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Trump faz discurso recorde e endurece tom sobre imigração, Irã e eleições

Donald Trump faz nesta quarta-feira (25) o discurso anual mais longo ao Congresso dos Estados Unidos desde 1964 e usa a tribuna para endurecer posições sobre política externa, imigração e regras eleitorais. Em 1 hora e 47 minutos, o republicano tenta reforçar sua autoridade em ano decisivo para a agenda do governo e para a disputa política em Washington.

Recorde de tempo e clima de campanha no Capitólio

O presidente entra no plenário da Câmara dos Representantes sob aplausos da bancada republicana e sob a desconfiança visível dos democratas. O relógio logo se transforma em personagem da noite. Ao final, Trump bate o próprio recorde de 2025 e entrega o discurso anual mais longo ao Congresso em pelo menos seis décadas.

O tom lembra comício, não sessão protocolar. Em vários momentos, o presidente provoca reações calculadas: arranca aplausos estrondosos dos aliados, força silêncios constrangidos da oposição e mira diretamente as eleições futuras. Ele mistura balanço de governo, ameaças a adversários externos e recados a instituições que o contrariam.

Imigração no centro: “cuidar dos americanos, não dos irregulares”

No coração do discurso, Trump volta à bandeira que o levou à Casa Branca em 2016. Ao falar de segurança interna, pede que os presentes se levantem se concordam que o governo deve “cuidar dos cidadãos do país e não de imigrantes irregulares”. Boa parte do plenário se ergue e o aplaude por vários segundos. A ala democrata permanece sentada, em silêncio.

O presidente anuncia que enviará ao Congresso um projeto que proíbe estados de emitirem carteiras de motorista comerciais para estrangeiros em situação irregular. A proposta ganha rosto e nome. Trump diz que a lei vai homenagear Delilah Coleman, jovem americana atropelada em junho de 2024 por um caminhão. Ela sobrevive, mas sofre dano cerebral permanente. Delilah assiste à sessão na galeria, ao lado da família, enquanto o presidente descreve o acidente e responsabiliza falhas no controle de documentos.

O cálculo político é claro. Ao atrelar segurança viária, crime e política migratória, Trump tenta ampliar o alcance de uma agenda que mobiliza sua base há anos. Ao mesmo tempo, pressiona congressistas de estados fronteiriços, muitos deles dependentes do voto de eleitores que veem a imigração como principal preocupação.

Regras eleitorais e a sombra de 2020

O presidente aproveita o microfone para retomar, sem provas, desconfianças sobre o sistema eleitoral. Pede uma lei federal que obrigue todos os eleitores a apresentar documento de identificação com foto e defende o fim do voto por correio em quase todos os casos. “Chega de votos por correspondência fraudulentos, exceto em casos de doença, invalidez, serviço militar ou viagens”, afirma.

A frase ecoa o trauma político de 2020. Naquele ano, em plena pandemia de Covid-19, o voto postal dispara e decide a disputa em favor de Joe Biden. Trump lidera a contagem inicial, baseada em votos presenciais, mas perde terreno à medida que as cédulas enviadas pelo correio são apuradas. Desde então, insiste em falar em fraude, sem apresentar evidências aceitas pela Justiça. O discurso desta noite reabre a ferida e antecipa nova batalha legislativa.

Irã como “patrocinador número um do terrorismo”

A parte mais tensa da fala mira o Irã. Trump afirma que o país é o “patrocinador número um de terrorismo” no mundo e promete impedir, “a qualquer custo”, que Teerã obtenha uma arma nuclear. Ele diz que o regime já desenvolve mísseis capazes de atingir a Europa e bases americanas no exterior e trabalha para ter projéteis que alcancem o território dos Estados Unidos.

O presidente conta que Washington negocia um entendimento, mas ressalta que ainda não ouviu o que chama de “palavras secretas”: “nunca teremos uma arma nuclear”. Também acusa o governo iraniano de matar cerca de 32 mil pessoas durante protestos recentes contra a liderança do país. Os números não são detalhados, mas servem para justificar a postura de confronto e reforçar o argumento de que sanções e ameaças militares são necessárias.

Venezuela passa de alvo a “amiga e parceira”

Em movimento simbólico, Trump reserva espaço para a Venezuela. O país, que por anos ocupa o lugar de inimigo preferencial em discursos da Casa Branca, agora aparece como parceira energética. “Nós acabamos de receber da nossa nova amiga e parceira, Venezuela, mais de 80 milhões de barris de petróleo”, diz o presidente, em tom de celebração.

A reaproximação ocorre semanas depois da operação militar de 3 de janeiro, na qual forças americanas capturam Nicolás Maduro. Desde então, a presidente interina Delcy Rodríguez adota discurso de afago a Washington e sinaliza abertura para novos acordos. O fornecimento de petróleo surge como moeda política e econômica em plena transição na geopolítica da América Latina.

Tarifaço derrubado e recado à Suprema Corte

Trump não deixa passar a oportunidade de atacar outro poder. Ele classifica como “decepcionante” a decisão da Suprema Corte que considera ilegal o tarifaço imposto por seu governo a uma série de países. A crítica é feita diante de quatro ministros presentes no plenário: o presidente da Corte, John Roberts, e os juízes Elena Kagan, Brett Kavanaugh e Amy Coney Barrett.

Três deles — Roberts, Kagan e Barrett — votam contra as tarifas. O presidente não cita nomes, mas mira diretamente a instituição. O gesto explicita o atrito entre Executivo e Judiciário em torno da política comercial e cria novo foco de tensão institucional. Ao questionar em público uma decisão da Corte, Trump fala à sua base e reforça a narrativa de que enfrenta um sistema que o limita.

Impacto interno e sinais ao mundo

O discurso mais longo em mais de 60 anos deixa claro o projeto de Trump para 2026. Na política interna, ele tenta redesenhar as regras de quem pode votar e quem pode dirigir um caminhão em rodovias interestaduais. Entre a carteira de motorista de um caminhoneiro imigrante, o documento apresentado na cabine de votação e o barril de petróleo venezuelano que chega a um porto americano, o presidente costura uma narrativa de controle e força.

Para fora, o recado é duplo. Ao chamar o Irã de ameaça nuclear iminente e falar em morte de 32 mil manifestantes, Trump endurece ainda mais uma relação já marcada por sanções e ameaças de ataque. Ao mesmo tempo, ao abrir as portas a Caracas após a queda de Maduro, ele redesenha alianças na região e sinaliza que recursos estratégicos, como petróleo, pesam tanto quanto afinidades ideológicas.

O que vem a seguir no Congresso e nas ruas

As propostas anunciadas nesta noite dependem do Congresso, hoje profundamente dividido. O projeto de identificação obrigatória para votar e o pacote migratório devem enfrentar resistência imediata de democratas e de parte dos republicanos moderados. Organizações de direitos civis já se preparam para contestar eventuais leis na Justiça, alegando risco de exclusão de eleitores pobres, negros e latinos.

Nos próximos meses, comissões legislativas vão receber projetos, realizar audiências públicas e testar o fôlego político do governo. Governadores de estados fronteiriços, empresas de transporte e sindicatos observam de perto, atentos ao impacto sobre mão de obra, comércio e logística. Enquanto isso, adversários externos acompanham cada frase sobre Irã e Venezuela em busca de pistas sobre sanções, acordos e possíveis operações. O recorde de 1 hora e 47 minutos pode ter acabado ao soar da última palavra, mas as disputas que ele inaugura prometem se estender por todo o ciclo eleitoral e além.

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