Trump volta ao tabuleiro brasileiro e tensiona eleição de 2026
Flávio Bolsonaro desembarca em Washington em fevereiro de 2026 em busca de um gesto de Donald Trump para sua campanha presidencial. O movimento acende o alerta no Planalto, que teme nova interferência do ex-presidente americano na política brasileira. Lula reage com uma agenda externa própria e tenta ganhar margem de manobra diante de um aliado incômodo.
Trump testa limites e volta a mirar o Brasil
Trump volta ao centro do tabuleiro político internacional ao comandar, na capital americana, a primeira reunião do chamado Conselho de Paz de Gaza. O fórum, idealizado, montado e presidido por ele, reúne líderes de perfil ultraconservador da Europa e da América Latina, sob o pretexto de discutir uma saída para a faixa devastada pela guerra. A cena serve também como vitrine de poder para um político que nunca esconde o desejo de influenciar disputas eleitorais além das fronteiras dos Estados Unidos.
Da Europa, participam chefes de governo e de Estado de Hungria, Albânia, Kosovo, Belarus e Bulgária. As principais democracias ricas, como Alemanha, França e Reino Unido, se mantêm à distância ou mandam apenas observadores. Da vizinhança sul-americana, comparecem Javier Milei, da Argentina, e Santiago Peña, do Paraguai, que juntos representam metade do Mercosul original. Nayib Bukele, de El Salvador, completa o quadro latino, tratado por parte da direita como herói contra o crime e acusado pela esquerda de governar com mão de ferro e atropelar direitos.
Trump usa o palco para desafiar publicamente a regra de não ingerência em assuntos internos de outros países. Em conversas reservadas e falas a interlocutores, deixa claro que se sente livre para apoiar quem quiser, onde quiser. O que importa, repete, é o resultado nas urnas e a vitória de seus aliados, não o desconforto diplomático. O recado ecoa de forma direta em Brasília, onde a eleição brasileira de 2026 entra em aquecimento e volta a despertar o interesse da direita trumpista.
Enquanto Trump posa de maestro de uma aliança conservadora global, diplomatas brasileiros e assessores presidenciais tentam decifrar o alcance real de seus movimentos. O Itamaraty vê com preocupação a possibilidade de uma nova onda de interferência explícita na política nacional, como ocorreu na década passada com a aproximação entre Trump e Jair Bolsonaro. No Planalto, auxiliares de Lula monitoram cada gesto do republicano, cientes de que qualquer sinal em direção a Flávio Bolsonaro pode mexer no humor de investidores, nas redes sociais e, sobretudo, nas pesquisas de opinião.
Lula busca alternativas e amplia poder de barganha
Lula está longe de Washington quando a reunião do Conselho de Gaza ocorre. Em vez disso, circula pela Ásia para assinar acordos com Índia e Coreia do Sul, em uma agenda com forte viés econômico e tecnológico. Com o governo indiano, fecha um entendimento sobre minerais críticos, como lítio e terras raras, insumos centrais para baterias, carros elétricos e equipamentos de alta tecnologia. O acerto amplia o poder de barganha do Brasil num setor em que Trump também tenta exercer influência direta.
O presidente brasileiro evita dar respostas claras ao convite para participar do conselho idealizado por Trump, que ele próprio chama, em tom irônico, de “a ONU do Trump”. Nem aceita, nem recusa oficialmente, segundo auxiliares. A indefinição reflete o cálculo político em curso. Lula sabe que uma aproximação excessiva com o republicano pode desgastar sua base progressista no Brasil, mas também enxerga vantagens em manter aberta uma linha de diálogo com quem ainda tem peso real no Partido Republicano e entre empresários americanos.
Nos últimos anos, a relação entre Lula e Trump passa por uma guinada pragmática. Depois de aplicar tarifa de 40% a produtos brasileiros e acionar a Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes e sua mulher, além de suspender vistos de integrantes do governo e do Judiciário, Trump se afasta de Jair Bolsonaro quando o ex-presidente é derrotado nas urnas e, mais tarde, condenado pelo Supremo Tribunal Federal. “Rei morto, rei posto”, resumem interlocutores próximos a Trump, ao descrever a transição de simpatia da família Bolsonaro para o atual chefe do Executivo brasileiro.
