Ultimas

Trump usa discurso do Estado da União para abrir disputa de meio de mandato

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, faz na noite de 23 de fevereiro de 2026 o discurso anual do Estado da União na Casa Branca. A fala, transmitida em rede nacional, marca o início não oficial da campanha para as eleições de meio de mandato e testa sua capacidade de recuperar apoio em meio a índices de aprovação baixos e ceticismo persistente.

Discurso vira palco de sobrevivência política

Trump entra no salão principal já ciente de que o texto que lê hoje vale mais do que um ritual constitucional. A fala funciona como vitrine de sua política econômica, tentativa de reorganizar a agenda doméstica e esforço calculado para reanimar uma base que dá sinais de fadiga. Pesquisas recentes apontam aprovação abaixo de 40%, com rejeição acima de 55%, número que assusta estrategistas republicanos às vésperas da disputa legislativa.

O presidente escolhe a própria Casa Branca como cenário para sublinhar controle e normalidade, em um momento em que adversários descrevem o governo como errático e isolado. Ele pretende listar realizações, citar índices de emprego, crescimento em torno de 2% ao ano e pacotes de desoneração anunciados nos últimos meses como prova de que a economia resiste, apesar da turbulência política e da desaceleração global.

Dentro do governo, auxiliares admitem que o discurso funciona como divisor de águas. Assessores econômicos pressionam por uma mensagem centrada em inflação controlada, consumo em recuperação e investimentos em infraestrutura com prazos claros, de 3 a 5 anos. O núcleo político insiste em frases de efeito para mobilizar redes sociais e reforçar o contraste com o Partido Democrata, que tenta transformar o pleito de meio de mandato em um referendo sobre a figura de Trump.

Ceticismo público e narrativa em disputa

O ambiente que antecede o pronunciamento ajuda a explicar o tom mais defensivo do presidente. Em reunião com apoiadores na Casa Branca, horas antes do discurso, Trump desabafa sobre a dificuldade de reverter a imagem negativa. “Se eu encontrasse a cura para o câncer, eles diriam que eu deveria ter feito isso anos atrás”, reclama. “Não há nada que eu possa fazer para que essas pessoas me deem crédito.” A frase circula entre interlocutores e expõe uma percepção de cerco permanente.

O desabafo serve de prévia para o tipo de confronto que ele planeja levar à televisão. Aliados indicam que Trump deve alternar momentos de tom institucional, ao falar em união nacional, com ataques diretos a críticos, à imprensa e a setores da oposição no Congresso. A estratégia mira a base que o sustenta desde 2016, cerca de um terço do eleitorado, e que segue fiel mesmo diante de crises sucessivas e escândalos recorrentes.

Esse público se beneficia de cortes de impostos, de flexibilização regulatória e de um mercado de trabalho ainda apertado em vários estados do cinturão industrial. Trabalhadores de baixa renda e minorias, em contrapartida, sentem com mais força o impacto de salários comprimidos, serviços públicos pressionados e benefícios sociais sob revisão. O discurso desta noite tenta resolver essa equação, apresentando a política econômica como motor de oportunidades para todos, enquanto opositores responsabilizam a Casa Branca pelo aumento da desigualdade e pela insegurança em setores como saúde e educação.

Congressistas democratas prometem reação imediata. A oposição prepara uma resposta oficial televisionada, com críticas à gestão fiscal e à condução da pandemia de anos anteriores, ainda presente na memória de milhões de famílias. Líderes do partido falam em “economia de duas velocidades”, na qual índices macroeconômicos melhoram, mas 40% da população lida com dívidas em atraso e dificuldade de acesso a crédito. O contraste entre os dois discursos ajuda a definir o enquadramento das eleições de novembro.

Mercados, Congresso e o teste de 2026

Investidores acompanham a noite com atenção semelhante à do campo político. Gestores de fundos observam sinais de nova rodada de estímulos ou de cortes adicionais de impostos para empresas, medidas que podem mexer com bolsas e juros já nesta semana. A forma como Trump descreve metas fiscais para 2027 e 2028 interessa diretamente a agências de classificação de risco, que avaliam a sustentabilidade da dívida americana, hoje acima de 120% do PIB.

No Congresso, a recepção ao discurso pode redefinir forças. Republicanos em estados competitivos calculam se vale associar a própria campanha à imagem de um presidente polarizador. Democratas tentam usar cada frase para alimentar anúncios, vídeos curtos e mensagens segmentadas em redes sociais, onde o tempo de reação se mede em minutos. A noite rende material bruto para ambos os lados e ajuda a determinar o tom do debate em temas como tributos, imigração e política externa.

O calendário é implacável. Em menos de nove meses, cerca de 435 cadeiras na Câmara e 34 no Senado estarão em disputa. Governos estaduais, assembleias locais e uma série de plebiscitos regionais também entram no radar, ampliando o alcance do que Trump pronuncia agora. Se a narrativa de recuperação econômica e de liderança forte emplaca, o presidente ganha fôlego para influenciar candidaturas republicanas e negociar com mais peso dentro do próprio partido.

Se o discurso não convence, cresce a possibilidade de uma onda de meio de mandato favorável à oposição, fenômeno recorrente na história recente dos Estados Unidos. Presidentes como Barack Obama e George W. Bush enfrentam derrotas expressivas nesse tipo de eleição, com impacto duradouro sobre sua capacidade de governar nos anos seguintes. Trump sabe que o palco desta noite não decide sozinho o futuro do mandato, mas define o tom da campanha e oferece uma rara chance de falar a dezenas de milhões de eleitores ao mesmo tempo.

Quando as luzes do salão se apagam e as câmeras se desligam, começa o verdadeiro teste do Estado da União de 2026: medir se as palavras do presidente conseguem atravessar o ruído, alterar percepções e movimentar votos em um país profundamente dividido.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *