Trump posta imagem fincando bandeira dos EUA na Groenlândia
Donald Trump publica nas redes, nesta terça-feira (20.jan.2026), uma imagem em que aparece fincando a bandeira dos Estados Unidos na Groenlândia. Na mesma sequência de posts, o republicano confirma reunião com o secretário-geral da Otan e volta a atacar o Reino Unido e os democratas americanos.
Imagem reacende disputa simbólica no Ártico
A foto circula por volta da manhã em Washington e rapidamente domina o debate político nos Estados Unidos e na Europa. A montagem mostra Trump em posição de conquista, cravando o mastro com a bandeira americana sobre uma paisagem gelada, associada à Groenlândia. A mensagem chega quase cinco anos após a Casa Branca, sob seu governo, cogitar publicamente comprar o território, em 2019, proposta que provoca reação dura do governo dinamarquês.
Desta vez, Trump não fala em negociação formal, mas usa a imagem para sugerir que os EUA precisam “marcar posição” na região. Em um dos textos que acompanham a publicação, ele afirma que a Groenlândia é “vital para a segurança e para o futuro energético dos Estados Unidos”. A frase ecoa relatórios do Pentágono e de centros de pesquisa que, desde pelo menos 2018, apontam o Ártico como fronteira estratégica diante da presença crescente de Rússia e China.
O gesto digital não é isolado. Na mesma série de posts, Trump diz que se reúne “nos próximos dias” com o secretário-geral da Otan para discutir segurança no Atlântico Norte e no Ártico. Ele não informa a data exata, mas fala em “agenda urgente” e em “falhas graves” da aliança militar. O encontro, se confirmado no calendário oficial, ocorre em um momento em que a Otan amplia exercícios militares em áreas próximas ao Círculo Polar e reforça bases na Noruega, na Islândia e na própria Groenlândia, que abriga instalações americanas desde a Guerra Fria.
A reação internacional não demora. Diplomatas europeus ouvidos sob reserva classificam a imagem como “provocação desnecessária”, diante da sensibilidade da soberania da Groenlândia, território autônomo sob o Reino da Dinamarca. Fontes em Copenhague lembram que cerca de 56 mil habitantes vivem na ilha, muitos deles de povos inuítes, e que qualquer discussão sobre presença externa precisa respeitar acordos locais. A embaixada dinamarquesa em Washington evita declaração oficial imediata, enquanto monitora o impacto da postagem na política doméstica do país nórdico.
Críticas a aliados expõem tensão com Reino Unido e democratas
A sequência de mensagens de Trump vai além da Groenlândia. Em outro post, o ex-presidente acusa o Reino Unido de “fraqueza estratégica” e diz que Londres “abandona o Atlântico Norte para agradar burocratas de Bruxelas”. A crítica contrasta com o histórico de parceria entre os dois países, reforçado em acordos militares e de inteligência desde a 2ª Guerra Mundial. De acordo com dados oficiais, mais de 15% das operações conjuntas da Otan em 2025 envolvem diretamente forças americanas e britânicas.
O alvo interno também está definido. Trump retoma o discurso contra os democratas, a quem acusa de “entregar o Ártico de bandeja para nossos adversários” ao, segundo ele, reduzir investimentos em defesa e atrasar decisões sobre novas bases. Parlamentares democratas reagem nas redes e lembram que o orçamento militar dos EUA ultrapassa US$ 800 bilhões por ano desde 2023, valor superior à soma dos gastos de ao menos dez países seguintes na lista, incluindo Rússia e China. Para aliados de Joe Biden, a crítica ignora a aprovação de pacotes bilionários de modernização naval e aérea voltados justamente para áreas polares.
Analistas de política externa veem na ofensiva digital uma tentativa de reposicionar Trump como protagonista no debate de segurança internacional. A Groenlândia torna-se símbolo conveniente. O território tem reservas estimadas de minerais críticos, como terras-raras e urânio, além de acesso facilitado a novas rotas marítimas que se abrem no verão com o derretimento do gelo. Estudos citados por think tanks americanos projetam que, até 2035, o tráfego comercial no Ártico pode crescer mais de 50%, encurtando em até dez dias a viagem entre portos da Ásia e da Europa.
Especialistas ouvidos por canais de TV americanos avaliam que o gesto visual de Trump antecipa uma agenda mais assertiva caso ele volte a ocupar espaço institucional. Um ex-negociador do Departamento de Estado, que trabalha hoje em consultoria privada, resume a leitura: “Quando ele finca a bandeira na Groenlândia, ele fala menos da ilha e mais de uma visão de mundo em que os EUA competem frontalmente com qualquer rival, inclusive aliados que considera fracos”.
Estratégia no Ártico ganha peso e desafia próximos passos diplomáticos
A repercussão imediata da postagem atinge três frentes. No plano militar, reforça o debate sobre ampliar a presença da Otan e dos EUA em bases já existentes na região. A instalação aérea de Thule, no noroeste da Groenlândia, integra o sistema de defesa antimísseis americano e monitora lançamentos no Atlântico Norte e no Ártico. Oficiais ouvidos por jornais americanos admitem, em caráter reservado, que qualquer escalada de tensões acelera planos de modernização de radares e pistas.
No plano econômico, empresas de mineração e de energia acompanham com atenção. Companhias dos Estados Unidos, da China e da Europa disputam licenças para explorar jazidas de minerais estratégicos, enquanto governos locais tentam equilibrar receita e preservação ambiental. Ambientalistas lembram que a temperatura média no Ártico aumenta em ritmo até quatro vezes mais rápido que a média global, segundo medições divulgadas desde 2022, e alertam que corrida por recursos pode agravar o cenário climático.
Na política interna americana, aliados de Trump veem na imagem um teste de mobilização. A postagem chega a milhões de usuários em poucas horas somando visualizações em diferentes plataformas. Estrategistas republicanos calculam que o tema segurança no Ártico e rivalidade com China e Rússia ajuda a unificar a base. Democratas, por outro lado, temem que a disputa simbólica empurre o debate para posições mais extremas, dificultando acordos bipartidários sobre orçamento militar e clima.
Diplomatas europeus esperam que a reunião com o secretário-geral da Otan esclareça se a imagem da bandeira representa apenas retórica de campanha ou sinaliza pressão concreta por novos compromissos dos aliados. Governos de países árticos, como Noruega, Islândia e Dinamarca, cobram que qualquer decisão leve em conta comunidades locais e evite militarização excessiva da região.
Os próximos dias indicam se a ofensiva digital de Trump se limita ao campo simbólico ou se se transforma em proposta formal de política externa. A foto na Groenlândia condensa disputas por território, recursos e influência que se estendem até a próxima década. A principal incógnita, agora, é se os Estados Unidos escolhem administrar essa tensão por meio de instituições multilaterais ou por gestos unilaterais que podem redesenhar, outra vez, o mapa político do Ártico.
