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Trump redefine ordem mundial ao desafiar ONU e OTAN, diz Magnoli

Em 23 de janeiro de 2026, o sociólogo Demétrio Magnoli afirma que Donald Trump conduz o mundo a uma nova ordem baseada na força. Na análise, o ex-presidente dos EUA desmonta a arquitetura internacional construída após 1945 e ameaça transformar crises regionais em um sistema de confronto permanente entre potências.

Da Groenlândia a Gaza, um fio condutor

As crises da Groenlândia e de Gaza funcionam, para Magnoli, como chave para entender a política externa de Trump. A disputa pela ilha ártica e o impasse no Oriente Médio não são episódios isolados ou caprichos pessoais, mas etapas de um projeto mais amplo: quebrar a ordem multilateral que nasce no pós-guerra e substituí-la por um mundo regido pela lei do mais forte.

Em Paris, Emmanuel Macron reage com perplexidade quando Trump insiste em obter a “posse” da Groenlândia, território autônomo sob soberania da Dinamarca. Um editorial da Folha registra na época que a obsessão “desafia a razão”. Magnoli discorda da leitura literal. Para ele, a chave está em separar a razão racional, que mostra que Washington não precisa controlar formalmente a ilha para garantir segurança militar ou explorar minérios, da razão ideológica, que expõe a intenção de fundo da Casa Branca.

O alvo central não é o gelo da Groenlândia, mas a coluna vertebral da aliança ocidental. A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, formulada sob Trump, fala em “declínio civilizacional” da Europa e sugere que a regeneração do continente depende da chegada ao poder de partidos de direita radical. O texto marca uma ruptura: em vez de ver a União Europeia como parceira, o governo americano passa a tratá-la como rival estratégica.

Na prática, a mudança corrói a Organização do Tratado do Atlântico Norte, criada em 1949. Trump retrata a OTAN como um fardo que consome recursos dos EUA e limita suas opções militares. O compromisso de defesa mútua previsto no artigo 5º, que por sete décadas funciona como pilar de segurança europeia, torna-se, sob ameaça e desconfiança, uma promessa esvaziada. “À sombra das ameaças militares pronunciadas pela Casa Branca, o compromisso de defesa mútua da Otan torna-se uma casca vazia”, escreve Magnoli.

Desmonte institucional e nova lógica de poder

A erosão da OTAN ganha peso extra com a guerra na Ucrânia. A invasão russa, iniciada em 24 de fevereiro de 2022, deixa mais de 10 milhões de deslocados e centenas de milhares de baixas diretas e indiretas. Magnoli argumenta que, graças ao comportamento de Trump, Moscou conquista algo que o Kremlin não ousava sonhar: não apenas influência sobre o Donbass, mas a perspectiva de destruição da Aliança Atlântica, prêmio estratégico muito mais valioso que qualquer faixa de território.

No Oriente Médio, o mesmo padrão se repete sob outra forma. A trégua negociada por Trump em Gaza, celebrada inicialmente como feito diplomático, consolida-se como um cessar-fogo “zumbi”. O fogo intenso diminui, mas a promessa de avançar para uma solução de dois Estados, eixo de inúmeros planos desde os anos 1990, não sai do papel. Os Estados Unidos não mostram disposição real de pressionar Israel e Hamas para cumprir o roteiro original.

Trump usa o impasse como trampolim para apresentar seu projeto mais ambicioso: o Conselho da Paz. O organismo nasce como um clube privado de líderes globais, sob sua presidência permanente, anunciado como alternativa à Organização das Nações Unidas. Vladimir Putin aceita o convite, de olho em ganhar foro de negociação direto com Washington sobre a Ucrânia e a Europa Oriental. Xi Jinping, preocupado com a expansão da influência americana no chamado Hemisfério Ocidental, resiste a integrar o grupo.

O contraste com as instituições existentes é frontal. A OTAN se ancora na cooperação militar entre democracias soberanas, com decisões tomadas por consenso entre 32 países. A Carta da ONU, assinada em 26 de junho de 1945, consagra princípios como autodeterminação dos povos e inviolabilidade das fronteiras. O Conselho da Paz de Trump rejeita essas amarras. Não há compromisso formal com democracia, não há regras estáveis, não há mecanismo de responsabilização. “Sua única norma implícita é a subordinação à figura de seu fundador e presidente perpétuo”, resume Magnoli.

Na leitura do sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial” e doutor em geografia humana pela USP, o movimento representa um retrocesso civilizacional. O sistema criado depois da Segunda Guerra, com todos os seus impasses, inibe conquistas imperiais diretas e oferece alguma previsibilidade a países médios e pequenos. A lógica trumpista coloca essas nações diante de uma escolha brutal: submeter-se à esfera de influência de uma potência ou arriscar o isolamento em um ambiente hostil.

Guerra de todos contra todos e o que vem a seguir

A nova ordem que emerge tem contornos hobbesianos. Magnoli recorre à imagem clássica da “guerra de todos contra todos”, formulada no século 17 por Thomas Hobbes, para descrever o mundo desejado por Trump. Não se trata apenas de mais conflitos, mas de um sistema em que nenhuma regra é estável e nenhum foro é reconhecido como legítimo por todos os lados. Cada potência negocia diretamente com outra, em blocos de tempo curtos, trocando apoio por concessões territoriais, militares ou econômicas.

Na prática, isso significa mais crises regionais sem árbitro confiável. A União Europeia tende a endurecer sua postura de rivalidade com Washington, o que alimenta disputas comerciais, tecnológicas e energéticas. Países em zonas de conflito, como os envolvidos nas guerras em Gaza e na Ucrânia, correm o risco de ficar à margem de qualquer mediação efetiva. Sem uma ONU respeitada e sem uma OTAN coesa, a linha entre pressão diplomática e ação armada fica mais tênue.

A ideia de “paz” também muda de sentido. No concerto de potências imaginado por Trump, paz não é ausência de guerra, mas nome de um acordo temporário imposto pelo mais forte. “’Paz’ é o nome com o qual batiza o direito da força”, escreve Magnoli. A fórmula abre espaço para trocas tácitas, como reconhecer anexações de fato em troca de vantagens comerciais ou de acesso a recursos naturais, inclusive nas áreas polares e em rotas estratégicas do Ártico.

Os próximos anos tendem a testar os limites dessa arquitetura paralela. Se o Conselho da Paz se consolidar como foro preferencial de grandes líderes, a ONU corre o risco de virar cenário vazio para discursos, enquanto decisões reais migram para mesas fechadas e agendas opacas. Se perder relevância, o sistema pode empurrar potências em direções ainda mais nacionalistas e imprevisíveis. O que está em jogo, na avaliação de Magnoli, não é apenas o lugar dos Estados Unidos, da Rússia ou da China, mas a própria ideia de que a força deve ser contida por regras comuns.

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