Esportes

Ucraniano é desclassificado em Milão-Cortina por capacete com mensagem política

O piloto ucraniano Vladyslav Heraskevych é desclassificado da Olimpíada de Inverno de Milão-Cortina nesta quinta-feira (12) por usar um capacete com imagens políticas. A punição reacende o debate sobre os limites da liberdade de expressão nos Jogos e pressiona o Comitê Olímpico Internacional (COI) a rever suas regras.

Capacete com mortos na guerra leva à punição imediata

Heraskevych entra na pista do skeleton com um capacete que exibe rostos de atletas ucranianos mortos desde a invasão russa, iniciada em fevereiro de 2022. A imagem corre o mundo em minutos e, antes mesmo do fim do dia de competições em Milão-Cortina, o ucraniano é comunicado da desclassificação com base na Regra 50.2 da Carta Olímpica.

A norma é clara ao proibir qualquer forma de “demonstração ou propaganda política, religiosa ou racial” em arenas, vilas e áreas olímpicas. Para o COI, o capacete transforma a descida de skeleton em um ato político, ainda que motivado por um luto real e por uma guerra em curso. A decisão atinge um atleta que já usou o cenário olímpico para lembrar o conflito em edições anteriores, mas nunca havia recebido punição tão drástica.

O caso se torna o principal assunto do dia no Parque Olímpico de Milão-Cortina. Delegações discutem em corredores, dirigentes pedem cautela e atletas se dividem entre a defesa da neutralidade esportiva e a compreensão do gesto do ucraniano. Heraskevych prefere agir nos bastidores e, poucas horas após o anúncio oficial, aciona o Tribunal Arbitral do Esporte (CAS) para tentar reaver o direito de competir.

Regra 50 volta ao centro do tabuleiro olímpico

A desclassificação coloca de volta sob holofotes um tema que o COI tenta administrar há anos: até onde vai a neutralidade olímpica em um mundo hiperpolitizado. A Regra 50.2 já foi contestada em Tóquio-2020 e Pequim-2022, quando gestos contra o racismo e em defesa de direitos civis desafiaram os limites do que era tolerado nas arenas.

As diretrizes atuais, revistas em 2021, permitem que atletas se manifestem em entrevistas coletivas, zonas mistas, reuniões de equipe e redes sociais. Também abrem espaço para que levantem cartazes ou usem símbolos de causas sociais fora do momento de competição e das cerimônias de medalhas. Dentro da pista, do campo ou do pódio, porém, a margem é quase nula.

Kirsty Coventry, presidente da comissão de atletas do COI e hoje uma das principais vozes da entidade, admite em coletiva que o episódio em Milão-Cortina pode reacender discussões internas. “Se nossos atletas quiserem que analisemos as regras, estamos abertos a tudo”, afirma. Ela defende, ao mesmo tempo, a manutenção do quadro atual. “As regras são as regras de hoje, e acredito que são boas regras. Elas protegem nossos atletas de serem usados. Os atletas acreditam que as diretrizes são relevantes no mundo atual”, diz.

Coventry lembra que qualquer eventual mudança depende de um grupo de trabalho encarregado de revisar “todos os princípios fundamentais do Olimpismo”. O processo costuma ser lento, envolve consultas a comitês nacionais e federações e, em geral, leva mais de um ciclo olímpico para ganhar forma. O caso ucraniano encurta esse prazo político e força o COI a reagir enquanto as competições ainda ocorrem.

Pressão cresce às vésperas de Los Angeles-2028

A punição a Heraskevych também projeta sombras sobre o próximo ciclo olímpico. Em dois anos, os Jogos de Los Angeles-2028 colocam o movimento olímpico no centro de um dos ambientes políticos mais polarizados do planeta. Com eleições presidenciais recentes nos Estados Unidos, campanhas permanentes em redes sociais e movimentos identitários ativos, dirigentes do COI admitem reservadamente que a Regra 50 tende a ser testada ao limite.

O avanço das redes, que ampliam em segundos qualquer gesto dentro de um estádio, aumenta o custo simbólico de punir manifestações políticas. A desclassificação do ucraniano, decidida em questão de horas em Milão-Cortina, passa a ser vista como um caso-modelo. Se o CAS acolhe o recurso e determina a reintegração, abre-se espaço para flexibilizações futuras. Se mantém a punição, o tribunal reforça a leitura de que a neutralidade do COI prevalece sobre a expressão individual de atletas, mesmo em contextos de guerra.

Na prática, o episódio envia um recado imediato às delegações: qualquer manifestação durante provas ou cerimônias pode custar medalhas, resultados esportivos e patrocínios. Federações começam a revisar códigos internos, e comitês nacionais orientam seus atletas com manuais mais detalhados, citando nominalmente a Regra 50.2 e o caso Heraskevych como exemplo do que não fazer.

O próprio COI insiste em um argumento central: arenas e pódios devem permanecer “livres de distrações”. A defesa é de que, sem uma barreira rígida, cada prova pode virar palco de campanhas, slogans e disputas ideológicas importadas de fora do esporte. Críticos apontam o contrário e enxergam na neutralidade uma forma de silenciar causas urgentes, sobretudo as ligadas a guerras, racismo e direitos humanos.

Recurso no CAS e futuro da liberdade de expressão olímpica

O recurso de Heraskevych no CAS passa a ser acompanhado como um teste jurídico para o futuro das manifestações políticas no esporte de alto rendimento. O tribunal tem histórico de decisões conservadoras em temas disciplinares, mas também já abriu exceções em casos de doping e elegibilidade de atletas, ao avaliar o contexto social e humanitário.

O processo pode se estender por semanas, ultrapassar o fim de Milão-Cortina e chegar a fóruns internos do COI como munição para quem defende mudanças graduais. Qualquer ajuste, ainda que pequeno, tende a ser observado com lupa por patrocinadores globais, federações influentes e movimentos de atletas, que ganham voz por meio de comissões nacionais e grupos independentes.

Heraskevych, que transforma o capacete em memorial improvisado para colegas mortos, acaba no centro de uma disputa que vai além de sua desclassificação. Sua imagem, congelada na largada com o equipamento proibido, passa a ilustrar relatórios, debates acadêmicos e campanhas de ambos os lados da discussão.

O COI tenta, mais uma vez, equilibrar um ideal formulado há mais de um século com um cenário de conflitos reais, guerras transmitidas ao vivo e redes que não esquecem nenhum gesto. A resposta que emergir do caso ucraniano, do CAS e das discussões rumo a Los Angeles-2028 indica até onde o movimento olímpico está disposto a ir para manter a promessa de neutralidade em um mundo cada vez menos neutro.

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