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UE barra tentativa de Trump de anexar Groenlândia e redefine o Ártico

A União Europeia reage de forma coordenada e impede, em janeiro de 2026, a iniciativa do governo Donald Trump de anexar a Groenlândia. A resposta une diplomacia agressiva, sinalização militar e pressão econômica sobre Washington.

Europa se move rápido para conter avanço dos EUA

A ofensiva europeia começa discretamente na primeira semana de janeiro de 2026, depois que circulam em Bruxelas documentos internos do governo dos Estados Unidos falando em “integração plena” da Groenlândia ao território norte-americano até 2030. O plano retoma a ambição já esboçada em 2019, quando Trump cogita publicamente “comprar” a ilha, mas agora vem acompanhado de prazos, metas de investimento em infraestrutura militar e projeções de receitas bilionárias com mineração e novas rotas marítimas.

Diplomatas em Bruxelas descrevem um clima de urgência nas capitais europeias. Em menos de dez dias, os 27 países da União Europeia fecham um comunicado conjunto, algo raro em temas de alta sensibilidade militar. O texto, divulgado em 15 de janeiro, afirma que qualquer mudança no status da Groenlândia “só pode ocorrer com base no direito internacional e na vontade expressa de sua população”, e alerta que tentativas unilaterais terão “consequências políticas e econômicas imediatas”.

Paris, Berlim e Copenhague assumem a linha de frente. A Dinamarca, que mantém laços históricos e constitucionais com a Groenlândia, rejeita qualquer negociação de cessão territorial. A França coloca sobre a mesa a possibilidade de sanções coordenadas contra empresas norte-americanas ligadas ao setor de defesa se a Casa Branca avançar no plano. A Alemanha articula comissionamentos emergenciais de navios e aeronaves para operações de monitoramento no Atlântico Norte.

O esforço diplomático corre em paralelo a uma intensa maratona de telefonemas. Integrantes da Comissão Europeia falam em mais de 40 conversas bilaterais com autoridades dos EUA em apenas duas semanas, envolvendo secretários de Estado, conselheiros de segurança e líderes do Congresso. Um negociador europeu resume o tom das conversas: “Não é um gesto simbólico. Estamos prontos para agir em escala de dezenas de bilhões de euros se for preciso”.

Groenlândia vira teste de força no Ártico

A disputa pela Groenlândia expõe a corrida global pelo controle do Ártico. A região concentra cerca de 13% das reservas não descobertas de petróleo do mundo, segundo estimativas de 2018 da Agência de Energia dos EUA, e ganha importância com o derretimento do gelo e a abertura de novas rotas marítimas. Para a União Europeia, permitir que Washington transforme a ilha em território próprio significaria alterar o equilíbrio de poder em uma área central para a segurança do bloco.

Analistas ouvidos em Bruxelas apontam três pontos decisivos na reação europeia: unidade política, clareza de custos para os EUA e demonstração controlada de força militar. Em reunião extraordinária em 18 de janeiro, ministros da Defesa de sete países europeus, entre eles França, Alemanha, Itália e Holanda, aprovam exercícios navais conjuntos no Atlântico Norte e no entorno do mar da Noruega. O planejamento prevê, segundo fontes, a mobilização de ao menos 15 navios de guerra e 30 aeronaves em ciclos de treinamento até o fim de 2026.

Esses movimentos não chegam a violar fronteiras nem provocam incidentes diretos, mas deixam claro que o Ártico não está vazio. “A mensagem é simples: a Groenlândia não muda de mãos sob ameaça ou cheque em branco”, diz um alto funcionário europeu. Em paralelo, líderes do bloco sinalizam a possibilidade de restringir acesso de empresas norte-americanas a contratos públicos estimados em mais de € 200 bilhões por ano, caso a Casa Branca rompa com o direito internacional.

O governo Trump reage num primeiro momento com discursos duros e acusa a União Europeia de tentar “conter o legítimo interesse de segurança dos Estados Unidos”. Mas o tom começa a mudar quando aliados republicanos no Congresso calculam o impacto de uma guerra comercial aberta com o principal parceiro econômico de Washington, responsável por cerca de 15% das exportações norte-americanas. Na segunda metade de janeiro, interlocutores do Departamento de Estado indicam a Bruxelas que a ideia de anexação não avança mais na Casa Branca.

Para Copenhague, o recuo representa mais do que uma vitória simbólica. A Groenlândia, com pouco mais de 56 mil habitantes, depende de transferências anuais que somam cerca de 3,9 bilhões de coroas dinamarquesas, algo em torno de € 520 milhões. Uma mudança forçada de soberania colocaria em risco acordos de pesca, projetos de mineração e investimentos em pesquisa climática financiados por Dinamarca e União Europeia.

Bloco europeu ganha peso e redesenha a agenda de segurança

A operação para conter a anexação tem efeito imediato sobre a imagem da União Europeia como ator geopolítico. Nas últimas décadas, o bloco é frequentemente criticado por reagir de forma lenta e fragmentada a crises internacionais. O episódio da Groenlândia mostra uma engrenagem diferente: decisões em questão de dias, mensagens claras e uso combinado de diplomacia, comércio e defesa.

Especialistas veem na atuação um modelo para outras disputas territoriais. O equilíbrio entre diálogo e capacidade militar oferece uma alternativa ao impulso de recorrer direto a sanções pesadas ou à ameaça de guerra. “A União Europeia descobre que pode fazer dissuasão sem fogos de artifício”, afirma um pesquisador de relações internacionais em Bruxelas. Para ele, a decisão de evitar exercícios provocativos muito próximos da Groenlândia ajuda a manter canais abertos com Washington mesmo no auge da tensão.

Na prática, a desistência de Trump de anexar a Groenlândia desarma uma crise potencial na relação transatlântica. O risco de uma disputa direta entre Estados Unidos e principais potências europeias diminui, o que abre espaço para cooperação em temas sensíveis, como defesa aérea integrada, regulação de tecnologias estratégicas e proteção de cabos submarinos no Atlântico Norte. Diplomatas falam em um “novo contrato” tácito sobre o Ártico, baseado em consultas prévias e transparência sobre movimentações militares.

Os efeitos da crise também chegam à própria Groenlândia. Lideranças locais reforçam a defesa de maior autonomia política, mas deixam claro que não aceitam anexação por potências externas. A perspectiva de participação mais ativa em fóruns regionais, como o Conselho do Ártico, ganha força. Governos europeus discutem ampliar, já em 2026, investimentos em infraestrutura civil e projetos de energia limpa na ilha, numa tentativa de mostrar que há alternativas econômicas à tutela de Washington.

O episódio deixa uma pergunta central em aberto: a reação europeia marca um ponto fora da curva ou o início de uma postura mais firme e coordenada do bloco em disputas globais? A forma como a União Europeia atua em futuros impasses, do mar do Sul da China à segurança digital, vai indicar se a defesa da Groenlândia inaugura uma nova fase da política externa europeia ou apenas registra uma rara convergência diante de um alvo claro e próximo.

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