União de Maricá vence Série Ouro e sobe; Niterói cai com enredo pró-Lula
A União de Maricá conquista nesta quinta (19) o título da Série Ouro do carnaval carioca de 2026 e garante vaga no Grupo Especial em 2027. A vitória contrasta com o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói, que homenageia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e termina na lanterna da elite do samba.
Vitória no acesso e queda na elite expõem contraste político
O resultado da apuração reorganiza o mapa político e simbólico do carnaval fluminense. Enquanto a escola ligada ao prefeito de Maricá, Washington Quaquá (PT), sobe à principal vitrine do samba carioca, a Acadêmicos de Niterói deixa o Grupo Especial após terminar na última colocação. Em uma mesma tarde de notas, o aliado local de Lula vê sua agremiação ascender, e a escola que coloca o presidente no centro do enredo amarga o rebaixamento.
A União de Maricá conquista o título da Série Ouro com um desempenho considerado consistente em quesitos decisivos como evolução, enredo e harmonia. O troféu garante à escola o direito de desfilar na Sapucaí entre as principais agremiações em 2027, justamente em um ciclo em que a disputa por patrocínios, verbas públicas e visibilidade nas transmissões de TV tende a se intensificar. A Acadêmicos de Niterói, por sua vez, paga caro por falhas técnicas e perde a vaga que ocupa na elite desde que chega ao Grupo Especial.
O enredo sobre Lula projeta a escola de Niterói para o centro do debate público, mas não se converte em pontos na apuração. Jurados punem problemas de conjunto e penalidades cronométricas, e a agremiação termina com a pior soma de notas. A queda confirma a regra rígida do carnaval carioca, em que o peso de cada décimo pode definir a sobrevivência de um projeto artístico e financeiro construído ao longo de anos.
Quaquá celebra, fala em encontro com Lula e mira 2027
Ligado à União de Maricá, Washington Quaquá acompanha a apuração com atenção redobrada. Ex-prefeito e figura influente do PT fluminense, ele transforma a vitória em ativo político imediato. Horas após a confirmação do título, afirma à reportagem que quer levar a escola ao Planalto. “Vou me encontrar com o presidente para abençoar a agremiação”, diz, em referência a Lula.
A frase reforça o cruzamento entre samba e política na região metropolitana do Rio. Maricá vem ampliando investimentos culturais e turísticos e usa o carnaval como vitrine de um modelo de gestão associado ao PT. Com o acesso da União de Maricá, a cidade passa a disputar espaço direto com tradicionais potências da capital na avenida e fora dela, em contratos de patrocínio e projeção de marca. O salto de patamar muda a escala de recursos necessários: orçamentos que giram em alguns milhões de reais por desfile tornam-se regra quando a escola entra no calendário oficial do Grupo Especial.
O contraste com a situação da Acadêmicos de Niterói alimenta leituras políticas e simbólicas. A homenagem a Lula, que leva para a avenida a trajetória do presidente e acena a movimentos de esquerda, não impede a escola de cair. O resultado sugere que o júri preserva critérios técnicos, mesmo quando o enredo se ancora em figuras centrais do poder federal. Ao mesmo tempo, expõe a disputa por capital político em torno do carnaval, em que cada prefeitura tenta associar sua imagem a projetos vitoriosos na avenida.
Nos bastidores, dirigentes de escolas rivais observam com atenção o movimento de Quaquá. O encontro prometido com Lula pode significar não apenas um gesto simbólico, mas também a abertura de portas para patrocínios de estatais, emendas parlamentares e alianças regionais de olho em 2026 e 2028. A União de Maricá entra no circuito de negociações em um momento em que o carnaval carioca volta a ser palco privilegiado de disputas narrativas entre governo federal, estados e municípios.
Carnaval como palco de disputa e os próximos desfiles
A subida da União de Maricá e o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói reacendem o debate sobre o lugar do carnaval na política brasileira. Nos últimos anos, escolas usam a Sapucaí para abordar temas como violência policial, racismo estrutural, intolerância religiosa e embates institucionais. Em 2026, a presença de Lula em um enredo e a vitória de uma escola ligada a um dirigente petista reforçam essa interseção entre avenida e palanque, mas evidenciam também que, no placar, contam sobretudo as notas dos jurados.
Na prática, a União de Maricá ganha visibilidade nacional, espaço garantido na transmissão de TV aberta em 2027 e maior capacidade de atrair turistas para a cidade, que fica a cerca de 60 quilômetros da capital. A prefeitura tende a usar a conquista como argumento para ampliar investimentos em infraestrutura, eventos pré-carnavalescos e ações de economia criativa. A Acadêmicos de Niterói, rebaixada, perde exposição imediata, vê minguar receitas de bilheteria, camarotes e patrocínios e precisa reorganizar o caixa para disputar o acesso em 2027.
A diferença de um grupo para outro não é apenas de status. A Série Ouro opera com menor aporte de recursos públicos e privados, menos tempo de TV e menos capacidade de retorno comercial. O caminho de volta ao Grupo Especial costuma levar ao menos dois anos e exige gestão rígida de dívidas, manutenção de quadros artísticos e fidelização da comunidade, que sente o impacto emocional e financeiro do descenso. Em Niterói, a discussão sobre o apoio do poder público à escola deve se intensificar nas próximas semanas.
Os próximos meses serão decisivos para medir até que ponto a benção política que Quaquá busca em Brasília se traduz em vantagem concreta na avenida. A direção da União de Maricá terá de transformar capital simbólico em planejamento, patrocínio e acerto artístico, sob escrutínio ampliado da imprensa e de torcidas rivais. A Acadêmicos de Niterói, por sua vez, precisa decidir se insiste na rota de enredos de forte teor político ou se recalibra o discurso para tentar um retorno rápido ao topo. Em um carnaval cada vez mais disputado, a apuração de 2026 deixa aberta a pergunta sobre qual projeto cultural conseguirá sobreviver ao peso dos enredos e à frieza das notas.