Em público, Lula tenta estabelecer limites. Em encontros anteriores, afirma que defenderá “tratamento igualitário” a países em reuniões com Trump e outros líderes globais, num recado contra medidas unilaterais como sanções e sobretaxas. Ao mesmo tempo, aposta em parcerias com Índia e Coreia do Sul para reduzir a dependência econômica de eventuais humores do ex-presidente americano. Esses acordos envolvem bilhões de dólares em investimentos previstos até 2030 e consolidam o Brasil como fornecedor estratégico de insumos para a transição energética.
A estratégia não elimina o incômodo no Planalto com o avanço de Flávio Bolsonaro. A candidatura do senador, que tenta herdar o capital político do pai, ameaça reacender em Trump o interesse direto pela política brasileira. A lógica é simples: um Bolsonaro competitivo oferece a chance de reconstruir a aliança ideológica conservadora que marcou o período entre 2019 e 2022. A dúvida, em Brasília e em Washington, é se Trump está disposto a apostar de novo numa família marcada por derrotas, investigações e condenações.
Pesquisas, interferência e o cálculo para 2026
Flávio desembarca nos Estados Unidos na mesma quinta-feira em que Trump preside o Conselho de Gaza. O objetivo é sair de Washington com algum gesto público ou privado que fortaleça sua pré-candidatura ao Planalto. Um encontro, uma foto, uma frase de apoio nas redes já seriam comemorados pela campanha. Para assessores de Lula, porém, qualquer movimento desse tipo funcionaria como sinal verde para uma nova rodada de intervenção externa na eleição nacional.
Os dois lados olham para o mesmo relógio: a próxima rodada de pesquisas AtlasIntel, prevista para depois do Carnaval de 2026. O governo avalia que o feriado, marcado por críticas à gestão nas redes e nas ruas, derruba a popularidade presidencial em alguns pontos percentuais. Flávio acelera a agenda de viagens, com foco em templos evangélicos e redutos bolsonaristas. Em Washington, estrategistas trumpistas acompanham os números com atenção. Se o senador aparece competitivo, cresce a chance de Trump apostar forte na sua campanha. Se segue distante de Lula, o ex-presidente americano pode preferir manter o investimento político no atual ocupante do Planalto.
O envolvimento direto de Trump no Brasil, seja com Lula, seja com Flávio, tende a acentuar a polarização já conhecida desde 2018. Partidos do centro temem ser esmagados por um debate dominado por agendas externas, ideológicas e culturais, em vez de temas como crescimento, inflação e emprego. No Congresso, parlamentares descrevem um cenário de instabilidade, com risco de novos embates entre Executivo, Judiciário e Forças Armadas caso retóricas de ruptura voltem a ganhar força com o aval simbólico de Washington.
A presença de Flávio como ponte com o trumpismo anima bolsonaristas, mas também expõe o país a conflitos diplomáticos e econômicos. Investidores estrangeiros observam com cautela. Em 2020, após declarações de Trump e Bolsonaro contra instituições brasileiras, o fluxo de investimento direto recua cerca de 50% em relação a 2019, segundo dados do Banco Central. O temor, agora, é que um novo ciclo de declarações explosivas faça o país perder oportunidades em setores estratégicos, justamente quando acordos com Índia e Coreia do Sul começam a atrair projetos em tecnologia verde e semicondutores.
Lula tenta mostrar que não é refém de Trump e aposta em uma agenda multilateral, dividindo atenções entre Washington, Nova Délhi, Seul, Bruxelas e Pequim. O presidente sabe, no entanto, que a eleição de 2026 não se decide apenas em gabinetes presidenciais. Se Trump voltar a atuar de forma explícita, com postagens, declarações e encontros públicos, o debate interno pode ser contaminado por teorias conspiratórias e campanhas digitais coordenadas a partir do exterior, repetindo o roteiro observado em 2018 e 2020.
O destino dessa reaproximação depende de variáveis que se cruzam nas próximas semanas: as pesquisas, o humor de Trump, a força real da candidatura de Flávio e a capacidade de Lula de manter canais abertos sem subordinação. O Brasil volta a descobrir que sua eleição presidencial, prevista para outubro de 2026, é acompanhada em tempo real a poucos quarteirões da Casa Branca. A pergunta, em Brasília e em Washington, é até onde Trump está disposto a ir desta vez.
