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Trump sinaliza disposição para negociar com Irã e critica novo líder

Donald Trump afirma, na noite de segunda-feira, que está disposto a negociar com o Irã e diz acreditar que Teerã quer conversar, apesar da tensão militar. O ex-presidente dos Estados Unidos, porém, volta a atacar o novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, e avalia que os recentes confrontos na região “vão além do esperado”.

Disposição para diálogo em meio a ataques

Em entrevista à Fox News, nos Estados Unidos, Trump relata ter ouvido de aliados e interlocutores que o regime iraniano demonstra “grande interesse” em abrir uma frente de diálogo com Washington. O comentário surge em um momento em que os Estados Unidos intensificam operações militares contra alvos ligados a Teerã e buscam conter novos lançamentos de mísseis e drones na região do Golfo Pérsico.

O republicano afirma que, mesmo sob pressão interna e externa, avalia uma saída negociada para a escalada recente. “Acho que eles querem falar. Acho que querem muito falar”, diz, segundo a emissora, ao comentar os sinais que recebe de fontes na região. O tom contrasta com declarações anteriores, em que Trump defende operações “fortes” contra o Irã e celebra resultados recentes.

Horas antes da entrevista, em coletiva de imprensa na segunda-feira, o ex-presidente já havia exaltado a operação militar mais recente conduzida pelos Estados Unidos contra alvos iranianos. Trump descreve a ação como “muito além do esperado”, sem detalhar números de baixas ou danos materiais. A fala reforça que, mesmo ao acenar para o diálogo, ele tenta sustentar a imagem de pressão máxima sobre Teerã.

Na mesma conversa com a Fox News, Trump afirma estar surpreso com a intensidade dos ataques iranianos a países do Golfo, realizados com mísseis e drones. Esses ataques se repetem nos últimos meses e atingem, em especial, infraestrutura de energia e instalações militares próximas a rotas estratégicas, que concentram boa parte do fluxo mundial de petróleo e gás natural.

Críticas ao novo líder iraniano e cenário regional

Trump guarda parte das declarações mais duras para o novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei. “Não acredito que ele possa viver em paz”, diz, em referência ao sucessor de Ali Khamenei no comando da República Islâmica. Na avaliação do republicano, a mudança na chefia máxima do regime não reduz a postura confrontacionista de Teerã, nem sinaliza abertura clara para concessões.

A transição na liderança iraniana ocorre em um contexto de ofensivas de grupos ligados ao Irã contra alvos israelenses e interesses americanos na região. Em paralelo, o governo de Benjamin Netanyahu mantém o discurso de endurecimento. Em declarações recentes, o premiê israelense promete seguir “quebrando os ossos” do Irã e diz que “ainda tem mais”, em referência a operações coordenadas com aliados.

No sul do Líbano, a tensão se reflete em ordens de evacuação em massa, emitidas pelo comando israelense depois de novos confrontos com o Hezbollah, grupo apoiado por Teerã. Milhares de civis deixam cidades próximas à fronteira em questão de horas, sob temor de bombardeios e incursões terrestres. O avanço de mísseis de longo alcance e drones armados, testados e empregados pelo Irã nos últimos anos, amplia o alcance do conflito e obriga países vizinhos a redesenhar planos de defesa.

Trump se insere nesse cenário como ator político ainda influente, mesmo fora da Casa Branca. Ao defender que a operação militar americana “funciona” e, ao mesmo tempo, acenar com a possibilidade de um acordo, ele tenta sustentar a narrativa de que pressão militar e negociação caminham juntas. A estratégia lembra a fase final de seu mandato, quando o governo americano combina sanções econômicas a conversas indiretas com representantes iranianos e europeus.

As declarações desta semana ganham peso porque ocorrem em meio a um ciclo de escalada que envolve, além de Irã e Israel, países do Golfo como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein. Esses países, que concentram mais de 20% das exportações globais de petróleo, calculam o impacto de cada novo ataque sobre o preço do barril, hoje sensível a qualquer interrupção nas rotas do Estreito de Ormuz.

Impacto geopolítico e o que pode mudar

A disposição declarada de Trump para negociar com Teerã abre uma fresta em um quadro de alta tensão. Se vier acompanhada de gestos práticos de ambos os lados, como redução de ataques ou suspensão de testes de mísseis, pode criar espaço para uma rodada de conversas mediadas por potências europeias ainda em 2026. Uma retomada formal de negociações sobre o programa nuclear iraniano, congelada desde a saída dos EUA do acordo em 2018, também volta ao radar de analistas.

Qualquer avanço nessa direção mexe com o cálculo político em Washington, Teerã e Jerusalém. Para os Estados Unidos, um acordo que reduza ataques na região tende a aliviar a pressão sobre bases militares e navios americanos no Oriente Médio. Também ajuda a conter oscilações bruscas no preço do petróleo, que chegam a variar mais de 10% em poucos dias após ataques de maior impacto.

No lado iraniano, uma negociação bem-sucedida pode abrir caminho para alívio de sanções que atingem a economia há mais de uma década, com inflação alta, desvalorização da moeda local e dificuldade de acesso a sistemas financeiros internacionais. O alívio, porém, depende de concessões que a nova liderança, sob Mojtaba Khamenei, pode resistir em fazer, especialmente em temas como apoio a grupos armados na região e desenvolvimento de mísseis de longo alcance.

Israel observa cada movimento com atenção. Um eventual entendimento entre Washington e Teerã pode limitar a liberdade de ação israelense em operações contra milícias pró-Irã no Líbano, na Síria e no Iraque. Ao mesmo tempo, um fracasso nas conversas pode fortalecer a ala israelense que defende ataques preventivos mais amplos contra instalações militares e nucleares iranianas, elevando o risco de confronto direto.

Países do Golfo, que nos últimos anos ensaiam aproximação cautelosa com Teerã, avaliam custos e benefícios de um acordo mais amplo. Setores como energia, transporte marítimo e defesa acompanham a cena de perto. Cada sinal de trégua tende a reduzir prêmios de risco em contratos de frete e seguros de navios que cruzam o Golfo, enquanto novos ataques rapidamente elevam custos logísticos e pressionam cadeias globais de suprimentos.

Próximos passos e incertezas

As falas de Trump não significam, por si só, uma guinada imediata na política americana para o Irã. Elas indicam, porém, que o ex-presidente enxerga espaço para capitalizar politicamente qualquer avanço diplomático, seja em um eventual retorno à Casa Branca, seja como voz influente no Partido Republicano. A resposta de Teerã, até agora, é cautelosa e não inclui compromisso público com negociações diretas.

Os próximos meses tendem a ser marcados por um jogo de sinais. Redução ou intensificação de ataques com drones e mísseis, novos testes de armamentos e movimentos diplomáticos em fóruns como a ONU vão indicar se o aceno de Trump encontra eco. A região continua em ponto de ebulição, e a pergunta que permanece é se o caminho escolhido será o da barganha à mesa de negociação ou o da escalada no campo de batalha.

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