Trump vincula disputa pela Groenlândia à frustração com Nobel da Paz
Donald Trump relaciona sua ofensiva pela Groenlândia ao fato de não ter recebido o Nobel da Paz e cobra “controle completo e total” da ilha em mensagem enviada ao primeiro-ministro da Noruega em janeiro de 2026. O texto, revelado por veículos americanos e confirmado por Oslo, expõe a mistura de ressentimento pessoal e ambição geopolítica na política externa do presidente dos Estados Unidos.
Ressentimento pelo Nobel entra na diplomacia
A carta enviada a Jonas Gahr Støre, divulgada pela PBS e detalhada pelo Financial Times, nasce de uma queixa sobre tarifas e termina em uma ameaça velada de revisão de fronteiras no Ártico. Em poucas linhas, Trump amarra a frustração por não ter levado o Nobel da Paz, o papel da Otan e a exigência de domínio americano sobre a Groenlândia, território autônomo sob soberania da Dinamarca.
O presidente escreve que, “considerando que seu país decidiu não me dar o Prêmio Nobel da Paz… não sinto mais obrigação de pensar puramente em Paz”. Em seguida, afirma que passa a priorizar “o que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América”. A frase transforma um prêmio simbólico, decidido por um comitê norueguês, em justificativa política para endurecer a posição americana em uma das regiões mais estratégicas do planeta.
Støre confirma, na manhã de segunda-feira, que recebeu a mensagem. O contato ocorre depois de o norueguês enviar um texto a Trump, em nome dele e do presidente da Finlândia, Alexander Stubb, pedindo que Washington desescale a retórica, retire a ameaça de novas tarifas contra países europeus e aceite uma ligação a três “durante o dia”. Em resposta, o presidente americano amplia o tema para além das taxas e insere o Nobel no centro da conversa.
O contexto torna o gesto ainda mais sensível. Em 2025, o Nobel da Paz vai para María Corina Machado, líder da oposição venezuelana. Segundo o relato publicado pelo Financial Times, ela entrega a medalha a Trump na Casa Branca, em uma cerimônia descrita como “reconhecimento por seu compromisso único” com a liberdade da Venezuela. O presidente, porém, não esconde a irritação por não ser ele o laureado oficial.
Nos bastidores, diplomatas noruegueses relatam uma campanha ativa de Trump pelo prêmio desde seu retorno à Casa Branca, “há um ano”. Em conversas privadas, o republicano diz ter encerrado “oito guerras” e cobra reconhecimento por isso. Autoridades de Oslo repetem, mais de uma vez, que o governo não interfere no comitê, composto por cinco integrantes escolhidos pelo Parlamento, mas com decisões independentes. A explicação não acalma o presidente.
Groenlândia vira peça central de uma disputa maior
No mesmo conjunto de mensagens, Trump desloca o foco do Nobel para a Groenlândia e para a soberania dinamarquesa. “O mundo não está seguro a menos que tenhamos controle completo e total da Groenlândia”, escreve. A frase se encaixa em uma narrativa que ele vem construindo desde o primeiro mandato, quando já flertava publicamente com a ideia de comprar a ilha.
O presidente volta a questionar a legitimidade do controle dinamarquês, mesmo reconhecendo que os Estados Unidos aceitaram essa condição em tratados, incluindo a convenção de 1916-17 que tratou da venda das Índias Ocidentais Dinamarquesas. “A Dinamarca não pode proteger aquela terra da Rússia ou da China, e por que eles têm um ‘direito de propriedade’, afinal?”, provoca, antes de minimizar séculos de presença europeia com um argumento histórico frouxo: “Não há documentos escritos, é só que um barco pousou lá centenas de anos atrás, mas nós tivemos barcos pousando lá também”.
A investida não mira só Copenhague. Trump enquadra o assunto dentro de sua retórica sobre a Otan. “Eu fiz mais pela Otan do que qualquer outra pessoa desde a sua fundação, e agora a Otan deveria fazer algo pelos Estados Unidos”, afirma, ao sugerir que a aliança militar precisa se alinhar à agenda americana sobre o Ártico. O recado atinge diretamente países como Noruega e Dinamarca, que concentram parte importante da presença da Otan no extremo norte.
A PBS relata que o texto é encaminhado a “múltiplas” embaixadas europeias em Washington. O gesto transforma uma troca bilateral em instrumento de pressão coletiva. Ao circular o documento entre diplomatas de pelo menos oito países da União Europeia, o governo Trump amplia a tensão já criada por ameaças de novas tarifas e pelo envio de tropas à região da Groenlândia, anunciado semanas antes.
A combinação de ressentimento pessoal, ambição territorial e uso da Otan como moeda de troca preocupa capitais europeias. Um diplomata norueguês, ouvido sob reserva, compara o impasse ao caso de 2010, quando o Nobel concedido ao dissidente chinês Liu Xiaobo provoca retaliações econômicas de Pequim. “Tivemos uma dura luta para convencer a China”, lembra. “Agora temos a mesma dura luta com Trump.”
Aliados em alerta e soberania em disputa
As mensagens de Trump chegam a um tabuleiro já congestionado. A Groenlândia concentra recursos naturais, rotas marítimas emergentes com o derretimento do gelo e instalações militares estratégicas, como a base aérea de Thule, peça central do sistema de defesa antimísseis americano. Rússia e China ampliam presença no Ártico, enquanto os anos recentes registram novas missões militares europeias na ilha, para reforçar a proteção do território.
Governos europeus avaliam que a postura de Washington reabre, na prática, um debate sobre soberania que parecia consolidado. A Dinamarca, que garante defesa e política externa da Groenlândia, vê na carta um ataque direto a sua autoridade sobre um território de 2,1 milhões de quilômetros quadrados, habitado por cerca de 57 mil pessoas. Noruega e Finlândia, citadas por Støre, tentam conter uma escalada que mistura tarifas, tropas e declarações inflamadas.
Dentro da Otan, a carta alimenta dúvidas sobre até que ponto os Estados Unidos estão dispostos a usar o guarda-chuva de defesa coletiva como argumento em disputas bilaterais. A ideia de que “a Otan deveria fazer algo pelos Estados Unidos”, sem detalhamento, acende alertas sobre pedidos futuros por mais acesso a portos, bases ou concessões políticas em troca da proteção americana.
A revelação das mensagens também reforça o debate sobre o peso de fatores pessoais na tomada de decisão em Washington. Ao colocar a negativa do Nobel como gatilho para “não pensar puramente em paz” e, ao mesmo tempo, exigir “controle completo e total” sobre a Groenlândia, Trump normaliza a ligação entre frustrações individuais e decisões estratégicas em escala global.
Diplomatas europeus calculam o impacto em negociações futuras sobre o Ártico, em fóruns como o Conselho do Ártico e a própria Otan. Qualquer discussão sobre mineração, rotas marítimas ou presença militar na região, nos próximos meses, passa a carregar a sombra das mensagens reveladas agora. Mais do que um episódio isolado, o caso expõe um método: usar canais oficiais para pressionar aliados, testar limites e deslocar, sob uma lógica de força, a discussão sobre soberania no Atlântico Norte.
Os próximos passos dependem da reação conjunta de Dinamarca, Noruega, Finlândia e demais membros da Otan. A questão central permanece em aberto: até onde os aliados europeus estão dispostos a ir para conter uma ofensiva americana que mistura cálculo geopolítico, disputa territorial e o ressentimento de um presidente que se sente preterido por um prêmio de paz?
