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Trump lança coalizão militar contra cartéis na América Latina

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anuncia neste sábado 7, em Doral, na Flórida, a criação de uma coalizão militar para combater cartéis de drogas na América Latina e Caribe. O grupo reúne 12 governos de direita e prevê o uso de força letal contra organizações criminosas, em um movimento que aprofunda a divisão política na região.

Uma guerra declarada em palco político dividido

Trump escolhe um hotel em Doral, na periferia de Miami, para transformar a retórica de guerra às drogas em compromisso militar formal. Diante de 12 líderes latino-americanos e caribenhos alinhados à direita, ele fala em um “dia histórico” e apresenta a coalizão como resposta à violência dos cartéis, que há décadas atravessa fronteiras e governos.

“O cerne do nosso acordo é o compromisso de usar força militar letal para destruir os cartéis sinistros e as redes terroristas. De uma vez por todas, vamos nos livrar deles”, afirma o republicano, em discurso preparado. A frase antecipa o tom da iniciativa: menos cooperação policial e mais lógica de campanha militar.

A cúpula, batizada de “América Contra os Cartéis”, nasce também marcada pelas ausências. Brasil, México e Colômbia, três países com os maiores territórios e populações da região e governados por presidentes de esquerda, ficam de fora. Não enviam representantes e são citados, sobretudo o México, como parte do problema, não da solução.

Trump aponta o país vizinho como “epicentro da violência dos cartéis” e ironiza a presidente Claudia Sheinbaum por rejeitar, segundo ele, ajuda direta de Washington. O ataque verbal ocorre poucas semanas depois de o Exército mexicano matar Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, de 59 anos, até então o narcotraficante mais poderoso do país e alvo de recompensa de US$ 15 milhões oferecida pelos EUA.

No palco, Trump se cerca de nomes que vê como aliados em sua visão de segurança e combate ao crime. Estão ali, entre outros, o argentino Javier Milei, o salvadorenho Nayib Bukele, o equatoriano Daniel Noboa e o paraguaio Santiago Peña. Também participa o chileno José Antonio Kast, ainda presidente eleito, que toma posse na quarta-feira 11.

Coalizão militar, Cuba na mira e risco de escalada

A ofensiva não se limita aos cartéis. Ao lado de Trump, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, lê uma declaração conjunta que autoriza uma resposta dura e unilateral de Washington. “Os Estados Unidos estão prontos para lançar uma ofensiva militar unilateral contra os cartéis”, afirma o chefe do Pentágono, deixando claro que a coalizão funciona como reforço político, não como freio.

Na mesma fala, Trump amplia o raio de ação e volta sua artilharia diplomática contra Havana. “Cuba está nos seus últimos momentos de vida tal como é agora. [O país] terá uma grande vida nova”, diz o presidente, ao anunciar que negocia uma transição com o governo cubano. Ele afirma “esperar com entusiasmo a grande mudança que em breve chegará a Cuba”, mas reconhece que, por ora, sua atenção está concentrada na guerra contra o Irã.

Trump menciona o secretário de Estado, Marco Rubio, como parceiro nessas conversas com Havana. A diplomacia, no entanto, vem acompanhada de pressão econômica. Desde a captura de Nicolás Maduro por forças americanas na Venezuela, Cuba perde o fornecimento de petróleo subsidiado de Caracas e enfrenta um bloqueio energético reforçado. Washington impõe tarifas adicionais a países que vendem petróleo à ilha, aprofundando uma crise social já crônica.

Na prática, a coalizão anunciada em Doral soma dois movimentos paralelos. De um lado, oferece cooperação militar e de inteligência a governos de direita que buscam mostrar resultados rápidos contra o crime organizado. De outro, reforça a estratégia de isolamento de regimes considerados hostis, como o cubano, usando sanções e ameaças de ação direta.

Analistas ouvidos por diplomatas na região descrevem o anúncio como o maior redesenho da política antidrogas dos EUA desde o auge da “guerra às drogas” nos anos 1980. Naquele período, a militarização do combate ao narcotráfico na América Latina aumentou o poder das Forças Armadas, mas não reduziu de forma duradoura os fluxos de cocaína e outras drogas rumo ao mercado norte-americano.

Impacto regional, exclusão de vizinhos e incertezas

O novo desenho aprofunda a clivagem política no continente. Ao excluir Brasil, México e Colômbia, a coalizão nasce sem três dos principais territórios por onde circulam drogas e armas. Essa ausência limita a eficácia prática das operações, mas reforça a narrativa de um eixo conservador alinhado a Washington em oposição a governos de esquerda.

Nos países que aderem à iniciativa, o anúncio tende a fortalecer presidentes que se vendem como duros contra o crime. Bukele já usa megacadeias e regimes de exceção em El Salvador como vitrine internacional. Milei procura capital político externo em meio a um ajuste econômico profundo na Argentina. Noboa enfrenta uma explosão recente de violência no Equador, associada a facções ligadas ao tráfico.

Especialistas em segurança alertam para a possibilidade de deslocamento dos cartéis para territórios considerados “neutros” ou hostis à coalizão, como Brasil, México e Colômbia. Uma ofensiva concentrada em alguns países pode empurrar rotas e grupos para outras fronteiras, em vez de desarticular toda a cadeia. A experiência com a morte de chefes como El Mencho mostra que a eliminação de um líder raramente destrói a estrutura financeira e logística do negócio.

Para Cuba, o recado de Doral soa como ultimato. As negociações citadas por Trump ocorrem em paralelo à manutenção de sanções que dificultam a compra de alimentos, combustíveis e insumos básicos. Organizações de direitos humanos já alertam que qualquer endurecimento adicional do bloqueio pode agravar a crise humanitária na ilha, que registra queda do PIB, apagões frequentes e aumento da migração.

Governos não alinhados, como os de Brasília, Cidade do México e Bogotá, acompanham o movimento à distância. A formação de uma frente militar sob liderança de Washington, com autorização para ações unilaterais, reacende memórias de intervenções passadas e promete tensionar debates sobre soberania, integração regional e cooperação em segurança.

Pressão por resultados rápidos e cenário em aberto

O sucesso político da coalizão depende de algo que a guerra às drogas raramente entrega: resultados rápidos, visíveis e sustentáveis. Governos que aceitam associar seus exércitos a operações lideradas pelos EUA passam a ser cobrados por quedas tangíveis em homicídios, sequestros e sequestros de carga, além de apreensões recordes de drogas e armas.

A militarização da agenda antidrogas também tende a disputar espaço com políticas de prevenção, tratamento e reforma institucional. Orçamentos nacionais pressionados podem priorizar equipamentos e operações, em detrimento de programas sociais em áreas dominadas pelo crime, justamente onde a presença do Estado civil é mais frágil.

No plano diplomático, a coalizão abre uma temporada de testes. Países que ficam de fora precisarão decidir até que ponto cooperam com informações e operações conjuntas ou se distanciam para marcar posição política. Organismos regionais tradicionais, como a OEA e a Celac, são empurrados para um papel lateral, enquanto a articulação passa por canais bilaterais e encontros seletivos como o de Doral.

A ofensiva contra cartéis e a pressão sobre Cuba se somam à guerra contra o Irã na lista de frentes abertas por Washington em 2026. Cada novo compromisso militar adiciona riscos, custos e variáveis a um tabuleiro já congestionado. A cúpula “América Contra os Cartéis” termina com declarações triunfalistas, mas deixa uma pergunta central em suspenso: quem controla, e a que preço, a guerra que acaba de ser oficialmente declarada sobre a região.

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