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Tumulto em bloco com Calvin Harris esvazia rua da Consolação em SP

Um tumulto provocado por superlotação interrompe na tarde deste domingo (8) o bloco que tem Calvin Harris como principal atração na rua da Consolação, em São Paulo. A multidão derruba barreiras de proteção, provoca empurra-empurra e obriga o Corpo de Bombeiros a intervir para socorrer foliões que passam mal durante o pré-Carnaval de 2026.

Superlotação transforma festa em tumulto

A tarde começa como uma vitrine do pré-Carnaval paulistano. O DJ escocês Calvin Harris, 42, puxa um mar de gente pela Consolação, um dos principais corredores da folia de rua na capital. A combinação de sol forte, expectativa alta e atrações estreladas atrai uma multidão compacta, que ocupa calçadas, pistas e canteiros por centenas de metros.

Com o avanço do trio elétrico, o aperto cresce e o clima muda. O público se aproxima da estrutura de som, encosta nas grades e começa um empurra-empurra constante. Foliões relatam dificuldade para se movimentar e sair dos pontos mais próximos do caminhão. Pessoas desmaiam e pedem ajuda, enquanto quem está na frente tenta avisar às equipes de segurança.

Em meio à confusão, a barreira de contenção que separa o trio da multidão cede em trechos e cai ao chão. A ruptura abre um corredor improvisado, mas também aumenta o risco de acidentes, com gente tropeçando nas estruturas de metal e tentando escapar do aperto. Parte do público se dispersa pelas ruas laterais, o que reduz a pressão, mas não resolve o problema imediato de quem desmaia ou passa mal.

No alto do trio, o cantor cearense Felipe Amorim percebe a gravidade da cena e interrompe a festa para pedir socorro. “Gente, por favor, tem a mulher passando mal aqui. Por favor, Corpo de Bombeiros, aqui”, grita ao microfone, tentando orientar a equipe em meio ao bloco lotado. Ele insiste, detalha o ponto exato e usa referências visuais para se fazer ouvir.

“A galera que impressiona aqui do Corpo de Bombeiros. Alô, Corpo de Bombeiros, aqui no meio, no semáforo aqui, no semáforo. Deu certo? No semáforo em frente ao cemitério, tá a mulher passando mal”, continua, enquanto foliões levantam os braços e abrem espaço o quanto conseguem. As frases ajudam a dimensionar a dificuldade das equipes para chegar a quem precisa de atendimento, em uma rua tomada por milhares de pessoas.

Resgate difícil expõe fragilidade da segurança

A intervenção do Corpo de Bombeiros se torna o ponto de virada do bloco. Com viaturas e equipes já destacadas para acompanhar o desfile, os militares se infiltram na multidão, orientados por gestos, gritos e pelos pedidos no microfone. O atendimento se concentra em pessoas que apresentam mal-estar, desmaios e sinais de exaustão, agravados pelo calor e pela falta de circulação de ar.

O trabalho não se limita ao socorro imediato. Os bombeiros precisam também conter a pressão da massa sobre o trio e reorganizar as grades derrubadas. A operação força a pausa do som e a interrupção temporária do cortejo. A cena contrasta com o clima de euforia que marca o início do dia, quando a presença de Calvin Harris é tratada como trunfo da programação de rua da cidade.

Calvin Harris é a principal estrela da escalação, que ainda reúne Felipe Amorim, Nattan, Xand Avião e Zé Vaqueiro, nomes que arrastam milhões de ouvintes nas plataformas digitais. A soma desses artistas eleva o bloco ao patamar de grande evento de massa, com potencial para atrair um público superior ao previsto nos planos de segurança. A superlotação acaba por transformar um dos desfiles mais aguardados deste pré-Carnaval em caso de alerta para o poder público.

Blocos de grande porte em São Paulo vêm crescendo em tamanho e visibilidade ao menos desde 2017, quando desfiles como o Acadêmicos do Baixo Augusta consolidam a região central como polo da folia de rua. A cidade investe em estrutura, linhas especiais de transporte e comunicação, mas os episódios de aperto, desmaios e tumultos se repetem a cada ano, em menor ou maior escala. O episódio na Consolação reabre o debate sobre o teto seguro de público em vias estreitas e cheias de cruzamentos.

Organizadores e autoridades costumam trabalhar com estimativas de público baseadas em dados de anos anteriores e no perfil das atrações. A presença de um DJ com trânsito global, como Calvin Harris, associado a nomes populares do forró eletrônico e do piseiro, amplia a base de fãs e altera esse cálculo. A tarde de domingo mostra, na prática, o que acontece quando a estimativa falha e a rua não comporta o volume de gente interessado em ver o artista de perto.

Pressão por novas regras para grandes blocos

A pausa forçada do bloco provoca questionamentos imediatos entre foliões, organizadores e órgãos públicos. A Secretaria Municipal de Cultura e a subprefeitura responsável pela região devem ser cobradas sobre o planejamento de público, o número de agentes de apoio e os critérios para autorizar um desfile desse porte em 2026. A atuação do Corpo de Bombeiros, que evita um desfecho mais grave, não elimina a sensação de que o sistema de proteção entra em ação apenas depois que a situação se torna crítica.

O impacto não se limita ao bloco de Calvin Harris. Outros desfiles de grande porte programados para a região central, incluindo o tradicional Baixo Augusta, entram no radar de foliões e autoridades. A discussão sobre limitar a capacidade de público, mudar trajetos, ampliar áreas de escape e reforçar a comunicação com o público ganha força nas horas seguintes ao tumulto. Secretarias envolvidas na autorização de blocos podem ser pressionadas a rever regras antes mesmo do Carnaval oficial.

Nos próximos dias, relatos de quem esteve na Consolação devem alimentar investigações internas e pedidos de explicação formais. Vídeos que mostram empurra-empurra, grades caídas e pedidos de socorro tendem a circular nas redes sociais e a pautar respostas oficiais sobre o que falhou. A prefeitura terá de explicar se havia estudo específico para o risco de superlotação e qual era o limite de público definido para aquele trecho da via.

Organizadores de outros blocos observam o caso com atenção, porque eventual endurecimento de regras pode afetar diretamente a temporada de 2027. Mudanças em exigências de laudos, contratação de brigadistas, instalação de barreiras e controle de acesso costumam elevar custos e podem inviabilizar projetos menores. A linha entre preservar a festa de rua e garantir segurança para quem participa volta ao centro da agenda.

O tumulto em torno do trio de Calvin Harris deixa, por ora, mais perguntas do que respostas. A cidade precisa decidir até que ponto aceita multidões cada vez maiores em espaços limitados e quais responsabilidades cada agente assume, do organizador ao poder público. A forma como São Paulo reage a este domingo de pré-Carnaval indica se a capital aprende com o susto ou se repete, no próximo ano, o mesmo roteiro de risco.

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