Trump encerra operação do ICE em Minnesota após mortes e protestos
A operação especial do ICE em Minnesota é encerrada nesta quinta-feira (12) por decisão de Donald Trump, após a morte de dois cidadãos americanos e semanas de protestos. O anúncio é feito por Tom Homan, enviado da Casa Branca para questões de fronteira, às vésperas da votação do orçamento do Departamento de Segurança Interna no Congresso.
Pressão política, mortes e mudança de rota
Tom Homan desembarca em Minneapolis como espécie de interventor federal depois que uma operação do ICE termina com a morte do enfermeiro Alex Pretti. O americano é baleado e morto por agentes enquanto grava, com o celular, uma ação de fiscalização em uma rua residencial da cidade.
Meses antes, outra cidadã dos Estados Unidos, Renée Good, já havia sido morta em circunstâncias semelhantes, também durante uma abordagem do ICE. As duas mortes, somadas a cenas diárias de detenções em casas, carros e até envolvendo crianças, acendem o estopim de protestos em Minnesota e em outros estados.
Homan, conhecido como “czar da fronteira” e figura próxima de Trump, tenta agora redesenhar o roteiro. Em entrevista a jornalistas na manhã desta quinta, ele afirma ter proposto o fim da operação e diz que o presidente concorda. “Eu propus e o presidente Trump concordou que esta operação especial seja encerrada”, declara. Segundo ele, agentes já começam a deixar o estado.
A operação em Minnesota começa em dezembro de 2025, com o envio de cerca de 3.000 agentes federais para reforçar a repressão à imigração irregular. No papel, o foco é o combate a atravessadores de fronteira e pessoas com ordem de deportação. Na prática, a presença maciça de policiais transforma bairros inteiros e alimenta um clima de medo que atinge inclusive cidadãos com situação migratória regular.
Pretti e Good são rotulados pelo governo Trump como “terroristas” e “agitadores” logo após as mortes. Vídeos divulgados por moradores, porém, mostram que eles não ameaçam os agentes no momento em que são derrubados e baleados. As imagens ganham o país pelas redes sociais, fortalecem a reação negativa e colocam a operação sob suspeita.
No Congresso, democratas ameaçam barrar o orçamento federal com recursos extras para o Departamento de Segurança Interna, responsável pelo ICE, e empurrar Washington para uma nova paralisação. A perspectiva de um impasse orçamentário, somada à repercussão internacional das mortes, força Trump a recuar. O presidente demite Gregory Bovino, então chefe da operação, e envia Homan para tentar desarmar a crise.
Comunidade em alerta e feridas abertas
Desde dezembro, Minnesota vive sob uma rotina de vigilância permanente. Organizações comunitárias montam redes de apoio para avisar sobre blitzes, oferecer caronas seguras e acolher crianças que veem pais e mães serem levados. Igrejas e centros culturais viram pontos de encontro para relatos de abordagens agressivas e detenções súbitas.
Mesmo moradores com documentos em dia passam a reorganizar a vida. A brasileira Katia Mitchell, 53, que vive há três décadas nos Estados Unidos, descreve semanas de tensão em Minneapolis. “Espero muito que as pessoas possam voltar a trabalhar porque agora muitos não estão conseguindo pagar aluguel”, diz. Ela ajuda famílias que evitam sair de casa desde o início da operação.
O fim da ofensiva do ICE traz alívio, mas não devolve, de imediato, a confiança. “O sentimento é ambíguo, tanto de ‘só vendo para crer’ quanto de ‘alívio’”, afirma Katia. Mesmo em situação regular, ela afirma que manterá cuidados extras. “Vou continuar andando com o passaporte por um bom tempo. Perdi a confiança de que não precisarei provar quem eu sou.”
Também brasileiro, o professor Pedro A. G. dos Santos, da College of Saint Benedict e da Saint John’s University, descreve cenas recentes que não saem da cabeça. “Ontem, três pessoas que conhecemos foram levadas, incluindo um pai de família com duas crianças, sendo uma delas com autismo”, afirma. Segundo ele, grupos de voluntários seguem em vigília para monitorar a presença de agentes federais. “Não tem ninguém pensando em parar agora. A operação vai acabar, mas as ações questionáveis devem continuar.”
O governador democrata Tim Walz fala em reconstrução longa. “O longo caminho para a recuperação começa agora”, afirma, em mensagem pelas redes sociais. Ele reconhece que o impacto na economia local e na vida das pessoas não se reverte de um dia para o outro e promete trabalhar para reatar a confiança entre moradores e autoridades.
O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, também do Partido Democrata, celebra o recuo federal e tenta transformar a resistência local em símbolo nacional. “Eles acharam que poderiam nos derrotar, mas o amor pelos nossos vizinhos e a determinação de resistir podem durar mais do que uma ocupação”, diz. Para ele, a ofensiva do ICE é “catastrófica” para famílias e negócios. “Agora é hora de uma grande recuperação.”
Recuo limitado e disputa sobre o futuro
Homan insiste que o governo Trump não abandona a agenda de endurecimento migratório. Ao anunciar o fim da operação especial, ele destaca que reduz o número de agentes no estado, troca o comando local e acelera a adoção de câmeras corporais nos uniformes. A medida, apresentada como resposta à pressão por transparência, pode virar modelo para outras regiões.
Desde que assume o controle, o “czar da fronteira” reorganiza a cadeia de comando e substitui parte da equipe. Ao mesmo tempo, mantém o discurso duro contra imigrantes e acusa o governo estadual de sabotar a segurança pública. O recuo operacional não se traduz, por enquanto, em revisão da política de deportações nem em novas diretrizes claras para abordagens.
Líderes democratas em Washington descrevem o fim da operação em Minnesota como vitória parcial. O movimento reduz a tensão às vésperas da votação do orçamento do Departamento de Segurança Interna, mas não elimina a chance de novos embates sobre recursos para o ICE. Parlamentares defendem amarras mais rígidas para o uso de verbas em operações de campo e exigem investigações independentes sobre as mortes de Pretti e Good.
Na ponta, quem vive em Minnesota tenta entender o que muda de fato. O retorno gradual dos agentes para outras regiões deve aliviar a sensação de ocupação nas ruas, mas não apaga a memória de sirenes, caminhonetes oficiais e detenções às pressas. Comerciantes calculam prejuízos após meses de queda no movimento. Escolas e serviços sociais lidam com crianças que desenvolvem medo de qualquer viatura.
Organizações de direitos civis veem no uso obrigatório de câmeras corporais uma oportunidade de documentar abusos e pressionar por responsabilização. Advogados alertam, porém, que o equipamento não resolve, sozinho, práticas consideradas discriminatórias em abordagens a latinos, negros e imigrantes.
A partir desta semana, o debate em Minneapolis deixa de se concentrar apenas na retirada dos agentes e passa a girar em torno da reconstrução. Voluntários prometem manter as vigílias e monitorar o comportamento do ICE em operações de rotina. Autoridades locais falam em reforçar políticas comunitárias de segurança e integrar imigrantes à elaboração de novas regras.
A decisão de Trump encerra um capítulo da crise em Minnesota, mas não fecha a disputa em torno da política migratória americana. A forma como o governo federal lida com a pressão local e com o Congresso nas próximas semanas dirá se Minnesota será um ponto fora da curva ou o prenúncio de uma mudança mais ampla na fronteira e dentro do país.
