Turista gaúcha é presa por injúria racial contra comerciante no Pelourinho
Uma turista gaúcha de 50 anos é presa em flagrante por injúria racial contra uma comerciante no Pelourinho, em Salvador, na quarta-feira (21). O caso envolve acusação de ofensas racistas dentro de um bar e reação da suspeita, que exige um delegado branco ao ser abordada pela polícia.
Conflito em bar histórico aciona polícia e expõe tensão racial
O início da confusão ocorre quando um balde de bebidas é retirado de uma mesa por uma funcionária do estabelecimento, em uma das ladeiras mais movimentadas do centro histórico. A cliente que aguarda para fazer um pedido, identificada pela polícia como Giselle Madrid Spencer Cesar, 50, natural de Pelotas (RS), reage com xingamentos de cunho racista dirigidos à comerciante, segundo relatos colhidos no local.
Chamados por testemunhas, policiais militares chegam ao bar ainda na noite de 21 de janeiro de 2026 e encontram Giselle sozinha. Ela é detida em flagrante sob suspeita de injúria racial, crime previsto no artigo 140 do Código Penal com pena que pode chegar a três anos de reclusão, além de multa. O caso segue para a Delegacia do Turista, responsável por ocorrências envolvendo visitantes na capital baiana.
O delegado Ricardo Amorim, que é negro, conduz os primeiros depoimentos. Segundo ele, a turista reage à abordagem e passa a questionar quem assume o caso. “Ela exigiu a presença de um delegado branco”, relata Amorim à polícia, em referência ao momento do flagrante. A informação é confirmada por investigadores que acompanham o caso desde o início da ocorrência.
A partir do registro inicial, a Polícia Civil reúne depoimentos de funcionários, frequentadores e moradores do entorno. Testemunhas afirmam, de forma convergente, que as ofensas racistas partem da turista gaúcha durante a discussão sobre o balde de bebidas. A fala da suspeita, segundo esses relatos, não se restringe à funcionária que retira o recipiente da mesa.
Investigadores apuram se outras pessoas no bar também são alvo de comentários discriminatórios ao longo da noite. A suspeita é de que ao menos dois clientes, ambos negros, tenham sido constrangidos pela abordagem da turista. A polícia não detalha o teor das frases para preservar a vítima e eventuais outros atingidos, mas classifica o conteúdo como abertamente racista.
Versões em choque e repercussão em ponto simbólico da cultura negra
Em depoimento formal, Giselle nega ter cometido injúria racial e afirma que é ela, e não a comerciante, a pessoa destratada na confusão. A versão confronta diretamente os relatos de quem acompanha a cena desde o início e é tratada com cautela pelos investigadores. Até o momento, não há indicação de que a turista apresente testemunhas que corroborem a narrativa de que teria sido apenas vítima de mau atendimento.
O episódio ganha peso adicional por acontecer no Pelourinho, área tombada como patrimônio histórico e símbolo da presença negra em Salvador e no Brasil. Ruas de paralelepípedo, igrejas coloniais e sobrados coloridos convivem com blocos afro, grupos de capoeira e terreiros de candomblé. A região é um dos principais cartões-postais da capital baiana e concentra grande fluxo de turistas nacionais e estrangeiros, sobretudo em janeiro, auge da alta temporada.
Especialistas em relações raciais ouvidos pela reportagem avaliam que o caso evidencia a persistência do racismo em ambientes de lazer e turismo. Ao vincular a discussão a uma exigência por um delegado branco, a suspeita não apenas reforça o teor discriminatório da conduta, mas também toca em uma ferida antiga: a desconfiança em relação à autoridade negra. “Quando alguém condiciona legitimidade à cor da pele de quem investiga, está atualizando, em 2026, uma lógica colonial”, diz um pesquisador da área de direitos humanos da Bahia, sob reserva.
O debate sobre injúria racial ganha novo fôlego após mudanças recentes na legislação. Desde 2023, o Supremo Tribunal Federal equipara a injúria racial ao crime de racismo, o que afasta a prescrição e torna a punição mais rígida. Na prática, casos como o de Giselle passam a ser tratados com menos margem para acordos informais ou esquecimentos processuais, pressionando o sistema de justiça a dar respostas mais rápidas.
As redes sociais ampliam a repercussão do episódio. Em poucas horas, a notícia de que uma turista gaúcha é presa no Pelourinho circula em perfis de coletivos negros, movimentos culturais e influenciadores ligados à defesa dos direitos humanos. Comentários cobram responsabilização exemplar e destacam a contradição de episódios de racismo em um espaço que celebra, diariamente, a herança afro-brasileira.
Investigação em curso e pressão por respostas mais firmes ao racismo
A Polícia Civil da Bahia mantém a investigação aberta e busca identificar outras possíveis vítimas de conduta racista por parte da turista. Delegados que atuam na área de turismo afirmam que relatos informais sugerem que ofensas semelhantes podem ter ocorrido em outros pontos do Pelourinho, na mesma semana. A equipe tenta localizar pessoas que apareceriam em vídeos gravados por celulares na noite da prisão, para que possam ser ouvidas formalmente.
Até esta quinta-feira, a polícia ainda não esclarece quando Giselle chega a Salvador nem qual seria a data prevista para o retorno ao Rio Grande do Sul. Essas informações ajudam a estabelecer a linha do tempo da viagem e a checar se houve registro de outras ocorrências envolvendo a mesma pessoa em hotéis, bares ou pontos turísticos. O inquérito deve reunir registros de câmeras de segurança, notas fiscais e cadastros de hospedagem para reconstruir os deslocamentos da turista na capital baiana.
O caso reacende discussões no poder público baiano sobre protocolos de combate ao racismo em áreas turísticas. Representantes do trade local defendem campanhas permanentes de orientação a visitantes, com avisos claros sobre a legislação e canais de denúncia. Organizações de defesa da população negra pedem, além disso, investimento contínuo em formação antirracista para servidores que atuam na ponta, sobretudo em regiões com grande presença de turistas.
Em paralelo, o episódio pressiona o sistema de justiça a mostrar se decisões recentes sobre injúria racial terão efeito concreto nas ruas. Uma eventual denúncia formal do Ministério Público, seguida de processo e julgamento, será acompanhada de perto por entidades da sociedade civil. Na visão desses grupos, cada caso ganha peso pedagógico: define se a mensagem que prevalece é a de tolerância zero ou a de que agressões racistas ainda podem passar impunes em 2026.
A defesa de Giselle ainda não se manifesta publicamente. A reportagem tenta contato com a turista e manterá o texto atualizado em caso de resposta. Até lá, o inquérito segue em curso, e o Pelourinho volta a ser palco de um velho embate brasileiro: a disputa diária entre o roteiro turístico e a realidade do racismo que insiste em atravessar a paisagem.
