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Trump faz discurso mais longo da história e nega crise nos EUA

Donald Trump transforma o tradicional discurso sobre o Estado da União, nesta segunda-feira (23), no Congresso dos EUA, em um comício de 108 minutos. O presidente ignora sinais de desgaste político, ataca democratas e nega a gravidade da crise do custo de vida e da assistência médica, a oito meses da eleição.

Rito constitucional vira palanque de campanha

O salão da Câmara dos Deputados, em Washington, recebe o que deveria ser uma prestação de contas anual. A função está na Constituição desde 1790 e marca a relação entre o chefe de Estado, o Congresso e o eleitor. Trump, no entanto, ocupa o púlpito como se estivesse num ginásio lotado em Ohio ou na Flórida. Alonga o discurso a 108 minutos, o mais longo da história, e transforma o rito em espetáculo de fidelidade política.

O presidente passa boa parte do tempo atacando os democratas, alvo preferencial desde que desce a escada rolante de sua torre em Nova York, em 2015, para lançar a primeira candidatura. Agora, no fim de fevereiro de 2026, repete o roteiro. Fala em complô, denuncia "elites", chama a oposição de "corrupta" e tenta reescrever a realidade econômica. A principal angústia da classe média, o aumento do custo de vida, vira para ele uma invenção. "Uma mentira suja e repugnante", dispara, acusando o Partido Democrata de manipular índices de inflação e salários.

A plateia se divide. Republicanos se levantam, aplaudem de pé, gritam o nome do presidente e empunham cartazes discretos com slogans de campanha. Democratas reagem de forma desorganizada. Alguns vaiam, outros deixam o plenário antes do fim do discurso. Gritos isolados interrompem a fala do presidente, mas não produzem estratégia. A oposição parece, mais uma vez, reagir ao estilo Trump, e não ao conteúdo do que ele diz.

Oposição desarticulada e país em modo reality show

A dinâmica expõe a assimetria entre as duas forças políticas. Republicanos orbitam em torno do presidente como exército profissional. Democratas, mesmo diante de pesquisas adversas, ainda buscam um tom comum. A consultora Sarah Longwell, que abandona o Partido Republicano por rejeitar o trumpismo e hoje orienta democratas, resume o clima. "Os republicanos estão em campo como mercenários, enquanto os democratas estão dando folga para todo mundo nas sextas-feiras para conversar sobre o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal", afirma, em entrevista recente à revista The Atlantic.

O contraste aparece nas pesquisas. Levantamento da rede CNN divulgado na semana do discurso mostra o apoio de eleitores independentes a Trump em queda para 26%, o índice mais baixo desde o início do mandato. Esse grupo, cerca de um terço do eleitorado, garante a vitória presidencial em 2020 e volta a ser decisivo em 2026. O discurso, pensado para reacender essa base, corre o risco de reforçar apenas o núcleo fiel e afastar o eleitorado que não se identifica com o conflito permanente.

Trump escolhe um caminho conhecido: recusa dados oficiais, relativiza a dor cotidiana e oferece, em seu lugar, vilões e medalhas. Minimiza queixas sobre aluguel, supermercado, planos de saúde e dívidas estudantis. Ironiza estatísticas de endividamento e afirma que a economia vive "o melhor momento da história americana", embora números recentes de inflação e emprego indiquem quadro mais frágil que o descrito. Em vez de detalhar propostas, distribui honrarias a aliados, homenageia empresários e militares e reserva longos minutos para se elogiar.

O resultado é um Estado da União que pouco fala da união. O presidente evita mencionar o impacto de ondas de calor históricas, que atingem cidades do Meio-Oeste e do Sul no último verão, e ignora o debate sobre violência armada, tema recorrente após massacres em escolas e supermercados. Sem plano concreto, a noite reforça a impressão de um governo que governa pelo roteiro do reality show: picos de audiência, confrontos calculados, nenhuma disposição para o consenso.

Vácuo em política externa aumenta sensação de risco

O silêncio em temas internacionais amplia a preocupação fora dos Estados Unidos. Países diretamente afetados pelo humor de Trump assistem ao discurso com mais atenção que muitos americanos. No Irã, onde protestos contra o regime terminam em repressão letal depois de o presidente americano encorajar manifestações de rua, famílias contam mortos que chegam à casa das dezenas de milhares. Organizações independentes estimam até 30 mil vítimas. Não há, na fala de 108 minutos, um plano de ajuda, um esboço de estratégia, uma frase que sinalize compromisso com reconstrução ou mediação.

Na Ucrânia, o desconforto é ainda mais direto. O país vive sob ameaça constante da Rússia de Vladimir Putin desde 2014 e depende do dinheiro, das armas e da diplomacia de Washington para conter novas ofensivas. O governo em Kiev espera que Trump reafirme o compromisso com a defesa do território ucraniano. A menção não vem. Em meio a ataques de mísseis e drones, o silêncio americano pesa tanto quanto a chuva de estilhaços. Sem um sinal claro, líderes europeus calculam o custo de uma eventual retração dos EUA e discutem, a portas fechadas, como financiar sozinhos uma guerra que já consome mais de US$ 100 bilhões em ajuda ocidental.

O vácuo estratégico alimenta a leitura de que Trump governa pensando mais no impacto imediato sobre sua base do que na arquitetura global que dá sustentação à influência americana. Em capitais aliadas, como Berlim, Paris e Tóquio, diplomatas tentam decifrar o que não foi dito. A ausência de compromissos formais, em um discurso que tradicionalmente define prioridades de política externa, abre espaço para cálculos arriscados de rivais e incerteza entre parceiros.

Discurso mais longo deixa perguntas sem resposta

A noite termina sem um mapa claro para os próximos meses. Internamente, o governo não apresenta metas verificáveis para conter o aumento do custo de vida, ampliar o acesso a planos de saúde, enfrentar a crise climática ou investir em infraestrutura. O Congresso, que ouve o presidente por mais de uma hora e meia, continua sem parâmetros objetivos para negociar orçamento, tributos e programas sociais até o fim do ano legislativo.

Na política externa, o silêncio sobre Irã e Ucrânia adiciona pressão às forças armadas americanas, que já alertam o presidente para o risco de um ataque de retaliação contra bases e navios dos EUA no Oriente Médio. O Pentágono trabalha com cenários que vão de ações pontuais de milícias apoiadas por Teerã a uma escalada regional aberta. Sem mensagem firme ao Congresso e aos aliados, a dissuasão perde parte da força.

O discurso, concebido como última grande vitrine nacional antes de novembro, acaba por cristalizar a imagem de um país dividido e exausto. Republicanos comemoram a combatividade do presidente. Democratas discutem, em voz alta, o fracasso em construir uma linguagem à altura da era da pós-verdade. Independentes, que hoje somam pouco mais de 30% do eleitorado, se perguntam o que exatamente está em jogo na eleição que se aproxima.

As próximas semanas dirão se os 108 minutos no Capitólio marcam apenas mais um episódio do reality show político americano ou um ponto de inflexão real. A economia, as ruas em Teerã e os abrigos em Kiev tendem a oferecer respostas mais sólidas que o aplauso partidário de uma noite em Washington.

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