Trump volta a falar em comprar a Groenlândia e minimiza reação europeia
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, volta a defender publicamente, nesta terça-feira (20), a ideia de comprar a Groenlândia. Ele afirma acreditar que líderes europeus não oferecerão “muita resistência” a uma eventual negociação pelo território dinamarquês no Ártico.
Declaração recoloca disputa pelo Ártico no centro do tabuleiro
Trump escolhe um cenário de atenção global para retomar o plano, que já provoca controvérsia em 2019. Em declarações difundidas internacionalmente, o republicano diz ter aceitado discutir diretamente a aquisição com autoridades responsáveis pelo território. A fala ocorre em um momento em que o degelo do Ártico, acelerado nas últimas décadas, torna a região peça-chave na disputa por rotas marítimas, bases militares e acesso a minerais estratégicos.
Ao comentar a posição de aliados europeus, Trump minimiza a possibilidade de reação dura de capitais como Copenhague, Bruxelas e Berlim. “Acho que os líderes europeus entendem o valor estratégico da Groenlândia para o Ocidente e não vão criar muita resistência”, afirma, sem apresentar detalhes sobre qualquer canal formal de negociação. A avaliação contrasta com declarações anteriores de autoridades dinamarquesas, que classificam a ideia como “absurda” e reafirmam a soberania do reino sobre a ilha.
Interesse estratégico no Ártico e potenciais impactos
A Groenlândia, com cerca de 2,1 milhões de quilômetros quadrados e pouco mais de 56 mil habitantes, ocupa posição central na geopolítica do Ártico. Aproximadamente 80% de seu território permanece coberto de gelo, mas o aquecimento global abre novas perspectivas econômicas, de exploração mineral a rotas de navegação que podem encurtar em milhares de quilômetros o transporte entre Europa e Ásia. Para Washington, a ilha funciona também como barreira e observatório diante da aproximação de Rússia e China da região polar.
Os Estados Unidos mantêm na ilha, desde a Guerra Fria, a base aérea de Thule, a cerca de 1,5 mil quilômetros do Polo Norte, integrada ao sistema de alerta de mísseis do país. Uma eventual aquisição ampliaria o controle americano sobre o Atlântico Norte e o Ártico, com efeitos diretos sobre a Otan, da qual a Dinamarca faz parte desde 1949. Especialistas em defesa veem na proposta um movimento para consolidar presença militar permanente e influenciar a exploração de recursos naturais estimados em bilhões de dólares, de petróleo a terras raras usadas em tecnologias de ponta.
O interesse americano, porém, não se resume à esfera militar. A Groenlândia recebe hoje significativa transferência de recursos de Copenhague para financiar serviços públicos e infraestrutura. Um acordo de compra, caso avançasse, exigiria definição de valores, prazos e garantias para a população local, que elege governo próprio desde 1979 e amplia a autonomia interna a partir de 2009. Qualquer mudança de status político teria de passar, na prática, por consultas à sociedade groenlandesa e ao Parlamento dinamarquês.
A declaração de Trump, feita sem apresentar cronograma, números ou equipe de negociação, alimenta especulações em capitais europeias. Diplomatas ouvidos reservadamente avaliam que a iniciativa tende a gerar mais ruído político do que resultados concretos no curto prazo. Também alertam para um possível desgaste entre Washington e Copenhague em um momento em que Estados Unidos, União Europeia e Otan tentam coordenar respostas à pressão russa no Báltico e à presença chinesa em portos estratégicos da Europa.
Reações, riscos diplomáticos e próximos passos
A retomada pública do tema abre nova frente de atrito em um relacionamento que, historicamente, se apoia em cooperação militar e comercial. Em 2025, os Estados Unidos respondem por parcela relevante do comércio dinamarquês fora da União Europeia, enquanto a Dinamarca abriga tropas e equipamentos militares que integram a arquitetura de defesa da Otan. Uma discussão sobre compra de território coloca na mesa um tema sensível para europeus: a soberania sobre áreas remotas, mas estratégicas, como ilhas do Atlântico Norte e do Ártico.
Sem sinal claro de apoio de Copenhague ou de autoridades groenlandesas, a proposta de Trump se mantém, por ora, no campo das intenções políticas. Parlamentares europeus já indicam que qualquer tentativa de “negociar” territórios sem consulta prévia às populações locais pode ser vista como afronta aos princípios de autodeterminação defendidos pela União Europeia. A Casa Branca não divulga valores, formato jurídico ou prazos para eventual oferta, o que limita a capacidade de analistas de mensurar com precisão o impacto de uma transação dessa escala.
Nos bastidores diplomáticos, a avaliação é que a simples colocação do tema em público pressiona a Dinamarca a explicitar sua estratégia para a Groenlândia e para o Ártico. Também força a Otan e a União Europeia a acelerar discussões internas sobre presença militar, investimentos e proteção de rotas marítimas na região. Enquanto isso, Rússia e China acompanham o movimento com atenção: Moscou reforça bases e quebra-gelos no Ártico, e Pequim tenta se afirmar como “Estado próximo ao Ártico”, ampliando investimentos em pesquisa e infraestrutura.
Trump sinaliza que está disposto a levar a ideia adiante, mas não indica qual será o próximo passo institucional. A ausência de um processo formal deixa, por enquanto, líderes europeus diante de um cenário ambíguo, em que uma proposta improvável convive com riscos geopolíticos muito concretos. A questão que permanece, para Copenhague, Washington e Bruxelas, é se a Groenlândia seguirá apenas como peça retórica em discursos de campanha ou se se tornará o centro de uma das negociações territoriais mais sensíveis do século XXI.
