Ciencia e Tecnologia

Ubisoft cancela remake de Prince of Persia e fecha estúdio de Estocolmo

A Ubisoft anuncia nesta quarta-feira (21) uma reestruturação profunda que cancela seis jogos em desenvolvimento, incluindo o remake de Prince of Persia: Sands of Time, adia outros sete títulos, fecha dois estúdios e corta postos de trabalho em equipes na Europa, Oriente Médio e Canadá.

Reviravolta em projetos e calendário de lançamentos

A decisão atinge o coração do plano criativo da companhia francesa e muda o mapa de lançamentos pelos próximos anos. A medida mais simbólica é o cancelamento definitivo do remake de Sands of Time, que já havia sido reiniciado uma vez e se torna o caso mais visível de um corte que atinge ainda três novas propriedades intelectuais e um jogo para celular mantidos em segredo.

Sete outros títulos saem do radar imediato. A Ubisoft não revela nomes, mas admite que o grupo inclui ao menos um projeto não anunciado que deveria chegar ao mercado até 31 de março de 2026. Internamente, o jogo é associado ao remake de Assassin’s Creed: Black Flag, agora previsto apenas para o próximo ano fiscal, que termina em 31 de março de 2027.

A empresa justifica os cortes com uma leitura dura do momento da indústria. “Realizamos uma análise minuciosa dos projetos ao longo de dezembro e janeiro, levando em consideração a evolução atual do mercado, que está cada vez mais seletivo”, diz o diretor financeiro Frederick Duguet, em entrevista ao site IGN. Segundo ele, “o último trimestre mostrou um nível de competição sem precedentes. A competição veio para ficar”.

O ajuste vem acompanhado de uma revisão das contas. A Ubisoft abandona a previsão anterior para o ano fiscal e passa a esperar reservas líquidas de cerca de € 1,5 bilhão (cerca de US$ 1,75 bilhão), uma queda de € 330 milhões em relação ao número anterior. O corte sinaliza ao mercado que o impacto dos adiamentos e cancelamentos é imediato no caixa.

Fechamento de estúdios, demissões e retorno ao presencial

Do lado interno, a reestruturação ganha forma em endereços concretos. O estúdio de Estocolmo, que colaborou com Avatar: Frontiers of Pandora ao lado da equipe mobile de Halifax, encerra as atividades. Outro estúdio, ainda não detalhado publicamente, também fecha as portas. Em Abu Dhabi, no finlandês RedLynx, responsável por Trials, e na Massive Entertainment, base de The Division e do recém-lançado Star Wars Outlaws, a companhia promove novas demissões.

A Ubisoft não divulga o total de funcionários afetados, mas admite que a onda de cortes passa por dezenas de profissionais nesses grupos, no topo de um cenário de enxugamento iniciado em 2023. Na Massive, mais de 50 pessoas já haviam sido dispensadas em uma rodada anterior, e o novo ajuste aprofunda o clima de incerteza entre equipes que, até pouco tempo atrás, lideravam alguns dos projetos mais ambiciosos da casa.

As mudanças não se limitam ao quadro de projetos. O modelo de trabalho híbrido adotado na pandemia perde espaço. A companhia determina o retorno ao regime totalmente presencial em cinco dias por semana, com apenas um dia remoto autorizado ao ano. A decisão contraria a tendência de flexibilização observada em parte da indústria de tecnologia e jogos e deve mexer com a rotina de milhares de funcionários distribuídos em estúdios na Europa, Américas, Ásia e Oriente Médio.

O anúncio ocorre em meio a outras tensões trabalhistas. O ex-chefe da franquia Assassin’s Creed processa a empresa em 1,3 milhão de dólares canadenses, alegando que sofreu uma “demissão disfarçada” para evitar o pagamento de indenizações. O caso, ainda em curso na Justiça, reforça a percepção de desgaste nas relações entre a alta gestão e parte das lideranças criativas.

Para jogadores, o efeito mais imediato é a frustração com o desaparecimento de um dos remakes mais aguardados da década. Prince of Persia: Sands of Time, clássico de 2003, alimenta expectativas desde o primeiro anúncio, em 2020. Desde então, passa por mudanças de estúdio, críticas ao visual inicial e silêncio prolongado. O cancelamento encerra um ciclo de quatro anos de idas e vindas sem entrega.

Cinco “Casas Criativas” e aposta em mundos abertos

A reorganização muda também a forma como a Ubisoft estrutura sua produção global. O grupo formaliza a divisão em cinco “Casas Criativas”, unidades que operam como negócios independentes, com maior autonomia sobre orçamento, cronograma e identidade de cada franquia. A Vantage Studios, primeira dessas casas, concentra agora as três maiores marcas da empresa: Assassin’s Creed, Far Cry e Rainbow Six.

A segunda casa fica responsável pelos jogos de tiro, agrupando The Division, Ghost Recon e Splinter Cell. A terceira foca experiências online de longo prazo, como For Honor, The Crew, Riders Republic, Brawlhalla e Skull & Bones, todas pensadas como serviços mantidos por anos, com temporadas, eventos e conteúdo adicional constante.

A quarta casa abriga as séries de narrativa e fantasia, incluindo Anno, Might & Magic, Rayman, Prince of Persia e Beyond Good & Evil. A menção explícita a Beyond Good & Evil 2 indica que o projeto, cercado de boatos de cancelamento há mais de uma década, continua oficialmente em desenvolvimento. A quinta e última casa orienta os jogos casuais e familiares, como Just Dance, Uno, as parcerias com a Hasbro, Idle Miner Tycoon, Ketchapp, Hungry Shark e Invincible: Guarding the Globe.

A nova arquitetura reforça o foco em mundos abertos e serviços online, estratégia que a Ubisoft vem perseguindo desde o sucesso de Assassin’s Creed Origins, em 2017, e da consolidação de Rainbow Six Siege como jogo de serviço. A empresa aposta que a concentração de talentos por tipo de experiência pode reduzir riscos, acelerar decisões e evitar apostas em projetos de médio porte que não competem com blockbusters nem se sustentam como jogos de nicho.

Para investidores, o recado é claro: menos apostas amplas, mais foco em franquias conhecidas, mundos expansivos e modelos de assinatura ou monetização contínua. Para desenvolvedores, o resultado é uma pressão maior por engajamento de longo prazo, o que reduz espaço para experiências menores, experimentais ou desconectadas de marcas consolidadas.

Indústria em ajuste e incerteza para jogadores

A movimentação da Ubisoft ecoa um ciclo mais amplo de cortes na indústria de jogos desde 2023, com demissões em grandes editoras e estúdios independentes. O reposicionamento do grupo francês ajuda a reposicionar o tabuleiro em um momento em que a combinação de custos elevados, dólar forte e saturação de lançamentos pressiona margens de lucro.

No curto prazo, fãs convivem com adiamentos, cancelamentos e menos diversidade na vitrine dos grandes lançamentos. No médio prazo, a dúvida recai sobre a capacidade da Ubisoft de manter a identidade de séries clássicas enquanto dobra a aposta em fórmulas de mundo aberto e serviços. A resposta só aparece na prática, nos próximos jogos a saírem dessas cinco novas casas criativas.

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