Trump repete tática de livro e eleva tensão no Estreito de Ormuz
Donald Trump amanhece nesta terça-feira (7) retomando a própria cartilha de 1987. O presidente dos Estados Unidos exige a abertura imediata do Estreito de Ormuz e ameaça “aniquilar uma civilização” se o Irã não ceder.
Cartilha de 1987 volta ao centro do tabuleiro
A frase soa nova, mas o enredo é antigo. Em “Trump: The Art of the Deal”, best-seller lançado em 1987, o então magnata imobiliário descreve uma abordagem “selvagem”: o negociador deve “pedir o mundo” logo no início, por meio de exigências máximas e ameaças de destruição, para empurrar o outro lado em direção a concessões. Quase 40 anos depois, o presidente repete em escala geopolítica a lógica que narra ao tratar de um hotel em Nova York.
No livro, escrito em parceria com o jornalista Tony Schwartz, Trump conta como abre as tratativas pedindo uma isenção fiscal “sem precedentes” para erguer o Grand Hyatt, em Manhattan. “Fui lá e pedi o mundo — uma isenção fiscal sem precedentes — partindo do princípio de que, mesmo que fosse reduzida, a redução ainda seria suficiente”, relata, em trecho resgatado pelo g1. Na página, o método permanece restrito a escritórios, tabelas e plantas de empreendimentos. No governo, migra para a arena militar e nuclear.
A sequência das últimas horas segue o roteiro. Pela manhã, Trump eleva o tom, vincula a abertura imediata do Estreito de Ormuz à sobrevivência de “toda uma civilização” e fala em destruição total, caso o Irã não libere a passagem estratégica. Horas depois, recua da ameaça explícita de aniquilação. A porta volta a se abrir para sanções econômicas, pressões diplomáticas e negociações indiretas, com chanceleres e emissários europeus tentando conter o avanço da crise.
Do mercado imobiliário ao Golfo Pérsico
O Estreito de Ormuz concentra cerca de 20% de todo o petróleo que circula pelo mar no planeta. A faixa de água, com menos de 50 quilômetros no ponto mais estreito, funciona como gargalo entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico. Cada navio parado ali por 24 horas agrega incerteza a preços internacionais de energia, contratos de entrega e projeções de inflação no mundo inteiro. Quando o presidente da maior economia do planeta fala em destruição ligada a esse corredor, o efeito é imediato.
Bolsa de valores reage a cada frase que sai da Casa Branca. Operadores recalculam riscos em minutos, bancos revêm apostas, companhias aéreas redesenham rotas para evitar a zona de tensão. O Irã, alvo direto da pressão, busca mostrar que não cede sob ameaça. Autoridades em Teerã reforçam que qualquer abertura do estreito precisa vir acompanhada de garantias de segurança e de respeito a sua soberania. Entre os dois discursos, a temperatura sobe na região, onde cerca de 40 mil militares americanos se distribuem em bases pelo Golfo.
A tática de inflar o ponto de partida permite a Trump explorar politicamente o recuo posterior. No livro, o recuo parcial ainda rende um ganho financeiro considerável. Nas negociações com o Irã, o recuo pode significar a troca de uma promessa de ataque devastador por um novo pacote de restrições comerciais, congelamento de ativos ou embargo tecnológico. Na prática, o “meio-termo” continua duro para o lado iraniano, mas é apresentado à opinião pública americana como solução moderada frente a uma alternativa apocalíptica.
Especialistas em segurança veem na repetição do método um risco estrutural. O cálculo que funciona em uma mesa de negócios depende, no cenário internacional, da leitura e da calma do adversário. Erros de interpretação, ruídos em canais diplomáticos e mudanças internas em Teerã podem transformar uma ameaça de fachada em confronto real em poucas horas. Um míssil disparado por engano, um ataque atribuído ao lado errado ou um navio confundido com alvo militar bastam para deflagrar uma escalada que ninguém controla.
Pressão máxima, ganhos imediatos e riscos duradouros
No curto prazo, a tática rende trunfos políticos. A base mais fiel de Trump enxerga firmeza e liderança em declarações que falam em “civilização destruída”. Cada recuo calculado é vendido como gesto responsável. O presidente aparece como alguém que sabe “ir até o limite” para proteger o país, mas recua “na hora certa”. Em ano de campanha intensa, esse contraste rende minutos preciosos em telejornais americanos e milhões de interações nas redes sociais.
O custo recai sobre governos que dependem da estabilidade do Golfo. Países europeus, grandes compradores de petróleo do Oriente Médio, agora desenham planos alternativos de fornecimento para evitar que um bloqueio de 72 horas desorganize cadeias industriais inteiras. Importadores na Ásia monitoram cada comunicado de Teerã e de Washington, enquanto companhias de energia tentam segurar reajustes de combustíveis por algumas semanas. No Brasil, qualquer alta brusca no barril pressiona o diesel e a gasolina e volta ao centro do debate político interno.
Iranianos comuns sentem a pressão de forma mais direta. A cada rodada de sanções, a moeda local perde valor, produtos importados ficam mais caros e empresas veem clientes sumirem. A metáfora do “peça o mundo para ganhar metade” ganha contornos concretos em prateleiras vazias, filas em bancos e salários corroídos pela inflação. Um movimento calculado em Washington altera a rotina de famílias a mais de 11 mil quilômetros de distância.
Para Estados Unidos e Irã, a repetição do roteiro também limita margens futuras de negociação. Quando uma das partes acostuma o mundo a ouvir ameaças de destruição total, qualquer gesto real de escalada encontra menos espaço para surpresa. O adversário passa a calibrar sua própria resposta partindo da premissa de que a retórica vem inflada, o que pode atrasar reações em situações de risco verdadeiro.
O que está em jogo nas próximas rodadas
A suspensão da ameaça direta feita por Trump nesta terça-feira não encerra a crise. Diplomatas falam em uma janela de dias, talvez semanas, para que canais indiretos de diálogo avancem sobre um pacote de medidas que inclua algum grau de abertura do Estreito de Ormuz, compensações econômicas e, possivelmente, limites adicionais ao programa nuclear iraniano. Nada se define antes de Teerã medir o custo político interno de ceder após uma frase que associa sua decisão à morte de “toda uma civilização”.
Os próximos movimentos indicam se a tática descrita em 1987 continua apenas uma ferramenta de barganha ou se vira gatilho de um confronto com impacto global. Governos aliados acompanham cada sinal emitido por Washington e por Teerã na tentativa de manter uma linha de comunicação capaz de evitar erros de cálculo. Enquanto isso, o mercado conta o tempo em horas, navios esperam aval para cruzar o estreito e o mundo testa, mais uma vez, até onde a “arte da negociação” resiste quando o tabuleiro envolve armas reais, rotas de energia e milhões de vidas.
