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Trump prepara narrativa de vitória para saída da guerra com o Irã

A Casa Branca acelera, nesta quinta-feira (12 de março de 2026), a construção de uma narrativa de vitória na guerra contra o Irã para sustentar uma futura retirada das tropas americanas. Em meio à escalada militar no Oriente Médio e à disparada do preço do petróleo, o governo Donald Trump tenta conciliar promessas de campanha com uma realidade de conflito aberto e sem fim claro.

Vitória no discurso, incerteza no campo de batalha

No núcleo do governo, assessores próximos de Trump roteirizam um desfecho em que o presidente anuncia uma rendição incondicional da República Islâmica, ainda que Teerã jamais assine qualquer documento. A ideia, segundo interlocutores, é oferecer ao eleitor americano uma imagem de triunfo que permita encerrar a operação militar sem admitir derrota nem impasse.

O Secretário de Defesa, Pete Hegseth, reforça em público essa lógica de que a guerra se dobra à vontade do presidente. “Só Trump pode julgar se a guerra está no começo, no meio ou no fim”, afirma, em tom que transforma o chefe da Casa Branca em árbitro da própria realidade. O cálculo político ignora, porém, a resistência dos líderes revolucionários iranianos, que enxergam o conflito como uma luta existencial pela sobrevivência do regime.

Quase 20 anos depois do auge das guerras do Iraque e do Afeganistão, o cenário se repete com outros atores. O Irã, bombardeado por campanhas aéreas lideradas por Estados Unidos e Israel, perde infraestrutura militar, mísseis e ativos nucleares. Ainda assim, qualquer resultado que fique aquém do colapso total do regime tende a ser vendido internamente, em Teerã, como vitória pela simples sobrevivência ao ataque da maior potência militar do planeta.

A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, tenta reduzir o alcance literal da fala de Trump sobre rendição. Questionada sobre o que significa uma “rendição incondicional” iraniana, ela responde que não se trata de esperar que o regime apareça diante de câmeras para admitir derrota. “O que o presidente quer dizer é que as ameaças do Irã não serão mais apoiadas por um arsenal de mísseis balísticos”, diz. Na prática, o recuo abre espaço para uma espécie de rendição invisível, certificada apenas por Washington.

Crise do petróleo amplia pressão sobre Trump

Enquanto o governo calibra o discurso, o relógio econômico corre rápido. A guerra provoca uma crise do petróleo que ameaça empurrar o mundo para uma nova recessão. O Golfo Pérsico, que concentra cerca de 30% das exportações globais de petróleo, sofre com ataques a terminais, oleodutos e navios. O estreito de Ormuz, por onde passa algo em torno de 20% do petróleo comercializado no planeta, vira alvo de minas e drones iranianos.

Nos Estados Unidos, o impacto chega às bombas de gasolina. O galão supera sucessivamente patamares que pesam no bolso de famílias e empresas, reacendendo memórias das crises energéticas dos anos 1970. Trump insiste que os preços elevados são “temporários”, mas enfrenta a matemática política de um eleitorado sensível a qualquer centavo a mais por litro. Em ano de segundo mandato, o custo da guerra se soma às promessas de 2016 e 2020 de não iniciar novos conflitos.

Hegseth tenta acalmar a base militar que carrega as marcas das guerras pós-11 de setembro. Veterano condecorado do Iraque e do Afeganistão, ele jura que a atual ofensiva é diferente. “Isto não é uma construção de nação sem fim sob aqueles tipos de atoleiros que vimos sob Bush ou Obama. Não chega nem perto”, afirma. A resposta que oferece, porém, é uma escalada: “um tipo de guerra mais letal e sem restrições”, baseada em ataques aéreos e operações especiais, como a que derrubou o então presidente da Venezuela.

Essa estratégia de alta tecnologia e baixa presença em terra reduz, no curto prazo, o número de soldados americanos expostos, mas não resolve a equação política. O Irã responde com guerra assimétrica: drones baratos, mísseis contra bases no Golfo, sabotagem a rotas marítimas e eventual ativação de aliados como Hezbollah e Hamas. Cada novo ataque alimenta um ciclo de retaliação que torna mais difícil qualquer anúncio crível de “missão cumprida”.

Um fim de jogo sem final claro

A história recente das intervenções americanas ronda cada decisão. No Vietnã, no Iraque e no Afeganistão, Washington enfrentou inimigos militarmente inferiores, mas adaptáveis, que exploraram terreno, cultura e paciência da opinião pública. As guerras começaram com objetivos claros e promessas de vitória rápida, e terminaram em retiradas negociadas, desgaste interno e poucos ganhos duradouros.

O conflito com o Irã repete o padrão em outra escala. Trump oscila na justificativa: fala em destruir o programa nuclear que dizia ter “obliterado”, ameaça mudança de regime e, no instante seguinte, sugere que pode negociar com um líder religioso iraniano. A falta de metas definidas gera dúvidas não apenas entre adversários, mas também entre aliados no Oriente Médio, de Israel a monarquias do Golfo, que veem na continuidade da guerra um risco permanente de transbordamento regional.

Analistas em Teerã e em capitais ocidentais convergem em um ponto: a definição de vitória muda conforme o lado. “Para a liderança iraniana, trata-se de poder dizer que sobrevivemos”, resume Mohammad Ali Shabani, editor do site Amwaj.media, em entrevista à CNN Internacional. Para Trump, a vitória possível pode ser uma combinação de dano estrutural ao aparato militar iraniano, redução da capacidade balística e um anúncio coreografado de rendição que agrade à sua base.

Os próximos meses tendem a cristalizar essa disputa de narrativas. Se a pressão econômica global da alta do petróleo aumentar, aliados europeus e asiáticos devem cobrar, com mais força, um cessar-fogo ou uma negociação. Se o Irã mantiver ataques pontuais, mas evitar um confronto aberto e direto, terá argumentos internos para sustentar que desafiou, mais uma vez, a hegemonia americana. Trump, por sua vez, ficará diante de um dilema conhecido em Washington: fabrica uma vitória parcial e sai, sob risco de ser desmentido pelos fatos, ou aprofunda uma guerra que prometeu não começar.

Em um Oriente Médio marcado por décadas de sangue, nenhuma dessas saídas garante estabilidade. O que Trump decidir agora definirá não apenas o saldo de seu segundo mandato, mas também o próximo capítulo da longa disputa entre Estados Unidos e Irã, que já atravessa quase meio século de confrontos diretos e por procuração.

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