Ubá confirma primeira morte por leptospirose e acende alerta em MG
Uma mulher de 33 anos morre por leptospirose em Ubá, na Zona da Mata, em março de 2026. A cidade investiga 41 casos suspeitos, enquanto Minas registra 55 confirmações e sete mortes no atual período chuvoso.
Cidade ainda coberta de lama tenta conter avanço da doença
Ubá ainda exibe marcas profundas das enchentes do fim de fevereiro. Ruas cobertas de lama, entulho empilhado em calçadas e casas abertas para secar formam o cenário em que avança a leptospirose, doença ligada diretamente à água e ao solo contaminados pela urina de ratos. Nesse ambiente, a primeira morte do ano no município deixa o alerta em estado máximo.
A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais confirma que a vítima é uma mulher de 33 anos. O diagnóstico sai por meio de exame RT-qPCR, teste molecular capaz de identificar o material genético da bactéria Leptospira, que circula em ambientes contaminados por roedores. Em nota, a pasta lamenta a morte e presta condolências à família, enquanto reforça o monitoramento da cidade.
A prefeitura de Ubá informa que 41 outros casos suspeitos de leptospirose estão em investigação. As amostras seguem para análise na Fundação Ezequiel Dias, em Belo Horizonte, referência estadual em exames de doenças infecciosas. Cada resultado, agora, passa a ter peso adicional para definir o tamanho real do surto em uma cidade que, dias antes, já contabiliza sete mortos pelas cheias e ainda procura um desaparecido, o autônomo Luciano Franklin Fernandes.
O período chuvoso 2025/2026 se mostra especialmente crítico para Minas. Até o momento, o estado soma 55 casos confirmados de leptospirose e sete mortes. O número ainda é menor que o de anos recentes, mas o histórico preocupa as autoridades sanitárias. Em 2023, por exemplo, foram 204 diagnósticos e 14 óbitos. Em 2022, 167 casos e 15 mortes. A curva oscila, mas permanece alta, sempre associada a enchentes recorrentes em cidades com drenagem deficiente e saneamento limitado.
Na capital, a pressão é semelhante, embora em outra escala. Belo Horizonte registra três casos confirmados apenas em janeiro de 2026. Em 2024, foram nove diagnósticos e uma morte. No ano anterior, 20 ocorrências e quatro óbitos. A repetição dessas estatísticas a cada período chuvoso indica que a leptospirose já faz parte do calendário das emergências de verão em grandes e médias cidades mineiras.
Risco cresce com lama, lixo e contato prolongado com água suja
A leptospirose é uma infecção causada pela bactéria Leptospira, eliminada principalmente na urina de ratos, que se espalha com facilidade em enchentes. Em bairros alagados de Ubá, o contato com a água que invade casas, com lama acumulada em quintais e com esgoto a céu aberto cria o cenário perfeito para a doença. O contágio costuma ocorrer quando a bactéria entra no corpo por ferimentos, arranhões ou mesmo pela pele íntegra exposta por muito tempo, além das mucosas dos olhos, da boca e do nariz.
A infectologista Cláudia Murta explica que o perigo não termina quando a água escoa. “Quando ocorrem enchentes, existe risco de ratos terem urinado nos resíduos que ficam nas casas e na lama acumulada. E a bactéria sobrevive ali, podendo causar infecção”, afirma. Por isso, o período de limpeza costuma ser tão arriscado quanto o auge do alagamento.
Os primeiros sintomas aparecem entre um e 30 dias após a exposição, geralmente entre o sétimo e o 14º dia. Febre, dor de cabeça, mal-estar, enjoo e dores musculares podem ser confundidos com uma gripe forte ou virose comum. A diferença, segundo Cláudia, é a intensidade da dor no corpo. “É frequente o paciente relatar dor intensa nas panturrilhas, perda de apetite, vômitos. Em muitos casos, a pessoa demora a procurar atendimento por achar que é algo banal”, diz.
Nos quadros graves, o fígado e os rins passam a ser afetados. O doente pode apresentar icterícia, quando a pele e os olhos ficam amarelados, além de falta de ar, sangramentos e diarreia. Sem tratamento rápido com antibióticos e, em alguns casos, internação, a leptospirose pode levar à insuficiência renal, hemorragias internas e morte. O desfecho trágico em Ubá reforça, para médicos e gestores, o custo de qualquer atraso na busca por atendimento.
A Secretaria de Saúde orienta que qualquer pessoa que tenha circulado por áreas alagadas e apresente febre, dor no corpo, dor de cabeça, náuseas ou cansaço intenso vá imediatamente a uma unidade básica ou pronto-atendimento. A recomendação vale mesmo se o contato com a água suja tiver ocorrido dias antes, já que o período de incubação é variável.
Prevenção expõe gargalos de saneamento e rotina de emergência
A resposta à leptospirose revela, mais uma vez, a fragilidade histórica da infraestrutura urbana em Minas. Em Ubá, o transbordamento do rio que corta a cidade escancara problemas antigos de drenagem, ocupação de áreas de risco e coleta de lixo. O poder público corre para recolher entulho, limpar ruas e recuperar áreas atingidas, mas a cada temporal a população volta ao ponto de partida: casas alagadas, móveis perdidos e um rastro de doenças.
As autoridades de saúde intensificam a comunicação com moradores de bairros mais afetados, com orientações práticas. A limpeza de casas e comércios só deve ser feita com botas e luvas de borracha. Quem não tem os equipamentos é orientado a improvisar proteção com sacos plásticos duplos, amarrados nos pés e nas mãos. Após a retirada da lama, a recomendação é lavar pisos e superfícies com água sanitária diluída, na proporção de um copo do produto para cada 20 litros de água. Esses cuidados simples reduzem o risco de contato direto com a bactéria.
Outra frente é a proteção dos alimentos. A orientação oficial é manter água, comida e utensílios bem fechados e afastados de possíveis focos de roedores. O objetivo é impedir que a contaminação avance da rua para a mesa. Em bairros onde a energia elétrica foi interrompida e muitos perderam geladeiras, esse controle se torna ainda mais desafiador, e famílias precisam redesenhar a rotina doméstica em meio a abrigos improvisados e casas danificadas.
Na esfera estadual, a leptospirose volta a pressionar a agenda de saneamento básico. Os dados dos últimos anos mostram que a doença acompanha enchentes recorrentes, especialmente em áreas de urbanização rápida e desordenada. Investimentos em redes de esgoto, drenagem de águas pluviais e manejo de resíduos aparecem nos discursos oficiais como resposta estrutural, mas a velocidade das obras costuma ser menor que a frequência das chuvas fortes.
A curto prazo, Ubá aposta no reforço da vigilância epidemiológica, na ampliação de testagem e na orientação direta em bairros mais atingidos. A médio e longo prazos, a cidade e o estado terão de enfrentar uma pergunta incômoda: quantas enchentes e quantos surtos de leptospirose ainda serão necessários até que o direito a saneamento e moradia segura deixe de depender da previsão do tempo.
