regra silenciosa nos corredores do campus de Ribeirão Preto. Estudantes descrevem um “acordo tácito” para que nenhuma mulher permanecesse isolada com Rosolen em sala de aula ou laboratório. O mecanismo de autoproteção se espalha entre turmas e gera um ambiente de alerta permanente, em contraste com a rotina prevista de aulas, experimentos e reuniões acadêmicas.
Quando as investidas não são correspondidas, as alunas afirmam sofrer outro tipo de violência. Relatos apontam ameaças relacionadas a bolsas de estudo e oportunidades de pesquisa, elementos centrais na trajetória de quem depende da universidade para financiar seus projetos. O medo deixa de ser apenas físico e passa a ser também profissional, atingindo futuros acadêmicos e carreiras ainda em formação.
A demissão, agora oficial, decorre de decisão de um grupo de conselheiros da Congregação da unidade de ensino, que analisa o resultado do processo administrativo disciplinar. A USP informa, por nota, que o colegiado opta pelo desligamento após examinar os depoimentos, documentos e conclusões da comissão encarregada da investigação interna. A reportagem tenta contato com José Mauricio Rosolen. Até a publicação deste texto, ele não se manifesta. O espaço segue aberto para sua versão.
Reação estudantil pressiona universidade por respostas
O retorno parcial de Rosolen às atividades, em março de 2026, pouco antes da publicação da demissão, acende a revolta entre estudantes e grupos organizados do campus. O professor volta à rotina acadêmica enquanto o processo ainda corre internamente, o que é visto por alunas e alunos como um sinal de normalização das denúncias. A tensão se acumula em assembleias, cartas abertas e manifestações.
O Centro Estudantil da Química da USP de Ribeirão Preto se torna uma das principais vozes desse descontentamento. Em nota divulgada em 6 de março, o grupo defende organização coletiva diante da volta do docente. “É fundamental que a comunidade estudantil se organize e discuta coletivamente quais serão os próximos passos frente a essa situação”, afirma o texto. A mensagem circula em redes sociais e em listas de e-mails acadêmicas, ampliando a pressão sobre a direção da unidade.
A decisão publicada em 23 de março vem carregada desse contexto de mobilização. A demissão é lida, entre estudantes e parte do corpo docente, como um recado sobre os limites da tolerância institucional ao assédio em ambiente universitário. Também é vista como um teste para os mecanismos de denúncia e proteção a vítimas, que há anos são alvo de críticas por demora, burocracia e falta de transparência.
Casos de assédio envolvendo professores da USP não são inéditos e ajudam a explicar a repercussão atual. Episódios anteriores, como a demissão de um docente da Faculdade de Direito após denúncias semelhantes, alimentam uma percepção de que a universidade enfrenta uma correção de rota tardia, mas necessária. A figura do professor universitário, historicamente associada a prestígio e autoridade quase incontestável, passa a ser objeto de escrutínio mais intenso por parte de estudantes e da opinião pública.
A reação não se limita ao campus de Ribeirão Preto. Grupos feministas, coletivos de mulheres e entidades estudantis de outras unidades da USP repercutem o caso e cobram políticas mais claras de combate ao assédio. Em um ambiente em que a relação de poder entre professor e aluno é estrutural, a existência de canais seguros de denúncia, acolhimento psicológico e proteção acadêmica se torna condição básica para que estudantes se sintam encorajadas a relatar abusos.
Demissão pressiona universidades a rever políticas de assédio
A saída de Rosolen do quadro de docentes da USP funciona como termômetro para outras instituições de ensino superior, públicas e privadas. A decisão, tomada após um ano de investigação formal, indica que denúncias de assédio sexual e moral feitas por estudantes podem resultar em punições máximas, mesmo em carreiras consolidadas. Ao mesmo tempo, o prazo de 30 dias para recurso sinaliza que a disputa ainda não está encerrada nos bastidores administrativos e jurídicos.
O impacto imediato recai sobre as 16 alunas que denunciaram o professor e sobre as demais estudantes que convivem com o medo de retaliações. Para elas, a demissão representa um reconhecimento institucional de que seus relatos têm peso e consequência. A medida também ressoa entre pesquisadores e bolsistas, que dependem de orientadores para acessar laboratórios, bolsas e publicações, áreas em que o assédio muitas vezes se mistura com a dependência acadêmica.
A USP, maior universidade pública do País, se vê pressionada a transformar esse caso em políticas mais robustas. Especialistas em educação e gênero defendem protocolos claros, prazos definidos para apuração, equipes treinadas para acolher vítimas e transparência sobre decisões. A experiência recente mostra que investigações longas, como a que começa em setembro de 2024 e só termina formalmente em março de 2026, podem desestimular novas denúncias.
O efeito simbólico do desligamento também alcança a sociedade fora dos muros do campus. Em um país em que a violência contra a mulher e o assédio em ambientes de trabalho seguem presentes em estatísticas oficiais, a forma como universidades tratam esses casos contribui para moldar padrões. Não se trata apenas de punir um professor, mas de afirmar quais condutas são inaceitáveis em espaços que formam profissionais, pesquisadores e lideranças.
Organizações de apoio a mulheres lembram que o canal de denúncia deve ir além das estruturas internas de cada instituição. O Ligue 180, serviço nacional de atendimento à mulher, segue como referência para casos de violência física, psicológica, sexual e moral. O estímulo à denúncia e ao acolhimento é visto como peça central para romper ciclos de silêncio que, por anos, permearam relatos de assédio em salas de aula, laboratórios e gabinetes.
Recurso, vigilância e um debate que não termina
Com a publicação da decisão no Diário Oficial, o processo entra em uma nova fase. Rosolen tem 30 dias corridos para recorrer e tentar reverter a demissão dentro das instâncias administrativas da USP. O desfecho desse recurso, caso seja apresentado, deve manter o caso em evidência e atrair novos questionamentos sobre prazos, transparência e eventuais ações judiciais futuras.
A comunidade universitária, por sua vez, cobra que a demissão não encerre a discussão. Estudantes pedem acompanhamento psicossocial às vítimas, revisão de protocolos de atendimento e campanhas permanentes de informação sobre assédio e canais de denúncia. Docentes favoráveis a mudanças estruturais defendem formação continuada sobre ética e relações de poder na universidade, incluindo critérios mais rígidos para avaliar conduta de orientadores e chefias.
A USP se vê diante do desafio de conciliar garantias de defesa a acusados com proteção efetiva às vítimas, sem reproduzir a lentidão que historicamente marca casos de violência de gênero. A forma como a instituição responde agora tende a influenciar decisões em outras universidades brasileiras, em conselhos de pesquisa e em agências de fomento.
O caso de José Mauricio Rosolen deixa uma pergunta incômoda para a academia: em um ambiente que se pretende livre para o pensamento crítico, quem vigia o uso do poder dentro da sala de aula e dos laboratórios? A resposta não virá apenas das punições individuais, mas da capacidade de transformar indignação em políticas permanentes de prevenção, escuta e responsabilização.
