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Trump lança coalizão com 17 países contra cartéis nas Américas

Donald Trump anuncia neste sábado (7/3), na Flórida, a criação de uma coalizão com 17 países para combater cartéis e organizações terroristas no Hemisfério Ocidental. A iniciativa, batizada de Escudo das Américas, mira grupos que controlam territórios, influenciam governos e exportam violência pela região.

Coalizão nasce em meio à pressão por resposta regional

O anúncio ocorre durante a Cúpula do Escudo das Américas, em um resort na Flórida, e transforma em política formal um discurso que Trump repete desde a campanha. Cercado por líderes latino-americanos, o presidente afirma que o objetivo é “combater e destruir” cartéis e organizações criminosas transnacionais que ele já passa a classificar como terroristas.

Na proclamação publicada no site da Casa Branca, Trump sustenta que esses grupos “controlam territórios, influenciam sistemas políticos e judiciais, possuem armas e utilizam violência e terrorismo para alcançar seus objetivos”. O texto afirma que a administração destina “grandes recursos” para enfrentar as quadrilhas que atuam no Hemisfério Ocidental, mas não detalha valores nem prazos.

Ao lado de Javier Milei, presidente da Argentina, de José Antonio Kast, do Chile, e de Nayib Bukele, de El Salvador, Trump apresenta a coalizão como uma resposta coordenada a uma ameaça que, segundo ele, extrapola fronteiras. O palco reúne 17 países, mas três ausências chamam atenção: Brasil, Colômbia e México, todos com histórico de conflito direto com cartéis e facções armadas, não enviam representantes de alto escalão para o encontro.

Trump tenta, ainda assim, dar tom de unidade. Ele afirma que cartéis e organizações criminosas estrangeiras “devem ser desmantelados na maior extensão possível” e que os Estados Unidos e seus aliados precisam “coordenar esforços para privar essas organizações de qualquer controle territorial, além de minar seu acesso a financiamento e recursos necessários para conduzir suas campanhas de violência”.

A nova estratégia marca um passo além da tradicional “guerra às drogas” declarada por Washington desde a década de 1970. Ao tratar cartéis como terroristas, a Casa Branca abre espaço para o uso de instrumentos típicos do combate a grupos jihadistas, como congelamento agressivo de ativos, operações especiais e maior envolvimento militar direto, ainda que Trump não fale em envio de tropas de combate para solo estrangeiro neste momento.

Treinamento militar, inteligência e risco de escalada

No documento oficial, Trump afirma que os Estados Unidos vão treinar e mobilizar as Forças Armadas dos países parceiros para “alcançar a força de combate mais eficaz necessária para desmantelar os cartéis e sua capacidade de exportar violência e exercer influência por meio de intimidação organizada”. A coalizão nasce, portanto, com foco explícito em ação militar e de inteligência, e não apenas em cooperação policial.

A coordenação inclui compartilhamento de dados de inteligência, exercícios conjuntos e padronização de doutrinas de combate urbano, segundo assessores ouvidos reservadamente por veículos americanos. A ideia é atingir, ao mesmo tempo, o comando financeiro e o braço armado dos cartéis, com operações que miram desde laboratórios clandestinos até rotas de transporte em portos e fronteiras terrestres.

A iniciativa promete impacto direto em países da América Central, onde quadrilhas e gangues transnacionais controlam bairros inteiros, cobram “taxas de proteção” e interferem em eleições locais. Em El Salvador, Bukele apresenta sua própria cruzada contra maras como modelo e se alinha ao discurso de Trump de que “sem controle territorial, não há poder para esses grupos”.

Especialistas em segurança regional, porém, alertam para o risco de uma escalada de violência no curto prazo. Quando cartéis percebem ameaça ao caixa e ao território, costumam reagir com mais ataques, sequestros e confrontos diretos com forças do Estado. A história recente do México, após a ofensiva militar lançada em 2006, mostra que a fragmentação das grandes organizações muitas vezes abre espaço para grupos menores, mais violentos e menos controláveis.

A ausência de Brasil, Colômbia e México indica também um limite diplomático. Sem esses três países, que concentram rotas, produção ou trânsito de drogas, a coalizão nasce com poder político, mas alcance operacional parcial. Washington sinaliza que as conversas com esses governos seguem, mas não há prazo para uma eventual adesão formal.

Desafios, disputas políticas e próximos passos

A nova coalizão tende a aprofundar a dependência militar de países latino-americanos em relação aos Estados Unidos. Programas de treinamento, fornecimento de equipamentos e transferência de tecnologia podem reforçar laços com Washington, mas também reacendem o debate sobre soberania e sobre os limites da presença americana em bases e operações na região.

Na prática, a classificação de cartéis como organizações terroristas amplia a margem legal para sanções econômicas e para a perseguição internacional de líderes criminosos. Bancos, empresas de fachada e operadores financeiros passam a enfrentar risco maior de bloqueio de contas, apreensão de bens e processos em cortes americanas. Isso pode reduzir a capacidade desses grupos de lavar bilhões de dólares por ano, mas também empurra parte das operações para canais ainda mais clandestinos.

A iniciativa ocorre em um momento de pressão interna sobre Trump. Nos Estados Unidos, o impacto da violência ligada ao tráfico e a crise de opioides fortalecem discursos por respostas mais duras. A Casa Branca aposta que mostrar liderança regional na segurança pode render dividendos políticos, ao mesmo tempo em que projeta poder sobre a vizinhança.

Os próximos meses serão decisivos para medir se a coalizão se traduz em ações concretas ou fica restrita à retórica. Governos terão de aprovar mudanças legais, abrir orçamentos e aceitar maior integração de suas forças com comandos americanos. Cartéis, por sua vez, já monitoram o movimento e adaptam rotas, experimentando novos pontos de partida e de chegada para drogas sintéticas e cocaína.

O Escudo das Américas nasce com a promessa de alterar o equilíbrio de forças no crime organizado regional. A eficácia dessa aposta dependerá de algo que ainda falta à coalizão: a capacidade de unir respostas militares a políticas duradouras de redução de demanda por drogas, combate à corrupção e reconstrução de territórios tomados pela violência.

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