Trump taxa Europa e evita dizer se usaria força para tomar Groenlândia
Donald Trump impõe tarifas a países europeus que se opõem à anexação da Groenlândia e se recusa a descartar o uso de força militar. A crise se intensifica entre 17 e 19 de janeiro de 2026, em plena disputa pelo futuro do Ártico.
Tarifas como arma em disputa territorial
O presidente dos Estados Unidos transforma a pauta comercial em instrumento de pressão territorial. No sábado, 17 de janeiro, ele anuncia tarifas de 10% contra uma série de países europeus que rejeitam a ideia de Washington anexar a Groenlândia. O aumento das taxas para 25% em junho entra no pacote de ameaças e funciona como recado direto às capitais europeias.
Em entrevista à NBC News, Trump é questionado se considera usar força militar para tomar a ilha. Ele responde apenas “sem comentários” e amplia a sensação de incerteza. A frase curta ecoa entre chancelerias europeias que já veem na escalada comercial um sintoma de algo maior, em um tabuleiro que mistura poder militar, energia e mudança climática.
O republicano não recua no discurso. Ao ser cobrado sobre o plano de taxar aliados, insiste: “Eu vou [seguir o plano], 100%”. A mensagem é de firmeza e deixa pouco espaço para negociação imediata. A Casa Branca aposta que a pressão econômica, combinada com ambiguidade estratégica sobre o uso da força, obrigará governos europeus a reduzir a resistência à anexação.
Trump também desloca o foco da cobrança europeia. “A Europa deveria se concentrar na guerra com a Rússia e a Ucrânia porque, francamente, vocês veem o que isso lhes trouxe. É nisso que a Europa deveria se concentrar — não na Groenlândia”, afirma à NBC. O comentário funciona como crítica política e tentativa de enquadrar o debate, colocando a ilha como questão secundária para os aliados, mas central para os Estados Unidos.
Groenlândia resiste e busca apoio internacional
Enquanto o presidente americano ameaça com tarifas e deixa em aberto a opção militar, a resposta em Nuuk segue linha oposta. Nesta segunda-feira, 19 de janeiro, o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirma publicamente que a ilha não vai ceder à pressão de Washington. Ele escolhe as redes sociais para enviar o recado e mira, ao mesmo tempo, o público interno e parceiros externos.
“Não nos deixaremos pressionar. Mantemo-nos firmes no diálogo, no respeito e no direito internacional”, escreve Nielsen em uma publicação no Facebook. A frase condensa a estratégia groenlandesa: não confrontar diretamente os Estados Unidos, mas enquadrar a disputa nas regras multilaterais e no princípio de autodeterminação. O governo tenta transformar vulnerabilidade geográfica em capital diplomático.
A tensão atual não surge do nada. O interesse de Washington pela Groenlândia é antigo e remonta ao pós-Segunda Guerra, quando os EUA já sinalizam disposição para comprar a ilha da Dinamarca. A tentativa volta ao noticiário em 2019, quando Trump, então em seu primeiro mandato, causa surpresa ao sugerir a compra do território. Agora, a ideia ressurge em escala maior, com a palavra “anexação” no centro do debate.
A diferença em 2026 está no contexto geopolítico. O Ártico ganha relevância com o derretimento do gelo, que abre rotas marítimas e aumenta o acesso a reservas de petróleo, gás e minerais estratégicos. Bases militares no extremo Norte também se tornam peças valiosas em qualquer disputa com Rússia e China. Nesse cenário, a Groenlândia deixa de ser apenas um território remoto e passa a ocupar posição de corredor estratégico entre América do Norte e Europa.
Impacto econômico e fissuras entre aliados
As tarifas de 10%, com ameaça de alta para 25% em junho, colocam pressão direta sobre exportadores europeus de bens industriais, agrícolas e de tecnologia. Empresas que dependem do mercado americano passam a revisar contratos, repensar investimentos e calcular se absorvem parte do custo ou repassam o aumento ao consumidor. Cadeias de suprimentos montadas ao longo de décadas sentem o impacto imediato da incerteza.
Governos europeus, por sua vez, se veem diante de uma equação delicada. Ceder na questão da Groenlândia significa legitimar, ainda que indiretamente, uma política de anexação que contraria o direito internacional e abre precedente para outros litígios territoriais. Resistir implica risco de dano econômico de curto prazo e possível escalada política com Washington. A coesão dentro da União Europeia e da Otan entra em teste.
Para os Estados Unidos, as tarifas podem ter efeito colateral. A medida fortalece correntes políticas europeias que defendem menor dependência comercial e militar de Washington. Também alimenta discursos favoráveis a novos acordos com outros grandes mercados, como China e Índia, em busca de contrapesos. A iniciativa de Trump, pensada como forma de constranger aliados, pode acelerar uma reconfiguração de alianças econômicas.
Na Groenlândia, a postura firme de Nielsen tem custo interno e ganho externo. O governo precisa acalmar setores preocupados com retaliações econômicas americanas, já que a presença dos EUA na ilha inclui bases militares e fluxos de recursos. Ao mesmo tempo, o discurso de respeito ao direito internacional tende a aproximar a ilha de países nórdicos e de organismos multilaterais, que veem na crise um teste à ordem global construída após 1945.
Incerteza sobre a força e próximos capítulos da crise
A recusa de Trump em dizer explicitamente se descarta o uso da força mantém a crise em zona cinzenta. A frase “sem comentários” vira peça central na leitura de analistas e diplomatas, que tentam calcular se o silêncio é apenas recurso retórico ou sinal de que o presidente quer preservar todas as opções sobre a mesa. Enquanto não há clareza, governos europeus reforçam monitoramento militar no Atlântico Norte e no Ártico.
Nos próximos meses, a data de junho, quando as tarifas podem subir para 25%, funciona como marco político e econômico. Entre agora e lá, europeus terão de decidir se mantêm a linha de resistência à anexação, se buscam uma saída negociada que preserve a integridade territorial da Groenlândia ou se respondem com contratarifas e ações em organismos internacionais. A ilha, por sua vez, tenta transformar o momento de maior exposição em trampolim para consolidar sua voz própria no sistema internacional.
A disputa em torno da Groenlândia testa a resiliência das regras que regem fronteiras, comércio e segurança desde o fim da Guerra Fria. A reação de Washington, de Copenhague, de Bruxelas e de Nuuk nos próximos meses dirá se esta crise será apenas mais um capítulo de tensão retórica ou o ponto de partida para uma nova ordem no Ártico.
