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Trump usa discurso do Estado da União para reagir a baixa popularidade

Donald Trump se prepara para subir à tribuna do Congresso, nas próximas semanas, para o discurso do Estado da União. A fala, tradição da política americana, marca na prática o pontapé da campanha para as eleições de meio de mandato e vira aposta central da Casa Branca para tentar reverter a baixa popularidade do republicano.

Casa Branca transforma rito em palanque eleitoral

O discurso vem em um momento delicado para o presidente. Pesquisas recentes mostram aprovação em torno de 40%, um dos menores índices para um ocupante da Casa Branca às vésperas das eleições legislativas desde a década de 1990. O governo enxerga o Estado da União como vitrine para apresentar números da economia, defender cortes de impostos e tentar convencer o eleitor de que o país segue em melhor situação do que sugerem os críticos.

Trump, porém, demonstra publicamente ceticismo sobre sua capacidade de mudar opiniões cristalizadas. Durante um evento na Casa Branca na segunda-feira (23), diante de apoiadores e assessores, ele se queixa da resistência de parte do eleitorado e da imprensa. “Se eu encontrasse a cura para o câncer, eles diriam que eu deveria ter feito isso anos atrás”, afirma. “Não há nada que eu possa fazer para que essas pessoas me deem crédito.” O desabafo expõe a tensão de um presidente que tenta transformar um ritual constitucional em ato de campanha, mas sabe que fala para um país profundamente dividido.

Economia em foco e disputa pelo controle do Congresso

O Estado da União funciona, desde o século XX, como prestação de contas anual à nação. Na prática, tornou-se o palco mais assistido da política americana. Em 2018, por exemplo, cerca de 46 milhões de pessoas acompanharam o discurso pela TV. Neste ano eleitoral, cada frase ganha peso adicional. Assessores trabalham para que Trump concentre a mensagem em um tema considerado seu trunfo: a economia. A Casa Branca prepara gráficos de crescimento do Produto Interno Bruto, índices de desemprego abaixo de 4% e recordes nas bolsas de Nova York como prova de que a agenda do presidente produz resultados concretos.

O objetivo imediato é defender o legado econômico e tentar blindar candidatos republicanos vulneráveis em estados competitivos. A eleição de meio de mandato renova todos os 435 assentos da Câmara e um terço do Senado, além de cargos estaduais. Uma derrota ampla pode entregar o controle da Câmara aos democratas, abrindo espaço para investigações mais agressivas sobre o governo e travando projetos prioritários. Um desempenho sólido no discurso, medido por pesquisas de opinião realizadas nas horas seguintes, ajudaria a consolidar a narrativa de que o país está no rumo certo, apesar da polarização.

Risco de isolamento maior em caso de fracasso

O desafio de Trump é transformar números econômicos em capital político em um ambiente de descrença. Segmentos centrais do eleitorado, como suburbanos de renda média e independentes, se mostram cansados de crises diárias e de conflitos com aliados históricos dos Estados Unidos. A fala no Congresso precisa dialogar com esse público, que decide disputas apertadas em estados como Pensilvânia, Michigan e Wisconsin. Assessores defendem um tom mais disciplinado, com menos improviso e ataques pessoais, para evitar que a mensagem econômica se perca em novas polêmicas.

Um discurso convincente fortalece candidatos aliados, melhora o clima interno no Partido Republicano e reduz o risco de deserções em votações-chave no Capitólio. Também amplia a margem de manobra para negociar com o Congresso em temas sensíveis, como orçamento e imigração, nos próximos 12 meses. Se a fala for recebida com frieza pela opinião pública, o efeito pode ser o oposto: aumento da resistência a Trump, mais distância de republicanos em estados competitivos e maior apetite democrata por investigações. O presidente entra no plenário ciente desse equilíbrio instável e da pergunta que atravessa Washington: um único discurso, mesmo em horário nobre, ainda é capaz de redesenhar o mapa político em um país tão polarizado?

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