Ubisoft cancela Prince of Persia, fecha estúdios e corta projetos
A Ubisoft anuncia em janeiro de 2026 uma das maiores reestruturações de sua história, cancela seis jogos, entre eles o remake de Prince of Persia: Sands of Time, fecha dois estúdios e promove novas demissões em diferentes países. A gigante francesa redesenha sua estratégia para sobreviver a um mercado de games mais competitivo, mesmo ao custo de frustração entre fãs e insegurança entre funcionários.
Mercado mais duro pressiona gigante dos games
A decisão marca um novo capítulo para uma empresa que construiu marcas globais como Assassin’s Creed, Far Cry e Rainbow Six. O anúncio atinge diretamente estúdios em Estocolmo, Abu Dhabi e outras unidades, e reposiciona a Ubisoft num momento em que o setor de games vive forte seleção natural, após anos de expansão acelerada.
O corte mais simbólico é o do remake de Prince of Persia: Sands of Time, projeto aguardado há anos e já reiniciado uma vez. A Ubisoft confirma que o jogo está entre os seis títulos cancelados, ao lado de três novas propriedades intelectuais, um game mobile e outro projeto não detalhado. Sete jogos adicionais sofrem adiamento, incluindo um título ainda não anunciado que deveria chegar até 31 de março de 2026 e agora fica para o próximo ano fiscal, até 31 de março de 2027. Nos bastidores, esse jogo é associado ao remake de Assassin’s Creed: Black Flag.
O impacto financeiro aparece nas projeções oficiais. A empresa descarta a previsão anterior para o ano fiscal completo e passa a estimar reservas líquidas em torno de € 1,5 bilhão (cerca de US$ 1,75 bilhão), uma redução de € 330 milhões (US$ 386 milhões). O recuo expõe a pressão sobre o caixa e ajuda a explicar a mudança de rota.
“Realizamos uma análise minuciosa dos projetos ao longo de dezembro e janeiro, levando em consideração a evolução atual do mercado, que está cada vez mais seletivo”, afirma o diretor financeiro Frederick Duguet, em entrevista ao site IGN. “O último trimestre mostrou um nível de competição sem precedentes. A competição veio para ficar.”
Fechamento de estúdios, demissões e nova arquitetura criativa
O plano de reestruturação não se limita ao catálogo. A Ubisoft confirma o fechamento completo do estúdio de Estocolmo, que havia colaborado com Avatar: Frontiers of Pandora em parceria com o time mobile de Halifax. A empresa também anuncia novas rodadas de demissões em diferentes unidades, entre elas a Massive Entertainment, responsável por The Division e por Star Wars Outlaws, a RedLynx, conhecida por Trials, e a Ubisoft Abu Dhabi.
Mais de 50 funcionários já deixam a Massive em um corte recente, que se soma a desligamentos anteriores em outras frentes do grupo. A reorganização ainda muda a rotina dos times que permanecem na casa: todas as equipes precisam voltar ao trabalho presencial cinco dias por semana, com direito apenas a um banco limitado de dias remotos ao longo do ano. A medida contrasta com a tendência de modelos híbridos no setor e tende a afetar tanto a atração quanto a retenção de talentos.
Ao mesmo tempo, a Ubisoft redesenha sua estrutura de criação. O desenvolvimento global passa a se organizar em cinco “Casas Criativas”, unidades de negócios independentes responsáveis por famílias de franquias e serviços online. A Vantage Studios, já apresentada antes, concentra as três maiores marcas da empresa: Assassin’s Creed, Far Cry e Rainbow Six.
A segunda casa criativa foca jogos de tiro e passa a cuidar de The Division, Ghost Recon e Splinter Cell. A terceira responde por experiências online contínuas, como For Honor, The Crew, Riders Republic, Brawlhalla e Skull & Bones. A quarta organiza séries de narrativa e fantasia, incluindo Anno, Might & Magic, Rayman, Prince of Persia e Beyond Good & Evil, cuja sequência, pelo menos no papel, segue em desenvolvimento. A quinta casa concentra jogos casuais e familiares, como Just Dance, Uno, Hasbro, Idle Miner Tycoon, Ketchapp, Hungry Shark e Invincible: Guarding the Globe.
Em comunicado ao IGN, a empresa afirma que a forte redução nas perspectivas de receita reflete “mudanças no cronograma de lançamentos” e a decisão de adiar negociações sobre determinadas parcerias, em linha com o novo modelo operacional. A leitura interna é que o grupo precisa ser mais seletivo, investir em menos projetos e dar prioridade a jogos de mundo aberto e serviços online, considerados mais sustentáveis no longo prazo.
Fãs frustrados, mercado em alerta e futuro em jogos de serviço
A aposta em menos títulos e em franquias maiores reduz a oferta de novos jogos da Ubisoft no curto prazo. Jogadores que esperavam revisitar Sands of Time em versão atualizada, por exemplo, perdem a principal novidade ligada a Prince of Persia no horizonte imediato. O cancelamento também alimenta dúvidas sobre a capacidade da empresa de conduzir remakes de clássicos sem se perder em reinícios e mudanças de direção.
Funcionários vivem outro tipo de incerteza. O fechamento de estúdios, combinado a novas demissões e à exigência de retorno integral ao escritório, reforça uma sensação de instabilidade interna. Um processo recente, em que um ex-chefe de Assassin’s Creed acusa a Ubisoft de “demissão disfarçada” e cobra 1,3 milhão de dólares canadenses em indenização, ajuda a ilustrar o atrito entre gestão e parte da força de trabalho num momento sensível.
Para investidores, o recado é duplo. A revisão das reservas líquidas, com queda de € 330 milhões na projeção, sinaliza perda de fôlego no curto prazo. Ao mesmo tempo, a concentração em mundos abertos, jogos de tiro e experiências online tenta reposicionar a Ubisoft no segmento mais lucrativo da indústria, hoje dominado por títulos que funcionam como serviços contínuos, com atualizações regulares e monetização prolongada.
O desfecho desse movimento ainda é incerto. O redesenho em cinco casas criativas pode trazer foco para franquias dispersas e acelerar decisões, mas também aumenta a pressão por resultados em cada grupo. A próxima safra de lançamentos, que inclui apostas como Star Wars Outlaws e futuros capítulos de Assassin’s Creed, servirá de teste para saber se a Ubisoft consegue transformar cortes dolorosos em um novo ciclo de crescimento ou se esta reestruturação será lembrada apenas como o momento em que a empresa sacrificou projetos queridos sem entregar, na mesma medida, um futuro mais sólido.
