Trump exige que Hamas entregue armas e ameaça aniquilação
Donald Trump afirma que o Hamas terá poucos dias para entregar suas armas sob ameaça de aniquilação. O ultimato, dado em Davos em janeiro de 2026, pressiona a segunda fase do cessar-fogo em Gaza e expõe a fragilidade da trégua na região.
Pressão máxima em Davos
O presidente dos Estados Unidos usa o palco do Fórum Econômico Mundial, em Davos, para enviar o recado mais duro ao Hamas desde o início das negociações de paz. Em uma sessão de perguntas e respostas após seu discurso, Trump estabelece um relógio público para o grupo que governa Gaza e condiciona a sobrevivência da trégua à entrega das armas.
“Foi com isso que eles concordaram. Eles têm que fazer isso. E vamos saber… nos próximos dois ou três dias – certamente nas próximas três semanas – se eles vão fazer isso ou não”, diz Trump, diante de chefes de Estado, executivos e diplomatas. Em seguida, ele eleva o tom a um patamar raro na diplomacia: “Se eles não fizerem isso, serão aniquilados muito rapidamente. Eles serão aniquilados”.
A fala vem menos de duas semanas após os Estados Unidos anunciarem, em 14 de janeiro, o início da segunda fase do acordo de cessar-fogo em Gaza. O plano, de 20 pontos, foi aprovado em outubro de 2025 e prevê três pilares simultâneos: o desarmamento gradual do Hamas, a retirada das tropas israelenses da Faixa de Gaza e a implantação de novas estruturas de governo e segurança no território.
Autoridades americanas admitem, em caráter reservado, que o processo emperra. O site Axios relata que integrantes do governo dos EUA temem uma deterioração rápida da situação em Gaza se não houver avanços concretos nas próximas semanas. Trump transforma essa preocupação interna em ultimato público, assumindo o risco de agravar a tensão caso o grupo não ceda.
Trégua frágil sob fogo cruzado
Desde outubro de 2025, quando o plano é adotado, a violência em Gaza diminui de forma significativa, mas não cessa. Centenas de palestinos morrem em ataques israelenses ao longo de três meses, segundo estimativas de agências internacionais que atuam na região. A trégua, sustentada por negociações indiretas e monitoramento internacional, é descrita por diplomatas como “instável” e “reversível”.
Israel mantém operações militares pontuais e ordena movimentações de famílias palestinas no sul da Faixa de Gaza, sob argumento de segurança. O deslocamento de moradores, somado à destruição acumulada de infraestrutura, alimenta o temor de uma nova crise humanitária em larga escala. Organizações que atuam no terreno relatam escassez de serviços básicos, moradia precária e dependência crescente de ajuda externa.
O acordo de cessar-fogo tenta interromper um ciclo de ofensivas e retaliações que marca a região há décadas. O Hamas, considerado grupo terrorista por Estados Unidos, União Europeia e Israel, resiste historicamente a qualquer desarmamento que não venha acompanhado de garantias firmes de fim da ocupação e de abertura política. Israel, por sua vez, condiciona a retirada de tropas e o relaxamento do bloqueio à neutralização da capacidade militar do grupo.
Trump insiste que o plano em curso oferece esse equilíbrio. Além da retirada gradual das forças israelenses, o desenho apoiado por Washington prevê um conselho de governança em Gaza com participação de representantes palestinos independentes, países árabes e observadores internacionais. Em intervenções anteriores, o presidente americano sugere que um eventual “Conselho de Paz” poderia, no futuro, até substituir parte do papel exercido hoje pela ONU, sinalizando uma reconfiguração da arquitetura multilateral.
O que está em jogo em Gaza
O ultimato reposiciona os Estados Unidos como fiador direto do cessar-fogo. Ao ameaçar “aniquilação” caso o Hamas não cumpra a exigência, Trump não fala apenas em nome de Israel, mas vincula a credibilidade de Washington à implementação da segunda fase do acordo. Na prática, isso encoraja Tel Aviv a manter postura dura e coloca pressão adicional sobre países árabes envolvidos na mediação.
Se o Hamas entregar parte significativa de seu arsenal nos prazos mencionados por Trump – de dois ou três dias, com limite de até três semanas – o governo israelense terá de iniciar retiradas visíveis de tropas e permitir o início das novas estruturas civis em Gaza. Nesse cenário, civis palestinos veriam, ainda que de forma gradual, redução da presença militar e algum alívio nas restrições de circulação e comércio.
Se o grupo resistir, a tendência é de escalada. Analistas em Washington e Tel Aviv preveem retomada de bombardeios intensos, incursões terrestres ampliadas e possível colapso do frágil cessar-fogo. Um novo ciclo de guerra poderia produzir, em poucas semanas, números de mortos e deslocados superiores aos já registrados desde outubro de 2025, com impacto direto em hospitais, escolas, campos de refugiados e redes de abastecimento.
A comunidade internacional acompanha o impasse com atenção. Países europeus, que apoiam o plano de 20 pontos, veem na segunda fase a última janela para transformar a trégua em processo político duradouro. Governos árabes, pressionados por suas opiniões públicas, tentam equilibrar críticas à retórica de Trump com o esforço para evitar que Gaza volte ao centro de uma guerra regional.
Relógio político e incertezas
O calendário desenhado por Trump adiciona uma camada política ao conflito. Os “dois ou três dias” e o prazo máximo de “três semanas” funcionam como contagem regressiva para que o governo americano demonstre resultados tangíveis em Gaza. O próprio presidente sinaliza que não descarta ações militares em outras frentes, como o Irã, mantendo em aberto a possibilidade de um tabuleiro ainda mais complexo no Oriente Médio.
Dentro de Gaza, líderes locais avaliam o custo de qualquer concessão. Entregar armas em ritmo acelerado pode ser visto por parte da população como rendição, mas a perspectiva de “aniquilação muito rápida”, nas palavras de Trump, pesa sobre qualquer cálculo. Israel, por sua vez, administra pressões internas por segurança absoluta e cobranças externas por moderação e respeito ao direito internacional.
Os próximos dias testam até onde vai a disposição das partes de transformar uma trégua frágil em mudança estrutural. O sucesso da segunda fase do acordo pode redesenhar a governança em Gaza e oferecer um raro avanço diplomático em uma região acostumada a promessas quebradas. O fracasso da iniciativa, diante do ultimato público e da ameaça de aniquilação, tende a deixar uma pergunta incômoda: quem ainda terá autoridade para negociar paz depois disso?
