Ciencia e Tecnologia

Ubisoft cancela remake de Prince of Persia e fecha estúdios

A Ubisoft anuncia em janeiro de 2026 uma reestruturação global que cancela seis jogos, incluindo o aguardado remake de Prince of Persia: Sands of Time, adia outros sete títulos e fecha estúdios em diferentes países.

Mercado mais duro força virada de rumo

A decisão marca uma das mudanças mais profundas já realizadas pela publisher francesa em sua história recente. A empresa conclui em dezembro e janeiro uma revisão completa do portfólio e admite que o mercado de jogos, hoje mais competitivo e seletivo, não comporta mais a mesma quantidade de apostas de médio porte.

O corte atinge projetos em desenvolvimento há anos e mexe com a base de fãs de franquias clássicas. O remake de Sands of Time, anunciado em 2020 e reiniciado ao menos uma vez, deixa oficialmente de existir. Outros cinco jogos também são cancelados, entre eles três novas propriedades intelectuais e um título para celulares, que nunca chegam a ser revelados ao público.

Em paralelo, sete jogos têm lançamento empurrado para frente. A Ubisoft não lista todos os nomes, mas confirma que um título ainda não anunciado, antes previsto para chegar até 31 de março de 2026, agora fica para o próximo ano fiscal, que termina em 31 de março de 2027. No mercado, a principal aposta recai sobre o remake de Assassin’s Creed: Black Flag, alvo de rumores nos últimos meses.

O impacto não é só criativo. A companhia revisa suas projeções financeiras e abandona a meta anterior para o ano fiscal. A nova expectativa é de reservas líquidas em torno de € 1,5 bilhão (cerca de US$ 1,75 bilhão), uma queda de € 330 milhões em relação ao plano anterior. O recuo traduz, em números, o custo imediato de adiar lançamentos e encerrar projetos que já consumiam orçamento relevante.

A reestruturação também acelera uma reorganização iniciada nos bastidores no ano passado. O grupo passa a dividir seu desenvolvimento global em cinco “Casas Criativas”, estruturas que funcionam como unidades de negócios autônomas, cada uma responsável por um conjunto de franquias e gêneros específicos.

Fechamentos, demissões e foco em jogos de mundo aberto

O ajuste ganha contornos mais duros no mapa dos estúdios. A Ubisoft Estocolmo fecha as portas por completo, mesmo após ter colaborado em Avatar: Frontiers of Pandora. A decisão também atinge o estúdio mobile Ubisoft Halifax, que dividia tarefas com a equipe sueca, embora a empresa não detalhe todos os cortes.

Outras unidades passam por “reestruturações”, eufemismo habitual para novas demissões. Os estúdios em Abu Dhabi, a finlandesa RedLynx, responsável por Trials, e a Massive Entertainment, base de The Division e de Star Wars Outlaws, reportam desligamentos adicionais. Em meses anteriores, só a Massive já havia confirmado mais de 50 cortes.

A empresa também muda o dia a dia de quem fica. Todas as equipes voltam ao trabalho presencial cinco dias por semana, com direito apenas a uma cota anual limitada de trabalho remoto. O recuo em relação ao modelo híbrido responde, segundo executivos, à busca por mais controle e velocidade sobre projetos caros e globais.

O diretor financeiro, Frederick Duguet, resume o diagnóstico ao site IGN. “Realizamos uma análise minuciosa dos projetos ao longo de dezembro e janeiro, levando em consideração a evolução atual do mercado, que está cada vez mais seletivo”, afirma. Segundo ele, o último trimestre expõe um nível de competição “sem precedentes”. “A competição veio para ficar”, conclui.

O novo desenho interno reforça a escolha por mundos abertos e jogos com serviços contínuos, que mantêm o jogador engajado por anos. A Vantage Studios, primeira casa criativa, assume o comando das três maiores marcas da empresa: Assassin’s Creed, Far Cry e Rainbow Six. A segunda casa concentra os jogos de tiro, como The Division, Ghost Recon e Splinter Cell.

As demais estruturas seguem a mesma lógica. A Creative House 3 concentra experiências totalmente online, como For Honor, The Crew, Riders Republic, Brawlhalla e Skull & Bones. A Creative House 4 reúne séries de fantasia e foco narrativo, entre elas Anno, Might & Magic, Rayman, Prince of Persia e Beyond Good & Evil, cujo segundo jogo, apesar de anos de silêncio, segue em desenvolvimento. A quinta casa cuida dos jogos casuais e familiares, como Just Dance, Uno, franquias da Hasbro, Idle Miner Tycoon, Ketchapp, Hungry Shark e Invincible: Guarding the Globe.

Impacto para jogadores, funcionários e para o setor

Para quem joga, o efeito mais imediato é a espera. Remakes aguardados saem de cena, lançamentos escorregam no calendário e menos apostas chegam às prateleiras físicas e digitais. A Ubisoft aposta que concentrar recursos em um número menor de projetos pode resultar em mundos abertos maiores, campanhas mais longas e suporte online mais consistente, mas isso também significa menos variedade no curto prazo.

Para quem trabalha, a notícia vem na forma de incerteza. O fechamento de um estúdio inteiro na Suécia, as reestruturações no Oriente Médio e na Europa e os cortes recentes na Massive reforçam a onda de demissões que atravessa a indústria desde 2023. Em um setor acostumado a ciclos de expansão e enxugamento, o recado agora é que mesmo gigantes com franquias consolidadas precisam apertar o cinto.

No balanço do mercado, a guinada da Ubisoft sinaliza um alinhamento com a estratégia de outras grandes produtoras, que priorizam marcas já conhecidas e jogos que funcionam como serviços contínuos. O risco é reduzir o espaço para novas ideias, justamente em um momento em que o público demonstra cansaço com fórmulas repetidas.

A companhia ainda enfrenta pressões em outras frentes. Em paralelo à reestruturação, um ex-chefe da série Assassin’s Creed move na Justiça canadense um processo de 1,3 milhão de dólares contra a Ubisoft, alegando “demissão disfarçada” para evitar o pagamento de indenização. O caso adiciona uma camada extra de desgaste à imagem da empresa entre profissionais do setor.

O que vem pela frente na Ubisoft

A curto prazo, o objetivo da Ubisoft é estabilizar a operação e provar que o novo modelo de cinco casas criativas produz jogos com lançamentos mais previsíveis e resultados financeiros mais sólidos. A aposta em mundos abertos e serviços online indica que as próximas grandes apostas da companhia devem disputar espaço com títulos como Grand Theft Auto, Call of Duty e Fortnite, que já dominam o tempo e o bolso dos jogadores.

O mercado observa se o corte de projetos e o foco renovado em franquias de peso serão suficientes para recuperar a confiança de investidores e fãs. A reestruturação prepara o terreno para o ciclo até 2027, mas deixa uma pergunta em aberto: em um cenário de competição “sem precedentes”, quantos estúdios ainda terão fôlego para arriscar algo realmente novo?

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