Trump retira convite a Carney para Conselho da Paz após fala em Davos
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retira o convite ao premier canadense, Mark Carney, para integrar o Conselho da Paz. A decisão é tomada nesta sexta-feira (23), após declarações de Carney em Davos sobre o fim da hegemonia americana.
Fala em Davos desencadeia reação imediata
Trump reage poucas horas depois de Carney afirmar, em painel no Fórum Econômico Mundial, que “a era da hegemonia dos Estados Unidos chegou ao fim”. A frase circula entre delegações ainda durante a manhã em Davos, e auxiliares da Casa Branca relatam irritação crescente do presidente ao acompanhar a repercussão pela televisão e por relatórios internos.
O convite ao premier canadense para o Conselho da Paz, grupo criado por Washington para discutir saídas negociadas em conflitos regionais, havia sido formalizado no fim de 2025. Na ocasião, o gesto é apresentado como prova de alinhamento estratégico entre os dois países, que movimentam juntos mais de US$ 2 trilhões em comércio anual. Em 23 de janeiro de 2026, esse símbolo de cooperação se desfaz em um telefonema direto de Trump à equipe de Carney, segundo fontes diplomáticas ouvidas sob reserva.
Relação bilateral entra em zona de tensão
A retirada do convite expõe de forma pública o desgaste nas relações entre os dois vizinhos, que atravessam um momento sensível de renegociação comercial e de ajustes em acordos de segurança. Em Washington, assessores reconhecem reservadamente que a decisão tem forte componente pessoal e simbólico. “O presidente não aceita que parceiros tratem a liderança americana como assunto do passado”, afirma um conselheiro próximo, sob condição de anonimato.
Em Ottawa, integrantes do governo canadense tentam reduzir a temperatura em conversas com aliados europeus e asiáticos. A avaliação é que o episódio pode contaminar discussões sobre tarifas agrícolas, regras ambientais para a indústria de petróleo e gás e cooperação em defesa aérea ao longo da fronteira do Ártico, área estratégica diante da projeção da Rússia e da China. Diplomaticamente, Carney é apresentado há anos como interlocutor pragmático com Washington, mas o comentário em Davos rompe esse equilíbrio.
Conselho da Paz perde alcance e gera incertezas
O Conselho da Paz, idealizado pela Casa Branca para reunir cerca de 15 líderes e ex-líderes globais, nasce com a missão de articular cessar-fogos, corredores humanitários e mediações discretas. A ausência de um dos principais parceiros do G7 reduz o peso político do grupo e lança dúvidas sobre sua capacidade de operar em crises que envolvam interesses diretos do Canadá, como a segurança energética do Atlântico Norte ou disputas comerciais com a Europa.
Analistas em política externa calculam que a decisão de Trump pode repercutir em três frentes imediatas: confiança entre aliados, previsibilidade nas negociações e disposição de outros líderes em aceitar convites americanos. Quando um convite desse porte é revogado em menos de 12 meses, o sinal enviado, dizem eles, é de que a política dos EUA responde rapidamente a declarações públicas, mesmo quando feitas em fóruns multilaterais como Davos, que costumam tolerar diagnósticos mais francos sobre o sistema internacional.
Disputa pela narrativa da ordem global
A frase de Carney em Davos ecoa discussões que dominam o debate geopolítico desde pelo menos a crise financeira de 2008 e o avanço econômico da China. Ao afirmar que a supremacia americana termina, o premier canadense vocaliza, de maneira direta, um argumento que parte da academia e de governos emergentes vem repetindo há quase duas décadas: o poder global migra para uma configuração mais distribuída, com polos relevantes na Ásia, na Europa e em países do Sul Global.
Para Trump, admitir publicamente esse diagnóstico equivale a legitimar a ideia de declínio dos Estados Unidos, algo que ele rejeita desde a campanha de 2016. Em discursos, o presidente insiste que Washington segue como “poder indispensável”, responsável por cerca de um quarto do PIB mundial e por um orçamento de defesa que supera, sozinho, a soma dos dez países seguintes. “Quem aposta contra os Estados Unidos perde”, costuma repetir em comícios e entrevistas.
Impactos práticos para economia e segurança
No curto prazo, a decisão não rompe acordos formais entre os dois países, mas adiciona atrito a mesas já complexas. Negociações sobre novas metas de descarbonização para 2030, sobre a circulação de bens de tecnologia sensível e sobre medidas de proteção a cadeias de suprimentos podem sofrer atrasos. Diplomaticamente, cada rodada ganha uma camada extra de desconfiança.
Setores empresariais dos dois lados da fronteira acompanham o movimento com preocupação. Exportadores de automóveis, minério, energia e produtos agrícolas dependem de fronteiras previsíveis e de regras estáveis. Um aumento de tensões políticas costuma se refletir em exigências adicionais de certificação, revisões de subsídios ou discussões mais duras sobre cotas, ainda que o comércio siga formalmente aberto. Na área de segurança, oficiais veem risco de ruído em operações conjuntas de vigilância aérea e marítima, embora programas estruturais, como a cooperação no comando de defesa aeroespacial do Norte, sigam intactos por ora.
O que observar a partir de agora
Diplomatas em Nova York e Genebra esperam sinais nos próximos dias sobre possível recomposição dos canais políticos entre os dois governos. Uma declaração pública de Carney, esclarecendo o contexto de sua fala em Davos, poderia abrir espaço para um gesto de distensão, segundo interlocutores próximos ao premier. Até o momento, porém, a orientação em Ottawa é manter o tom institucional e evitar escalada retórica.
Trump, por sua vez, aposta que a demonstração de força reforça sua imagem doméstica e preserva a narrativa de liderança incontestável dos Estados Unidos. O episódio, contudo, deixa em aberto uma questão central para aliados e rivais: até que ponto a política externa americana seguirá condicionada a reações imediatas a discursos em palcos globais, em um cenário de poder cada vez mais distribuído e contestado.
