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Trump lança Conselho de Paz que ameaça esvaziar a ONU e convida Lula

Donald Trump anuncia nesta terça-feira (20), na Flórida, a criação de um Conselho de Paz que, segundo ele, pode substituir a ONU. O presidente dos Estados Unidos confirma convites a Luiz Inácio Lula da Silva, Vladimir Putin e Volodymyr Zelenski, e provoca reação imediata de aliados tradicionais.

Trump testa limites da ordem internacional

O plano nasce como desafio direto ao sistema multilateral construído desde 1945. Trump afirma que a nova estrutura começa examinando a guerra em Gaza e, depois, se expande para outros conflitos, como a guerra na Ucrânia. O republicano volta a acusar a ONU de fracassar na prevenção de crises e na mediação de acordos duradouros.

Ao confirmar o convite a Lula, Trump indica que o Brasil terá papel de destaque na empreitada. “Convidei o presidente Lula. Ele vai ter um grande papel. Eu gosto dele”, declara, em tom cordial incomum para um líder que passa anos atacando governos de esquerda na América Latina. O gesto tenta atrair um país que hoje ocupa lugar relevante em negociações sobre clima, comércio e conflitos.

O americano também confirma o aceno a Vladimir Putin. “Sim, ele foi convidado”, responde, ao ser questionado por jornalistas na Flórida. A presença do líder russo, acusado no Ocidente de comandar uma invasão ilegal da Ucrânia desde fevereiro de 2022, transforma o Conselho de Paz em ponto imediato de atrito com aliados europeus.

Trump insiste que a nova entidade é capaz de preencher um vácuo. Diz que as Nações Unidas “nunca ajudaram os Estados Unidos a acabar com nenhuma guerra” e que sua administração “reconstrói o setor militar” do país. Em seguida, eleva o tom: “O Conselho de Paz pode substituir as Nações Unidas”, afirma, ao comentar o balanço de seu primeiro ano no segundo mandato presidencial.

Reações duras a Putin e ameaça de tarifas à França

O convite a Putin provoca resposta imediata em Londres. O porta-voz do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, diz que o governo está “preocupado” com a possibilidade de o russo integrar o novo conselho, ao lado do aliado Aleksandr Lukashenko, presidente de Belarus. “Putin é o agressor em uma guerra ilegal contra a Ucrânia e tem demonstrado repetidamente que não leva a paz a sério”, afirma o porta-voz, em nota que expõe a divisão entre Washington e um dos principais sócios da Otan.

Volodymyr Zelenski confirma que também recebe o convite, mas afasta, por ora, a ideia de se sentar à mesma mesa que Putin. “Recebemos o convite; nossos diplomatas estão trabalhando nisso”, diz o presidente ucraniano. Em seguida, admite o impasse: “É muito difícil imaginar estar sentado ao lado da Rússia em qualquer tipo de conselho.” A frase resume o dilema central da proposta: para tratar a guerra, Trump precisa reunir, no mesmo fórum, quem se recusa a reconhecer o outro como interlocutor legítimo.

Em Paris, a reação vem pelo silêncio oficial e pela recusa de Emmanuel Macron em aderir ao plano. Trump responde com ameaça econômica. Ele diz que pode impor tarifa de 200% sobre vinho e champanhe franceses, produtos que somam bilhões de dólares em exportações anuais para o mercado americano. “Vou impor uma tarifa de 200%. E ele vai se juntar. Mas ele não precisa se juntar”, afirma, sugerindo que usará o peso da economia dos EUA como alavanca diplomática.

O recado atinge diretamente setores sensíveis da economia francesa, como produtores de Bordeaux e da região de Champagne, e reabre a porta para uma disputa tarifária parecida com a travada no primeiro mandato de Trump. Na prática, o presidente testa até onde pode ir ao vincular discussões de segurança global a ameaças comerciais bilaterais.

No tabuleiro da Otan, Trump aproveita a mesma entrevista para reivindicar crédito pela sobrevivência da aliança militar criada em 1949. “Se eu não tivesse chegado, não haveria Otan agora. Teria ficado no monte de cinzas da história”, diz. Ele afirma ter encerrado “oito guerras” e volta a reclamar de nunca ter recebido o Nobel da Paz. “A Noruega controla o Nobel e isso é uma piada”, dispara, ignorando o fato de que o prêmio é decidido por um comitê independente e não pelo governo norueguês.

Disputa por protagonismo e incerteza sobre próximos passos

A criação do Conselho de Paz ocorre num momento em que a ONU enfrenta questionamentos constantes, do bloqueio no Conselho de Segurança às dificuldades de resposta a crises como Gaza e Ucrânia. Ao propor um fórum paralelo, Trump tenta capitalizar esse desgaste e oferecer uma mesa menor, mais controlada por Washington, para definir saídas políticas. O projeto, porém, nasce cercado de dúvidas jurídicas e políticas sobre sua legitimidade e alcance.

Lula entra nessa equação como peça-chave de um tabuleiro mais fragmentado. O Brasil se aproxima de Moscou e Pequim em fóruns como o Brics, mas mantém diálogo intenso com Washington e Bruxelas. Aceitar papel de destaque no Conselho de Paz pode ampliar a influência brasileira em negociações de cessar-fogo e reconstrução, mas também pode gerar atritos com parceiros que veem o movimento como tentativa de esvaziar a ONU e o sistema de tratados construído nas últimas sete décadas.

A presença simultânea de Putin e Zelenski, caso se confirme, recoloca em uma mesma sala os principais protagonistas da guerra na Europa. O desenho abre espaço, em tese, para uma negociação direta, mas também aumenta o risco de impasse e de instrumentalização política do fórum. Sem regras claras de funcionamento, peso de voto ou mecanismos de implementação de decisões, o Conselho de Paz pode virar palco de discursos, não de acordos.

Para países médios, como o Brasil, a aposta envolve custo e oportunidade. Um novo organismo que funcione à margem da ONU tende a concentrar poder nas mãos dos membros permanentes de fato, mesmo sem estrutura formal de Conselho de Segurança. A ameaça de tarifas a um sócio do G7, como a França, mostra qual é o instrumento de pressão preferencial de Trump nesse modelo: acesso ao mercado americano, não mediação via resoluções multilaterais.

Diplomatas em Brasília, Londres e Kiev agora tentam decifrar quanto do anúncio é projeto consistente e quanto é gesto político destinado a marcar diferença em relação ao mandato anterior e à própria ONU. Nas próximas semanas, a reação de Lula, a decisão de Zelenski e a postura de Putin vão indicar se o Conselho de Paz ganha corpo ou permanece como mais uma peça retórica na longa disputa por protagonismo na política internacional.

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