Tumulto em bloco de Calvin Harris na Consolação paralisa pré-Carnaval em SP
Um tumulto por superlotação interrompe na tarde deste domingo (8) o bloco comandado por Calvin Harris na rua da Consolação, região central de São Paulo. Foliões passam mal, grades cedem e a festa tem a apresentação suspensa após a intervenção do Corpo de Bombeiros.
Superlotação transforma comemoração em cena de resgate
O que começa como uma das principais atrações do pré-Carnaval paulistano termina em correria, choro e dispersão apressada de parte do público. O DJ escocês Calvin Harris, 42, é o grande chamariz do bloco e arrasta uma multidão para a avenida na região da Consolação, tradicional corredor de desfiles e blocos de rua na capital.
Nos minutos em que a multidão se comprime diante do trio elétrico, o clima de euforia cede espaço à tensão. O empurra-empurra se intensifica, foliões relatam falta de ar e alguns desmaiam em meio à massa compactada. Gritos por ajuda começam a se sobrepor ao som das caixas de som de alto volume.
De cima do trio, o cantor cearense Felipe Amorim interrompe a apresentação e tenta orientar o socorro. “Gente, por favor, tem a mulher passando mal aqui. Por favor, Corpo de Bombeiros, aqui”, pede ao microfone, apontando para o meio da rua tomada de gente. Na sequência, insiste na localização do ponto de emergência. “Alô, Corpo de Bombeiros, aqui no meio, no semáforo aqui, no semáforo. Deu certo? No semáforo em frente ao cemitério, tá a mulher passando mal.”
Equipes do Corpo de Bombeiros abrem caminho com dificuldade entre fantasias, isopores e cordões de foliões. Pessoas ensaiam um corredor para permitir a passagem, mas a densidade do público atrasa o deslocamento. Enquanto isso, amigos e desconhecidos erguem quem desmaia, em tentativas improvisadas de aliviar o calor e a pressão.
Grades cedem, público se dispersa e bloco é suspenso
Quando parte dos foliões tenta escapar do aperto e se deslocar para laterais da via, as grades de contenção instaladas entre o trio elétrico e o público não resistem. A barreira metálica cede em um trecho e derruba quem está encostado na estrutura, abrindo uma brecha que aumenta o tumulto e a sensação de insegurança.
A queda da proteção provoca uma nova onda de correria. Gente corre em direção às calçadas, tenta subir em marquises, se refugia em entradas de prédios e estacionamentos. Alguns preferem abandonar o bloco de vez. Em poucos minutos, a área à frente do trio deixa de ser um mar compacto de corpos e ganha clareiras visíveis.
Organizadores e equipes de segurança técnica decidem suspender a apresentação enquanto os atendimentos se multiplicam. Os bombeiros focam na remoção dos casos mais graves, principalmente pessoas com dificuldade de respiração e sinais de desmaio. Não há, até o momento, balanço oficial do número de atendidos, mas relatos no local falam em uma sequência de remoções ao longo da tarde.
Na programação, além de Calvin Harris e Felipe Amorim, o bloco anuncia shows de Nattan, Xand Avião e Zé Vaqueiro. A combinação de grandes nomes do forró, do piseiro e da música eletrônica transforma o desfile em um dos eventos mais aguardados do domingo de pré-Carnaval, parte de uma agenda que soma dezenas de blocos apenas neste 8 de fevereiro em São Paulo.
A superlotação, porém, expõe um limite concreto da infraestrutura de rua. A Consolação recebe nos últimos anos alguns dos desfiles mais cheios da cidade, especialmente ligados ao circuito do Baixo Augusta, que se consolida como polo de blocos de alto apelo comercial e com forte presença de patrocinadores e artistas de projeção nacional e internacional.
Segurança em xeque e pressão por regras mais rígidas
O episódio desta tarde reabre o debate sobre a segurança de grandes blocos em São Paulo. A cidade estima milhões de foliões nas ruas ao longo do Carnaval e do pré-Carnaval, com uma concentração crescente em áreas centrais e eixos como a Consolação e a Avenida Paulista. A combinação de alta expectativa de público, calor intenso e atrações internacionais amplia a responsabilidade de prefeitura, organizadores e forças de segurança.
Especialistas em gestão de multidões alertam há anos para o risco de compressão humana em espaços sem rotas de fuga claras e sem controle mínimo de densidade. Na prática, isso significa estabelecer, monitorar e respeitar limites de pessoas por metro quadrado, além de promover dispersão escalonada quando a lotação se aproxima do máximo seguro. A ruptura das grades e o socorro emergencial vistos neste domingo exemplificam o que ocorre quando esse limite é ultrapassado.
Organizadores privados e o poder público podem ter de rever protocolos já para os próximos dias de folia. A tendência é que a prefeitura cobre relatórios detalhados sobre o tumulto, revise autorizações, reavalie pontos de concentração e exija reforço de barreiras, sinalização de saídas e equipes médicas. Multas, restrições de horário e até redução de trajeto entram no radar em casos de reincidência.
O impacto também é simbólico. A presença de um dos DJs mais conhecidos do mundo em um bloco de rua gratuito é usado como vitrine internacional do Carnaval paulista. A cena de ambulâncias avançando em meio a fantasias e abadás, porém, contrasta com o discurso de evento organizado e seguro que a cidade tenta consolidar nos últimos dez anos, desde a explosão do formato de megablocos.
Pressão por respostas rápidas antes do auge do Carnaval
Autoridades municipais devem se manifestar nas próximas horas sobre o que ocorre na Consolação e sobre as condições de retomada das apresentações interrompidas. O cronograma de blocos previsto para os próximos dias, que inclui desfiles de grande porte no Baixo Augusta e na região da Paulista, passa a ser analisado com mais cautela por gestores de segurança e transporte.
Empresas envolvidas na produção dos trios elétricos e na contratação de artistas como Calvin Harris, Nattan, Xand Avião, Zé Vaqueiro e Felipe Amorim também enfrentam pressão para detalhar seus planos de contenção de risco. A discussão não se limita à programação deste domingo e tende a influenciar a formatação dos blocos de 2027, com possíveis mudanças em trajetos, limites de público e exigência de estruturas mais robustas.
Enquanto vídeos do tumulto circulam em redes sociais e chegam a milhões de visualizações em poucas horas, a cidade entra na reta final de preparação para o Carnaval de rua. A resposta que prefeitura, organizadores e forças de segurança dão ao episódio da Consolação pode definir se o folião volta às ruas com confiança ou se mantém a dúvida sobre até que ponto a festa cabe, com segurança, no espaço público disponível.
