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Ubá registra 1ª morte por leptospirose em 2026 e acende alerta em MG

Ubá confirma nesta terça-feira (10/3) a primeira morte por leptospirose em 2026, uma mulher de 33 anos. O caso ocorre após fortes enchentes que ainda deixam marcas na cidade da Zona da Mata e amplia o temor de novas infecções em Minas Gerais.

Cidade ainda limpa a lama enquanto casos avançam

As águas baixam, mas a lama fica. Ruas inteiras de Ubá, alagadas no fim de fevereiro pelo transbordamento do rio que corta o município, seguem cobertas por barro seco, entulho e móveis empilhados nas calçadas. Nesse cenário, a suspeita de leptospirose vira mais uma ameaça para quem tenta reconstruir a rotina.

O exame que confirma a morte da jovem, um RT-qPCR, detecta a presença da bactéria Leptospira, eliminada pela urina de ratos e responsável pela doença. A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) lamenta a morte e informa que acompanha a situação da cidade, que ainda contabiliza prejuízos materiais e humanos após os temporais.

A prefeitura de Ubá registra 41 casos suspeitos de leptospirose em investigação. As amostras seguem para análise na Fundação Ezequiel Dias (Funed), em Belo Horizonte. Enquanto os resultados não saem, equipes de saúde reforçam orientações em bairros mais atingidos, onde o contato com lama e água contaminadas é quase inevitável para quem precisa limpar casas, comércios e ruas.

O risco não se restringe ao município. No período chuvoso 2025/2026, ainda em andamento, Minas Gerais soma 55 casos confirmados de leptospirose e sete mortes. Os números se aproximam do patamar de anos anteriores e acendem o alerta em outras regiões, inclusive na capital.

Minas repete alerta de anos de enchente e doença

A leptospirose volta ao centro do debate sempre que a chuva transforma ruas em rios. Em 2022, o estado registra 167 casos e 15 mortes. Em 2023, são 204 diagnósticos, 14 deles fatais. Em 2024, o cenário continua preocupante: 100 casos confirmados e sete óbitos.

Os dados mostram que, mesmo com campanhas e alertas recorrentes, a combinação de enchentes, saneamento precário e presença de roedores mantém a doença em circulação. Em 2024, Belo Horizonte registra nove casos confirmados e uma morte. No ano anterior, são 20 ocorrências e quatro óbitos na capital. Em 2026, até o fim de janeiro, três casos já aparecem nas estatísticas da cidade.

Para a infectologista Cláudia Murta, o risco aumenta sempre que a água invade casas e ruas e encontra lixo acumulado e esgoto a céu aberto. “Quando ocorrem enchentes, existe risco de ratos terem urinado nos resíduos que ficam nas casas e na lama acumulada. E a bactéria sobrevive ali, podendo causar infecção”, afirma.

A médica explica que a transmissão ocorre principalmente pelo contato com água, lama ou solo contaminados. A bactéria entra no organismo por pequenos ferimentos na pele ou pelas mucosas, como olhos, nariz e boca. Em situações de enchente, também há perigo quando a pessoa passa muito tempo com o corpo imerso em água suja, mesmo sem cortes visíveis.

Os sintomas iniciais confundem. Febre, dor de cabeça, falta de apetite, mal-estar e dores musculares, sobretudo nas panturrilhas, lembram quadros de gripe ou virose. “Na fase inicial, os sintomas são inespecíficos. A pessoa pode ter enjoo, vômitos, diarreia, dor nas articulações e tosse. Por isso, é essencial contar a história recente de contato com enchente ao médico”, orienta Cláudia.

Nos casos mais graves, a infecção atinge órgãos vitais. Pode ocorrer aumento do fígado, hemorragias, dificuldade respiratória, insuficiência renal e icterícia, quando olhos e pele ficam amarelados. Nessas situações, a internação é urgente e o uso de antibióticos precisa começar o quanto antes.

Rotina de risco e corrida por prevenção

Enquanto o barro ainda marca paredes e vitrines, moradores de Ubá tentam equilibrar a necessidade de limpar tudo com o medo de adoecer. As orientações de médicos e autoridades ganham caráter prático. O recado central é reduzir o contato direto com a lama, que pode concentrar a urina de ratos e a bactéria que causa a leptospirose.

A recomendação é usar botas e luvas de borracha sempre que possível. Na falta de equipamentos, o improviso vale mais que a exposição desprotegida: sacos plásticos duplos, amarrados nas mãos e nos pés, ajudam a criar uma barreira mínima. Depois da retirada do grosso da sujeira, a limpeza com água sanitária diluída é considerada essencial. A SES-MG orienta usar um copo do produto para cada 20 litros de água para desinfetar pisos, paredes e objetos.

A proteção de alimentos e água potável também entra na lista de urgências. Reservatórios precisam permanecer fechados. Panelas, talheres e utensílios que entram em contato com a lama não devem voltar à rotina sem higienização cuidadosa. O objetivo é interromper a cadeia de transmissão que começa na urina do rato, passa pela enchente e termina no prato ou na pele do morador.

O quadro atual reforça um desafio antigo das cidades brasileiras: a convivência entre períodos de chuva intensa, ocupação desordenada e infraestrutura frágil. Em Ubá, os temporais de fevereiro já matam sete pessoas e deixam ao menos um morador desaparecido, o profissional autônomo Luciano Franklin Fernandes. O impacto econômico também pesa. A Prefeitura calcula perda de R$ 4,9 milhões apenas em medicamentos danificados pelas inundações.

Entre os escombros e a contagem de casos, o sistema de saúde tenta reagir. A SES-MG afirma que mantém monitoramento diário da situação, com análise laboratorial, investigação epidemiológica e apoio técnico à cidade. A gestão municipal diz que intensifica ações de vigilância, limpeza urbana, remoção de entulhos e recuperação de áreas atingidas, na tentativa de conter novos focos de contaminação.

Pressão por resposta rápida e medo de novos picos

Com o período chuvoso ainda em curso, autoridades assumem que os números atuais podem crescer. A SES-MG orienta que qualquer pessoa com febre, dor no corpo, dor de cabeça, náuseas e mal-estar após contato com enchentes procure imediatamente uma unidade de saúde. O tratamento com antibióticos é mais eficaz quando começa cedo, antes de complicações graves.

Especialistas defendem que, além do atendimento imediato, o estado invista em campanhas contínuas sobre prevenção, controle de roedores e melhoria do saneamento. A experiência de anos recentes mostra que a leptospirose não se limita ao momento da chuva. Em muitos casos, a doença aparece semanas depois, quando a cidade já tenta virar a página da tragédia.

Em Ubá e em outras cidades mineiras, moradores se dividem entre o luto pelos mortos, o medo da doença e a reconstrução lenta de casas e comércios. A primeira morte por leptospirose em 2026 funciona como um sinal vermelho antecipado. Resta saber se o alerta, desta vez, será suficiente para conter uma escalada maior da doença enquanto as nuvens de março ainda rondam o estado.

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